Pelo sonho de completar Sertões, pilotos mostram que vencer nem sempre significa chegar na frente

No grid do Rali dos Sertões, há espaço para os pilotos de elite, como Stéphane Peterhansel, Guilherme Spinelli e Felipe Zanol, mas também há lugar para quem busque a realização de um sonho, ainda que este sonho nem sempre signifique terminar entre os primeiros lugares

É normal, até mesmo em uma competição da envergadura do Rali dos Sertões, que os grandes favoritos à vitória sejam mais citados pela imprensa e até mesmo pelos torcedores e fãs do rali aqui e ali. É assim em qualquer outro esporte. Contudo, apesar da grandeza e relevância no mundo off-road, pilotos como Stéphane Peterhansel, Guilherme Spinelli, Felipe Zanol, Jean e seu irmão, André Azevedo, Edu Piano, Riamburgo Ximenes, entre tantos outros, eles não estão sozinhos nessa jornada. O grid do Sertões é enorme, mas sempre há espaço para a realização de sonhos. E não há como mensurar o tamanho e importância da realização de um sonho. Sonhos são sempre grandes, e muitas vezes nada têm a ver com chegar no primeiro lugar.

Muita gente já ficou pelo caminho no 20º Rali dos Sertões. Na competição das motos, largaram 58 pilotos, mas apenas 42 estão na prova. Categorias ‘irmãs’, quadriciclos e UTVs têm números semelhantes: nos quadris, largaram nove pilotos, mas ainda restam seis, enquanto na categoria experimental, metade do grid já está fora da competição, restando também seis duplas. Três dos dez caminhões inscritos deixaram a prova, enquanto são 37 as duplas ‘sobreviventes’ nos carros, nove deixaram a disputa. Ainda são muitos os que sonham em chegar a Fortaleza.

Zanol chegou ao 20º Sertões com a meta principal de finalmente chegar ao título (Foto: Marcelo Maragni/Fotoarena)

E foi com o sonho de levar o nome do seu estado à rampa da vitória do Rali dos Sertões, em Fortaleza, que Luís Tarquinio Cruz, de 38 anos, se inscreveu para participar da prova pela primeira vez. Ele corre pela equipe Maranhão nos Sertões e almeja objetivo tão nobre quanto à conquista da corrida nos quadriciclos, sua categoria. Para Tarquinio e para tantos outros, poder chegar ao fim da prova, na capital cearense, será a sua grande vitória.

Entrevistado pelo Grande Prêmio em Palmas, após a quinta especial do Rali dos Sertões, entre Carolina, no Maranhão, e a capital do Tocantins, na última quinta-feira (23), Tarquinio contou que viveu dias duros ultimamente, mas, mesmo diante de grandes dificuldades, que são ainda maiores para um novato, o maranhense não abandona a luta.

“Comecei bem, liderei os dois primeiros dias. Depois comecei a ter um pouco mais de problemas”, contou Luís. “Ontem, ou melhor, hoje, cheguei no acampamento às 3h da manhã e fiquei a noite inteira acordado para ajudar a equipe a fazer os reparos”, disse o competidor, que resiste bravamente e segue na prova. Tarquinio é o sexto e último dentre os seis pilotos que ainda seguem na disputa dos quadris.

Mas para o maranhense, nada mais importa, a não ser chegar na bela Fortaleza. “O principal objetivo é chegar em Fortaleza. Se eu conseguir isso, ficarei bem feliz”, concluiu o piloto, que ainda terá cinco duros dias pela frente, a começar pela segunda etapa Maratona, que vai iniciar a travessia do temido deserto do Jalapão, entre o norte do Tocantins e o sul do Maranhão.

Em seu primeiro Sertões, Tarquinio busca a nobre meta de chegar ao fim da prova, em Fortaleza (Foto: Theo Ribeiro/Fotoarena)

Também em seu primeiro Rali dos Sertões, Victor Caballero criou coragem para participar pela primeira vez da competição depois de ver o filho Rodrigo, de 22 anos, já ter disputado outras três edições, além de já ter corrido no Dakar em duas oportunidades. Na lista oficial dos inscritos da 20ª edição do Rali dos Sertões, Caballero pai e seu navegador, Jorge Pérez, alinham um Toyota Cruiser na principal categoria do grid, a T1 FIA. Contudo, o piloto chileno, natural de Iquique, está longe de brigar pelo título com Peterhansel e Spinelli.

“A minha grande vitória será chegar em Fortaleza”, disse Victor, que guia um imponente Toyota laranja. Sua preocupação está longe dos resultados, pelo menos para esse primeiro ano, que está servindo para conhecer na pele um dos maiores ralis cross-country do mundo.

