Lendas do Rali dos Sertões: André Azevedo

Grande Prêmio abre cobertura da maior competição cross-country no mundo disputada dentro de um só país com o especial ‘Lendas do Rali dos Sertões’. Pentacampeão, André Azevedo inicia a série de entrevistas com campeões que fizeram a história de 20 anos da prova

É impossível falar em rali de resistência no Brasil sem mencionar André Azevedo. Com 53 anos recém-completados, o engenheiro e experiente piloto, natural de São José dos Campos, foi, ao lado de Klever Kolberg, o pioneiro do Brasil no Dakar e, anos depois, marcou época também no Rali dos Sertões. Foram nada menos que cinco títulos: 1997 e 1998, como copiloto do gaúcho Kolberg, na categoria Carros, e depois, em 2000, 2002 e 2004 correndo na categoria Caminhões. Lendário, André chegou, neste ano, à sua 25ª participação no Dakar. E em agosto, o paulista vai disputar, ao lado de outros tantos pilotos que fazem a história do rali brasileiro, o 20º Sertões.

E nada melhor que um piloto vencedor e histórico para o automobilismo brasileiro, como é André Azevedo, para abrir a série ‘Lendas do Rali dos Sertões’ no site Grande Prêmio. Na entrevista a seguir, que fez parte da reportagem especial publicada na Revista WARM UP 28, Azevedo falou um pouco da sua história no Sertões: como tudo começou, sucessos, dificuldades, momentos marcantes, além da sua expectativa para a participação na edição deste ano e também seu panorama do momento atual do rali no Brasil.

Confira a entrevista do pentacampeão André Azevedo no início da série ‘Lendas do Sertões’:

GP: Como e quando começou essa história de amor do André Azevedo com o Rali dos Sertões?

AA: O Rali dos Sertões entrou na minha vida como uma consequência de minha paixão pela aventura. No início eu pilotava motocicletas e entrei para o motocross. Depois segui participando de enduros de velocidade e regularidade até chegar finalmente ao rali.

GP: Em todos esses anos, o Rali dos Sertões atravessou uma evolução tecnológica, esportiva e organizacional bastante grande. Como você percebeu esse crescimento com o passar do tempo?

AA: Todos nós evoluímos e isso é muito bom. A cada ano a organização vai descobrindo novos roteiros, empolgando os competidores. Com a regra de não conhecer previamente o percurso, isso acaba igualando oportunidades e deixando os participantes muito ansiosos antes de qualquer largada. A evolução no quesito segurança, com a utilização de sentinel e telefone por satélite, também mostram o profissionalismo do rali.
 

Azevedo abre a série 'Lendas do Rali dos Sertões' (Foto: Marcelo Maragni)


GP: Foram cinco títulos do Sertões: 1997 e 1998, em parceria com o Klever Kolberg, nos Carros, e 2000, 2002 e 2004, sempre com Mercedes, nos pesados. Nesse período todo, que mais você percebeu de mudanças na competição como um todo entre o período dos dois bicampeonatos?

AA: A evolução técnica dos veículos fez com que a organização dificultasse o roteiro, aumentando a exigência de navegação e os obstáculos do trajeto, onde a cada ano velocidades maiores são alcançadas. Entre os caminhões sempre temos que realizar incrementos no desempenho, durabilidade e resistência para aguentarem uma prova difícil e de longa duração.

GP: O que é crucial para vencer uma prova tão difícil como é o Rali dos Sertões, André?

AA: Vários itens são cruciais e todos se complementam. Iniciamos com uma boa preparação do veículo, montamos uma equipe de apoio profissional e para um piloto é essencial um ótimo navegador.

GP: Certamente que nessa sua trajetória de sucesso no Sertões você viveu momentos marcantes e momentos difíceis também. Qual foi, ou quais foram os momentos de maior dificuldade em sua carreira no Sertões?  

AA: No Sertões por duas vezes as pontes não aguentaram o peso do caminhão e perdi uma boa classificação devido à sua quebra. Isso é muito difícil de digerir, como também quebras do veículo no meio do caminho. Acidentes com lesão corporal nunca tive já que sempre participei do Sertões de carro e caminhão, sendo mais difícil de ocorrer ao contrário de quem compete de moto.

GP: E, tirando os títulos, quais foram os momentos mais marcantes nessa trajetória toda? Você tem alguma história em especial?

AA: Teve uma edição do Rali dos Sertões, numa etapa realizada no interior do Piauí, que foi muito marcante. Eu aguardava minha largada em um lugar ermo de uma pequena cidade do interior deste Estado e parei à sombra de uma grande árvore. Naquele mesmo local tinham crianças brincando e quando sai do caminhão para checar a calibragem dos pneus um dos guris me falou "já vi o seu caminhão".

