Médico pede tempo, mas crê que lesão de Zanardi é menos grave que de Schumacher

Giuseppe Oliveri, neurocirurgião que operou Alessandro Zanardi após o grave acidente sofrido na última sexta-feira (19), entende que o quadro clínico do italiano descarta, neste momento, lesão axonal no cérebro. Entretanto, o médico deixou claro que é preciso tempo para entender exatamente a dimensão da lesão e o tempo de recuperação

No terceiro dia após o grave acidente sofrido durante uma atividade com bicicleta adaptada na cidade de Pienza, próximo a Siena, na Itália, Alessandro Zanardi segue na UTI do Hospital Santa Maria alle Scotte di Siena e em coma induzido. No momento, a junta médica que cuida do bicampeão da Cart e multicampeão paralímpico trata qualquer prognóstico a seu respeito com cautela. Entretanto, Giuseppe Oliveri, neurocirurgião que o operou, entende que as lesões sofridas pelo italiano são menos severas na comparação com Michael Schumacher, que sofreu acidente na estação de esqui de Méribel, nos Alpes Franceses, em 29 de dezembro de 2013 e, desde então, luta para se recuperar.

Uma lesão axonal difusa, como a sofrida por Schumacher em razão da forte pancada da cabeça, ocorre quando, por conta do impacto, o cérebro se move para trás, para frente ou para os lados, batendo no crânio de maneira violenta. Trata-se de um dano bastante grave porque as células nervosas que permitem funções neuronais normais são rompidas.

Em entrevista ao jornal La Gazzetta dello Sport, Oliveri disse que não vê em Zanardi os danos axonais sofridos por Schumacher. Contudo, o médico alerta que é preciso de tempo para entender a real dimensão das lesões de Alessandro.

“Uma lesão tão séria quanto a de Schumacher? É muito cedo para entender a lesão. O dano axonal no cérebro parece ter sido evitado, mas leva tempo. A lesão axonal difusa é muito extensa em todo o córtex cerebral, com o qual dificilmente são recuperadas as funções cognitivas e motoras”, declarou.

Alessandro Zanardi está em coma induzido após o acidente sofrido na última sexta-feira (Foto: Rodrigo Berton/Grande Prêmio)

“O cérebro é um órgão em movimento dentro de uma caixa rígida. Esse trauma também pode lesionar áreas distantes do local do impacto. O ponto de impacto não mostra se há lesões dentro do crânio ou onde elas estão”, continuou o neurocirurgião, que voltou a ponderar: é preciso de tempo para entender a dimensão das lesões sofridas por Zanardi.

“Em lesões desse tipo, certamente vai levar alguns dias. Uma semana, talvez duas. Estamos falando de um paciente frágil, porque ele sofreu um ferimento grave na cabeça. É preciso ter muito cuidado. O pior é ficar ansioso e antecipar os passos. Isso não é bom”, salientou.

Oliveri lembra que a forma de Zanardi enquanto atleta de alto nível tende a ser um importante fator no seu processo de recuperação. “Ele nunca mais será o mesmo? É muito cedo para dizer. Por enquanto, o fato de o paciente estar estável é uma boa notícia. O máximo que se pode dizer agora é que ele tem as características de um atleta e, portanto, goza de condições gerais. É algo que leva ao otimismo”, concluiu.

Entenda o acidente

Na última sexta-feira sexta-feira (19), Zanardi se acidentou quando competia em uma bicicleta adaptada na cidade de Pienza. O ex-piloto se chocou com um veículo pesado e sofreu múltiplos traumas, sendo removido do local de helicóptero. O procedimento na cabeça de Alex aconteceu pouco mais de duas horas após a notícia de seu acidente.

Alessandro participava de uma das etapas do revezamento Obiettivo Tricolore (Objetivo Tricolor), uma jornada que reúne atletas paralímpicos em bicicletas de mão, bicicletas ou cadeiras de rodas olímpicas. Os participantes realizavam deslocamento entre duas etapas e passavam pelo km 146 da estrada entre Pienza e San Quirico d’Orci quando o incidente aconteceu. Os relatos são de que Zanardi perdeu controle, entrou na contramão e acabou atingido por caminhão.

Uma trajetória vitoriosa

Zanardi apareceu para o mundo do automobilismo em 1991, quando foi vice-campeão da F3000, perdendo para Christian Fittipaldi. Foi ainda no fim daquele ano que o italiano chegou ao grid da Fórmula 1, realizando três corridas com a Jordan. Nas temporadas seguintes, passou sem brilho por Minardi e Lotus até rumar para a Indy.

Foi nos EUA que Alex se encontrou e virou uma estrela. Em três anos de Ganassi, foi campeão em 1997 e 1998, conseguindo voltar à F1 em 1999, mas novamente sem sucesso, na época com a Williams. Em 2001, o piloto reapareceu na Indy com a Mo Nunn e, na etapa da Alemanha, em Lausitzring, sofreu um acidente que mudou os rumos de sua vida. Após fazer um pit-stop, o então líder da prova perdeu o controle na saída do pit-lane, rodou e foi acertado em cheio pelo carro de Alex Tagliani. A impacto da batida foi fortíssimo, e Alessandro perdeu as duas pernas.

Mas Zanardi jamais esmoreceu, jamais desanimou. Um ano depois, voltou à mesma Lausitzring e completou as 13 voltas que faltavam para completar a corrida de 2001, com um modelo adaptado. O piloto seguiu sua carreira no automobilismo, correndo no WTCC (Mundial de Carros de Turismo), pela BMW, inclusive vencendo corridas. Mas pouco a pouco, o foco do italiano mudava para as competições paralímpicas e viu nas maratonas um novo desafio a ser suplantado.

Foi em 2007 que Zanardi participou pela primeira vez da Maratona de Nova York, quando terminou em quarto na competição das bicicletas de mão. Era só o começo da sua jornada vitoriosa no esporte paralímpico. Em 2011, Alex venceu as maratonas de Nova York e também de Veneza, além de assegurar a classificação para os Jogos de Londres, seu grande objetivo, e de garantir a medalha de prata no Mundial. Naquele ano, Zanardi venceu também a Maratona de Roma, chegando assim à Inglaterra na condição de favorito nas três provas em que foi inscrito: corrida contrarrelógio, a prova de estrada e também o revezamento.

Em Londres, foram dois ouros e uma prata, marca que se repetiu quatro anos mais tarde, no Rio de Janeiro.

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