“Estou gostando muito desta minha primeira experiência no Sertões. Já vim aqui três vezes apoiando meu filho, e depois decidi correr neste ano. Estou encantado com o carinho e a forma como o pessoal do Brasil me recebeu. Estou muito feliz”, afirmou Caballero, que revelou ter andado, junto com sua equipe de apoio, composta por 12 pessoas, nada menos que 6 mil km entre Iquique e São Luís, ponto de partida do Sertões. A comitiva chilena andará praticamente outros 6 mil e mais sete dias de estrada para voltar para casa, na próxima semana.

A disputa pelo título das subcategorias também acaba servindo como motivação para pilotos e navegadores que não têm chances de lutar pela taça na categoria geral. Marcos Cassol é exemplo vivo disso. O gaúcho, radicado na cidade goiana de Rio Verde, conquistou o Rali dos Sertões na categoria Caminhões, em 2010. Depois de ter ficado de fora da edição passada por motivos pessoais, Cassol, que também corre na Mitsubishi Cup, voltou ao maior rali do Brasil, mas não mais na competição dos ‘brutos’, e sim nos carros, na categoria Production T2.

Cassol, que corre ao lado de Felipe Eckel, vem para este Sertões como piloto oficial da Troller, que, por sua vez, conta com a preparação da equipe Território, de Edu Piano. Ciente de que é impossível lutar contra Stéphane Peterhansel e Guilherme Spinelli pelo título na classificação geral, Cassol traçou meta bastante razoável para a sua jornada na 20ª edição do Rali dos Sertões.

“A proposta é a equipe ganhar todas as etapas na T2. O carro veio para isso, para provar que é bom, para ganhar mesmo. A gente tem muita coisa já montada, muita mudança para fazer para melhorar o carro”, comentou o gaúcho, surpreso com o bom desempenho do Troller no Sertões. Na última especial, entre Carolina e Palmas, a dupla Cassol-Eckel ficou em 16º no geral. “Esperava andar entre o 30º lugar, 25º, e isso está acontecendo, nas não em um dia tão bom. Quando o dia é bom chegamos entre os 15 primeiros, e isso é gratificante.”

Visando a chegada em Fortaleza, no próximo dia 28, Marcos espera enfrentar dias livres de problemas para poder dar uma vitória à Troller na Production T2. “A meta é manter a boa performance. Nosso intuito é chegar em primeiro e segundo e garantir a dobradinha da Troller.”

Só há vencedores (e vencedoras, como Moara) no Sertões (Foto: David Santos Jr./Fotoarena)

Se Cassol vem mantendo uma performance constante e está satisfeito com os resultados até o momento, Moara Sacilotti tem sentimento oposto. A experiente pilota, de 33 anos e que compete no Sertões 2012 com uma Kawasaki, enfrentou vários problemas, sobretudo nos dois primeiros dias, e sofreu uma queda, sem gravidade. Mas ela já não se permite sonhar mais com boas posições. O objetivo da bela de São José dos Campos é um só: completar o Rali dos Sertões.

“Esse Sertões está longe de ser o melhor que eu já fiz. Agora estou em uma situação que não adianta muito querer ganhar no braço. Amanhã tem a etapa Maratona, no Jalapão, e espero que amanhã eu consiga ganhar algumas posições, mas a minha grande vitória será chegar ao final. Na situação em que eu estou, já vou ficar bem satisfeita”, disse a competidora, irmã de Ramon Sacilotti, piloto igualmente experiente no cross-country brasileiro.

Por fim, a reportagem conversou com André Marcondes. Talvez o piloto, que pela sétima vez participa do Sertões, sempre correndo com motos, tenha dado a melhor definição do que representa a prova para muitos daqueles que fazem parte do grid e que buscam chegar ao fim dos quase 5 mil km de trecho total do rali.

“O Sertões é, para mim, como se fosse o Caminho de Santiago”, definiu Marcondes, colocando o rali em um patamar celestial. “Durante o percurso, você está lá, como se estivesse conversando com Deus, buscando um caminho, uma luz, um sonho, uma vitória. E o Sertões é isso. Cada um tem a sua meta, cada um tem seu objetivo, cada um tem um sonho.”

“Eu sigo meu caminho, sigo em busca da minha vitória, que, neste ano, é chegar em Fortaleza”, garantiu André. “Aqui cada dia é um desafio; chegar ao fim de cada etapa é uma vitória. Esse é o Sertões, é o Caminho de Santiago em cima de duas rodas”, completou Marcondes, feliz por simplesmente poder competir e poder vislumbrar algumas das paisagens mais belas do mundo, que fazem parte da rota do Rali dos Sertões.

Em uma prova tão dura como vem sendo o Sertões 2012, não existem meros primeiro ou segundo colocados. Seja Peterhansel, Zanol, Caballero, André Marcondes ou Moara Sacilotti, todos, de uma forma ou de outra, brigam pelo mesmo ideal. No fim das contas, o que fica é o prazer por conseguir completar um desafio: como um escalador que alcança o Everest, como um corredor que quebra um recorde mundial, como um piloto que chega ao fim do Sertões, o rali onde não existem vencidos, apenas vencedores.

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