Na hora pensei que ele estava brincando, pois a cada ano o roteiro do rali é diferente e nunca havia passado por ali, mas mesmo assim continuei conversando com o menino. Ele me disse que tinha visto uma foto do veículo parado na frente de uma torre de ferro bem grande….

Demorou um pouco para ‘minha ficha cair’, mas me recordei que antes da largada do Rali Dakar eu costumava tirar fotos no Trocadero, em frente à Torre Eiffel, em Paris, para divulgação. Com isto percebi como é importante dar um bom exemplo, pois você não sabe até onde pode influenciar outras pessoas!

GP: Ano passado o Sertões teve poucos caminhões inscritos, se não me engano foram cinco. Mas neste ano a prova voltou a atrair muitos competidores. Por que essa queda no ano passado?  

AA: Acredito que é sazonal. Salvo engano, já tivemos até 16 caminhões largando no Rali dos Sertões, só que muitos não conseguem patrocinadores para a edição seguinte, inviabilizando a sua participação.

Uma questão que sempre defendi é que a categoria caminhão tem uma divulgação bem menor do que as demais, pois os horários para se enviar fotos, resultados e histórias do dia são sempre os últimos. A imprensa acaba repercutindo mais a moto e carro, portanto, e o caminhão acaba perdendo espaço por ter a largada mais tarde. Este ano, por exemplo, pela primeira vez o Super Prime será transmitido ao vivo por TV a cabo, e os caminhões estão fora da programação, só moto e carro.
 

Rali dos Sertões completa 20 anos em 2012 (Foto: Brasil Dakar/ Divulgação)


GP: Pela primeira vez a prova vai ter um percurso todo no Norte-Nordeste, saindo de São Luís e terminando em Fortaleza. Qual a sua opinião e expectativa sobre o novo roteiro, completamente diferente das últimas edições do Sertões?

AA: Muito bom, as dificuldades logo no início vão impor um ritmo diferente, além das etapas Maratonas. Com certeza a tabela de classificação vai ter chances de mudanças diárias. Também acredito que encontraremos muitas dificuldades técnicas ao longo do percurso.

GP: Sendo um percurso com predominância de areia, você acha que é um roteiro que se aproxima mais do Dakar?  

AA: No Dakar o piso de areia não é predominante no percurso, o que ocorre é que é importante e decisivo. Mas também temos muita pedra e terra batida, embora seja na areia onde se decide o rali, por conta da exigência de navegação e pilotagem.

GP: Fazendo uma comparação, como é a sua pilotagem no Sertões, considerando que o Mercedes Atego é bem mais leve que o Tatra que você guia no Dakar?

AA: Na areia o Tatra tem um dispositivo que me ajuda muito nesta situação: o fato de poder encher ou esvaziar o pneu andando. Na areia, se não está com a pressão adequada, é uma armadilha bem traiçoeira para se atolar. O Mercedes, por ser mais leve, tem uma certa vantagem na areia.

GP: Durante muito tempo vocês tiveram o patrocínio da Petrobras. Neste ano, depois de um longo vínculo, acabou a parceria. Qual a sua opinião sobre o fim dessa parceria?

AA: Tivemos uma parceria de sucesso com a Petrobras, acredito que com 19 anos de parceria seja a equipe com mais anos seguidos de patrocínio no esporte a motor. No mundo corporativo mudanças acontecem e existem decisões que não são possíveis de alteração. Infelizmente a Equipe Petrobras Lubrax terminou na última edição do Rali Dakar, mas a equipe deixou várias conquistas para lembrar.

GP: Pra fechar, qual a sua opinião sobre o atual estágio do rali no Brasil?

AA: Acho muito bom. Nosso Rali dos Sertões é a segunda maior prova do mundo nesta modalidade, os estrangeiros têm vontade de conhecer a competição. O que está bom? O nível da organização, a recepção nas cidades por onde passamos, os concorrentes sempre evoluindo e muita gente acompanhando. O que está ruim?  Acho que a mídia no geral ainda não divulga o suficiente este rali para deixá-lo com mais notoriedade e com isto facilitar a busca de parceiros econômicos. O que precisa mudar e melhorar? Meu ponto de vista sempre será de dentro de um caminhão de corrida, mas quanto mais patrocinadores usarem a ferramenta ‘Rali dos Sertões’ para suas ações de marketing e relacionamento, de teste à comprovação de produtos e serviços, saberão o grande potencial do evento.

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