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Decolagem de Raucci e má sinalização reforçam precariedade do automobilismo de Brasília

O temor que existia em torno do retorno de competições de carros ao autódromo de Brasília se concretizou com a passagem da F3 Sul-Americana e do Brasileiro de Marcas pela capital federal neste fim de semana: o forte acidente de Raphael Raucci e os problemas da sinalização organizada pelo Guará Kart Clube constituem um novo capítulo de problemas

Warm Up / RENAN DO COUTO, de São Paulo

A crise do automobilismo de Brasília parece não ter fim. Neste fim de semana, o circuito recebeu competições chanceladas pela CBA pela primeira vez desde a problemática etapa da Stock Car, em junho. Novamente, foram os pontos negativos que marcaram as atividades, muito mais do que as disputas na pista e as vitórias de Felipe Guimarães, Denis Navarro e Vicente Orige.

Os problemas envolveram pontos bastante abordados pelo GRANDE PRÊMIO e pela REVISTA WARM UP nos últimos meses: a estrutura da pista e a completa desorganização nos bastidores.

O primeiro tópico foi evidenciado pela decolagem do piloto Raphael Raucci durante a primeira corrida da F3 Sul-Americana, na tarde de sábado. O segundo, pelo comunicado divulgado pelo Race Control Motor Club, que atuava na sinalização das provas no Autódromo Nelson Piquet, mas não trabalhou no Brasileiro de Marcas e na F3 lamentando “a falta de respeito com quem faz automobilismo sério”.

Foi um final de semana que atestou, portanto, como pouco mudou desde junho: apesar das promessas feitas pelos dirigentes, o tratamento dado ao automobilismo continua evidenciando despreparo e descaso.
Raphael Raucci voou em Brasília (Foto: Reprodução)

O voo de Raphael Raucci

Dessa vez, o problema não foi um bueiro e, sim, duas lombadas. O obstáculo foi construído na saída da curva 1 para evitar que os pilotos, especialmente das categorias de turismo, ganhassem tempo usando a área de escape, ou seja, desrespeitando os limites da pista.

Não foram precisas muitas voltas da primeira corrida disputada com a tal lombada para ficar provado que o artifício não era seguro. “Acabei escapando no final da reta, peguei essa ‘tartaruga’ e simplesmente decolei”, narrou Raphael Raucci, piloto da RR na F3 Sul-Americana, ao GP.

Então líder do campeonato, o paulista deu sorte por não sofrer nenhuma lesão após decolar a quase 200 km/h. O carro é que ficou bastante avariado com a aterrissagem pouco suave.

Pai de Raphael, o empresário Rogerio Raucci, chefe do time pelo qual o filho corre, ficou indignado e inconformado com o fator causador do acidente. Nas redes sociais, durante o fim de semana, Rogerio mostrou toda a sua revolta com a situação permitida pela Confederação Brasileira de Automobilismo.

Em entrevista ao GRANDE PRÊMIO, ele não quis apontar o dedo para nenhum dirigente em específico. O desejo dele, no momento, é receber da CBA uma explicação plausível para a razão de uma lombada ser construída de maneira que oferecesse tanto risco para os competidores.

“Eu não quero acusar o Cleyton [Pinteiro], não quero acusar ninguém, não vou acusar ninguém, por que eu não sei, tecnicamente, porque que aquela lombada tinha que estar lá. Eu quase perdi meu filho de 19 anos no sábado. Só quero saber porque é que aquilo estava lá. Me falem alguma coisa!”, disse, emocionado.
Raphael Raucci chegou a Brasília como líder do campeonato (Foto: Felipe Tesser / Grande Prêmio )

Rogerio ressaltou que, como chefe de equipe, cumpre com todas as suas obrigações: “O que me causa estresse, sinceramente, é que tem uma equipe, tem comissários, tem uma equipe que faz isso, eles têm que dizer se tem condição de ter a corrida. Eu cumpro todo o protocolo. Tem hora que precisa trocar a peça do carro, eu troco. Afinal de contas, é o meu filho que está sentado naquele carro. Eu espero que as pessoas façam [a delas]. Eu fui para um autódromo que tem homologação, tem liberação do órgão competente. Eu estou indignado porque quero entender como que colocam uma rampa de lançamento em uma curva de 200 km/h!”

Outra reclamação feita pelos Raucci foi com relação à falta de atenção dos médicos da prova. “Nenhum médico, em momento algum, veio me perguntar se eu estava bem”, falou Raphael. “O médico não foi perguntar para a gente, no box, se o Raphael estava bem, se não estava, se tinha se machucado, nada, ninguém”, destacou Rogerio.

Foi no briefing, realizado nas primeiras horas da manhã, que a direção de prova informou equipes e pilotos acerca da lombada. As críticas foram feitas de bate-pronto, e, inclusive, uma reclamação formal foi feita por Eduardo Bassani, chefe da equipe Bassani, do Brasileiro de Marcas.

