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Diretora da W Series fala em processo transparente e deseja ver pilotas “com mais atitude e força mental”

A CEO da categoria para mulheres que estreia em maio, Catherine Bond Muir, defendeu que as pilotos selecionadas entre as 60 pré-indicadas tenham personalidade e detalhou os testes pelas quais todas passarão até a escolha do grid
Warm Up / Redação GP, de Aracaju
Categoria exclusiva para mulheres, a W Series vai dar o pontapé inicial em maio deste ano. O grid ainda está para ser conhecido – 60 pilotas foram pré-selecionadas para lutarem pelos lugares disponíveis em processo que começou no último fim de semana, em Melk, na Áustria. Entre as candidatas, está a brasileira Bruna Tomaselli, que participou em 2018 da USF2000 – terceira categoria do Road to Indy, programa de acesso à Indy. Às vésperas da fase classificatória, a diretora executiva da W Series, Catherine Bond Muir, falou sobre os testes e os prazos do processo para escolha do grid, além do que espera encontrar nas futuras selecionadas. 

“Nosso primeiro teste vai ser na Áustria no fim de janeiro, vai durar quatro dias e, dali, vamos escolher as pilotos que cremos ter as habilidades necessárias para serem as melhores no futuro. Depois deste teste, haverá mais anúncios sobre quem passará à fase seguinte e logo teremos mais provas em março. Assim, as pilotas definitivas não serão selecionadas provavelmente até o final de março”, explicou a dirigente em entrevista à publicação espanhola ‘SoyMotor.com’.
 
As candidatas terão de passar por várias situações, desde testes na pista e no simulador, passando por provas de conhecimentos técnicos de engenharia e exames físicos. O objetivo de toda essa discrição, segundo Bond Muir, é selecionar aquelas que tenham possibilidade de sucesso no futuro, e não apenas as mais rápidas no “modo bruto”. A dirigente destacou ainda que acelerar e ser a mais veloz é importante, porém não será parâmetro único.
 
“No lugar das mais rápidas, creio que deveríamos dizer que serão as que provavelmente terão mais êxito no automobilismo e, obviamente, a velocidade conta em 90%. É muito importante não selecionar apenas a mais rápida em um teste final, porque esta pode pilotar de maneira insegura e fazer uma volta incrível para se classificar, mas na realidade não ser tão veloz. É quase impossível decidir pelas pilotas mais rápidas sem submetê-las a provas porque não competiram com os melhores carros, nem nas melhores categorias, então temos de reunir todas no nosso teste de março com o carro da W Series”, apontou.
Bruna Tomaselli está na disputa por uma vaga na W Series (Foto: Divulgação)
A CEO da W Series lembrou que há diferenças entre as experiências das pré-selecionadas – alguns nomes são conhecidos, como o de Carmen Jordá, que foi piloto de desenvolvimento da Lotus na Fórmula 1 –, mas que aquelas com menos quilometragem também podem desenvolver seus talentos. “Obviamente, há pilotos com mais experiência que outras, mas também contamos que algumas destas com menos experiência podem ter um grande talento, e são estas que acreditamos que podem ser campeãs no futuro", afirmou.
 
No corpo técnico da W Series estão vários nomes que trabalharam na F1, como o ex-piloto David Coulthard e o projetista Adrian Newey. Segundo Bond Muir, um passo importante é fazer com que todas corram com os mesmos carros, para que a emoção e a competitividade estejam sempre presentes.
 
“Certamente, vão haver diferenças com relação à F1, porém teremos emoção, porque todas vão guiar o mesmo carro, o Tatuus F3 T-318. Espero que isso nos ajude a criar uma competição muito boa. Estamos decididos a fazer todos os nossos monopostos completamente iguais, pois confiamos que isso será atrativo para a audiência”, ressaltou.
 
Outro ponto importante para atração do público é a manutenção da credibilidade do campeonato. Por isso, a W Series tem feito grande divulgação e abriu o processo de seleção ao público, para que as candidatas possam ser conhecidas. Bond Muir disse que acima das histórias e do poder de divulgação na mídia, o mais importante é que elas tenham a atitude e a força mental para competir e ganhar no automobilismo.
 
“As histórias das pessoas são completamente irrelevantes para o processo de seleção, o importante é que talvez 20% tenham a atitude mental. Há exemplos de pilotos de F1 que são muito rápidos por natureza, mas não tem a atitude mental suficiente para ganhar. Elas precisam ter a atitude correta para serem campeãs, trabalhar e ter a ambição que necessitam para alcançar o topo do automobilismo. E cremos que elas têm isso tudo. Nenhuma decisão se tomará segundo a capacidade de comercialização de um perfil”, contou a dirigente.
 
“Isso não é entretenimento, precisamos de um processo porque temos de escolher as melhores. É necessário haver transparência nesse processo, para que as pessoas, como eu e você, saibam que existe algo adequado. Senão como as selecionaríamos? Por beleza? Nunca faríamos isso, precisamos da seleção para haver alguma ciência. Somos um negócio moderno, o que precisamos fazer é construir uma audiência e por isso vamos contar ao nosso público as histórias, o que estamos fazendo e como estamos fazendo”, acrescentou.
 
Para falar de forma mais aberta sobre esta personalidade, Bond Muir volta à F1. Ela usou como exemplo a confusão entre Max Verstappen e Esteban Ocon no GP do Brasil de 2018 para ressaltar que todos estão suscetíveis a estas atitudes. Na ocasião, após ser atingido e perder a liderança pelo retardatário Ocon, Verstappen foi tirar satisfações no pós-corrida e eles quase partiram às vias de fato.
 
“Não dá para evitar. É muito difícil, e os esportes a motor talvez sejam os mais sujeitos a isso, porque são sempre como uma luta. Entendo que as pessoas percam os nervos, não dá para dizer a elas que neste tipo de circunstâncias não os percam. São reações completamente naturais, seria surreal dizer isso porque somos humanos. Seria como um Big Brother, controlam as pessoas para criar polêmica. E nós nunca faríamos algo assim, jamais exploraríamos nossas pilotas. Você pode estabelecer regras, dizer às pessoas que não façam isso, mas eles vão perder igualmente os nervos se pensarem que alguém lhes tirou da pista”, defendeu.
Carro da W Series (Foto: Reprodução/WSeries)
Por fim, a dirigente falou sobre outra questão que chamou a atenção na categoria: as premiações. Enquanto a vencedora do campeonato vai receber € 400 mil (cerca de R$ 1,7 milhão), todas as outras competidoras serão premiadas, dividindo entre elas um total de quase € 900 (R$ 3,8 mi). Para a CEO, isso é importante para ajudar estas mulheres a ter mais condições de alçar voos maiores no automobilismo.
 
“Algumas terão mais êxito que outras e podem usar isso para conseguir melhores patrocinadores e avançar, porque na F1 também se depende de reunir patrocínios, não é o esporte mais justo do mundo. Espero que possamos lhes dar algumas ferramentas melhores para que possam ter mais dinheiro e ir a outra categoria”, complementou. 
 
Cada um dos fins de semana de corrida será dividido em duas sessões de treinos livres, treino classificatório e corrida com 30 minutos, mais uma volta. A temporada 2019 da W Series começa em 4 e 5 de maio, em Hockenheim, na Alemanha.
 
Serão seis etapas: além de Hockenheim, as outras corridas serão em Zolder (Bélgica, 18 e 19 de maio), Misano (Itália, 8 e 9 de junho), Norisring (Alemanha, 6 e 7 de julho), Assen (Holanda, 20 e 21 de julho) e Brands Hatch (Inglaterra, 10 e 11 de agosto).