O GRANDE PRÊMIO apurou que Bassani se manifestou oralmente no briefing e protocolou, às 8h30 do sábado (28), um protesto formal. Nas palavras do engenheiro, a lombada era completamente “equivocada” e poderia “potencializar acidentes de grandes proporções”.

“No caso da F3 Sul-Americana, com monopostos contornando a curva 0 a mais de 200 km/h e a 170 km/h a curva 1, a colocação de tais lombadas não tem nenhuma conformidade com as leis da física”, diz o documento assinado por Bassani.

Procurado pelo GP, Bassani não quis dar entrevista, mas reforçou que foi contundente no que afirmou tanto no briefing quanto no protesto fez junto à CBA.

Entre os pilotos, a medida também não foi aprovada, contou Raphael Raucci: “É um absurdo. Eu tinha até comentado com outros pilotos e todos concordaram. É uma famosa rampa de lançamento. Dei muita sorte de não ter acontecido nenhuma coisa mais grave.”

Ainda, uma fonte ouvida pelo GP ligada a uma equipe do BR de Marcas afirmou que, do jeito que o obstáculo foi concebido inicialmente, poderia não só provocar graves acidentes com fórmulas, mas também estragar bastante os bólidos de turismo.

Diante do susto e dos danos sofridos pelo carro, Raphael disse que foi até o diretor de provas na noite de sábado para comunicar que não disputaria o complemento da rodada dupla no domingo caso as lombadas não fossem removidas. Sem ele, o magro grid da F3 ficaria reduzido a míseros cinco carros.

À noite, as lombadas foram reduzidas substancialmente. “Para mim, a maior prova de que eles estavam redondamente, absolutamente e totalmente errados”, criticou Rogerio, que ainda sugeriu uma alternativa: “Podiam fazer uma marcação na zebra e dizer ‘se meter a roda aqui, meu querido, vai tomar penalização’. Eu quero ver quem vai botar a roda lá. Ninguém ia por! Agora, o sujeito não faz isso, ele mete uma lombada e põe todo mundo para correr risco de morte. É inacreditável!”

O GRANDE PRÊMIO procurou a CBA para pedir à entidade a explicação para a existência das lombadas no local, mas não conseguiu respostas até o fechamento desta matéria. O mesmo aconteceu com a Vicar, promotora do Brasileiro de Marcas e da Vicar.
O Brasileiro de Marcas correu com sinalização improvisada (Foto: Bruno Terena / Vicar)

Bandeira preta para os fiscais

“Jovens que ficam o dia todo no celular e não entendem picas. O Raphael Raucci ‘bateu’ na curva 1 e o cara do posto não deu bandeira amarela. O carro de serviço entrou na pista e ele, de novo, não deu bandeira nenhuma. O safety-car entrou, e nada de placa. Tudo porque estava olhando para o celular. Nunca vi nada tão ruim.” Esse foi o depoimento de uma fonte ao jornalista Victor Martins, editor-executivo do GRANDE PRÊMIO.

A fonte se referia aos fiscais da federação de motociclismo que trabalharam na rodada dupla do Brasileiro de Marcas e da F3 Sul-Americana.

Nos últimos anos, a sinalização de pista em Brasília vinha sendo feita pelo Race Control Motor Club. No sábado, o clube, que fez menção indireta ao ‘Dossiê de Falcatruas’ da REVISTA WARM UP, lamentou, em nota, “a falta de respeito com quem faz automobilismo sério desde que a adminstração do autódromo estava sob responsabilidade Nelson Piquet, que inclusive foi criador da equipe permanente de sinalização na época”.

“É de estarrecer a forma irresponsável como foi montada a estrutura de sinalização de pista e box pelo Guará Motor Clube, sem nenhuma consulta as pessoas quem tem (sic) a experiência técnico desportiva na realização de eventos nacionais. [...] O mais grave é que o referido clube não tem pessoal de sinalização capacitado, uma vez que nas provas de kart que realiza no Guará, não utiliza nenhum sinalizador. A estrutura montada está baseada nos sinalizadores da federação de motociclismo local, que por sinal não utiliza em suas provas todas as sinalizações e procedimentos de pista da FIA”, segue o texto.

“É importante registrar ainda que, para demérito do automobilismo do DF, os oficiais de competição de Brasília também não participarão do evento, estranhamente sendo substituídos pelos de Goiânia, em mais um ato de subordinação à federação vazia”, acrescentou o Race Control Motor Club.

O Guará Kart Clube foi eleito pela CBA como sendo o único com estrutura capaz de promover corridas no DF na ausência da Federação de Automobilismo do Distrito Federal (FADF), desfiliada pela confederação. Esse clube é dirigido por José Argenta, presidente da antiga FAU de Brasília e organizador do ‘autoduto’ financeiro revelado pela REVISTA WARM UP.

Como mencionado anteriormente, a Confederação Brasileira de Automobilismo e a Vicar não se pronunciaram até a publicação desta reportagem.