Diferença entre Toyota e Chevrolet é “muito ruim para mercado” da Stock Car, diz Abreu

O sorocabano, que corre com o Chevrolet Cruze da equipe Crown Racing nesta temporada, diz que o domínio da Toyota neste primeiro ano da marca na Stock Car “dá uma desestimulada” e é preocupante quanto ao presente ao futuro na categoria

A disparidade de forças entre Toyota e Chevrolet na primeira metade da temporada 2020 da Stock Car tem chamado a atenção e, ao mesmo tempo, tem preocupado sobretudo quem corre com o Cruze da marca da gravatinha. Átila Abreu, que neste ano corre pela equipe fluminense Crown Racing, é um deles. O piloto, que desde 2015 representa a Shell no grid da principal categoria do automobilismo nacional, avisa que é a favor da vinda não somente da Toyota, mas torce por mais marcas no grid, mas, ao mesmo tempo, se mostra frustrado com a diferença de performance até agora no campeonato. “Dá uma desestimulada”, disse Abreu em entrevista exclusiva ao GRANDE PRÊMIO.

Na esteira da adoção de uma nova geração de carros, a Stock Car também celebrou a vinda da Toyota, uma das montadoras mais importantes do mundo e presente em competições de alto nível no esporte a motor como Mundial de Endurance, Mundial de Rali e a Nascar. A marca japonesa chegou neste ano à Stock Car para medir forças com a Chevrolet, presente no grid da categoria desde o início da sua história, em 1979.

Com quantidade de carros mais reduzida neste incomum 2020 na Stock Car, com cerca de 24 ao todo, contra até mais de 30 nos últimos anos, a Toyota atua neste primeiro ano na categoria com três equipes: alinha quatro Corolla com a Full Time — Rubens Barrichello, Nelsinho Piquet, Rafael Suzuki e Matías Rossi —, dois com a A.Mattheis Ipiranga — com Thiago Camilo e César Ramos — e outros dois com a RCM, a segunda equipe de Rosinei Campos, o ‘Meinha’, com Ricardo Zonta e Bruno Baptista. As demais equipes do grid contam com os Chevrolet Cruze.

A Toyota vive uma temporada superior à Chevrolet na Stock Car em 2020 (Foto: RCM)

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Neste fim de semana, a Stock Car atravessa seu equador e entra na segunda metade do campeonato com a etapa do Velocitta, em Mogi Guaçu, interior de São Paulo. Até aqui, a temporada, que teve início apenas no último fim de semana de julho, em razão das consequências da pandemia do novo coronavírus, teve nove corridas. Oito pilotos diferentes venceram, sendo que sete correm com Toyota Corolla — Zonta, que triunfou duas vezes; Barrichello, Nelsinho, Suzuki, Camilo e Baptista.

Dentre os pilotos que correm com Chevrolet Cruze, somente dois venceram, e nas corridas 2 — as que têm o alinhamento inicial definido pelo grid invertido em relação aos dez primeiros da primeira prova: Ricardo Maurício, em Londrina, e Daniel Serra, em Cascavel, os dois da equipe RC Eurofarma. Em classificações, contudo, a Toyota faturou a pole em todas as sessões disputadas até aqui no campeonato: Zonta, Ramos e Camilo — duas vezes, cada —, e Baptista.

No campeonato, seis dos oito pilotos que correm com Corolla integram o top-10 da tabela. Dos outros quatro empurrados pelo Chevrolet Cruze, o melhor colocado é Maurício, terceiro colocado com 130 pontos, 16 tentos atrás do líder, Ramos, que soma 146. Daniel Serra, atual tricampeão, é o sexto, com 119 pontos, enquanto Átila aparece logo atrás, com 116, exatos 30 pontos atrás do líder.

E mesmo tendo a Stock Car adotado o que é chamado de ‘lastro de sucesso’, com distribuição de peso extra para o carro de cada um dos cinco primeiros colocados do campeonato, além do desenvolvimento de dois pacotes de atualizações para os Chevrolet Cruze, justamente com o intuito de igualar o grid, a diferença em termos de performance entre as duas marcas segue evidente.

Átila Abreu ressaltou a diferença entre Cruze e Corolla nesta primeira metade do campeonato (Foto: José Mário Dias/Shell)

Átila, que com o seu Chevrolet Cruze pontuou em todas as corridas do ano, mas que ainda não visitou o pódio em 2020, se mostrou alerta com o atual cenário na Stock Car.

“O que mais me preocupa é a diferença entre Chevrolet e Toyota, porque a Stock Car sempre foi pautada pela competitividade e pela igualdade entre os carros. Quando você tem duas montadoras, obviamente que você pode ter alguma diferença, e aí vai do promotor conseguir equalizar isso para ter competitividade, o que a gente não viu até o momento porque os Toyota estão nadando de braçada”, apontou.

“A gente vê todos os números aí, e mesmo com a questão do peso, os líderes são, em sua maioria, da Toyota. Você já conta que a Chevrolet tem o BOP (Balanço de Performance, em tradução livre), já tem os dois pacotes pré-estipulados antes (de atualizações) e, mesmo assim, a gente está meio longe”, disse Abreu.

“É fácil de ver quando você compara equipes com dois carros, como a Mattheis, que de um lado tem o Thiago Camilo e o César Ramos (de Toyota) e, de outro, o Casagrande (de Chevrolet), que andou super bem ano passado, performou bem nas últimas corridas, mas muito mais pela estratégia do que pela performance propriamente dita. Acho que as últimas corridas não ajudaram muito, talvez deram uma mascarada, mas os Toyota, mesmo depois de tudo o que foi feito, continua superior”, disse o dono do carro #51.

Na visão de Abreu, a disparidade na ordem de forças não é ruim apenas quanto ao presente, ao desenrolar da temporada, mas tende a prejudicar até mesmo as negociações para o ano que vem.

A Stock Car atravessa um momento de profunda reformulação em 2020 (Foto: Luis França/Vicar)

“Dá uma desestimulada porque a gente fica esperando por um movimento da organização, o que não veio até agora, e acho que isso vai prejudicar as equipes. A gente vai para uma época do campeonato que, mesmo entrando na segunda metade, é de renovação [de contratos]. Tem meio campeonato para fazer, mas já estamos em outubro. Claro que tem promotor novo, tem de tentar entender o pacote a mais na hora de vender, na hora de renovar… Mas, basicamente, você tem, dos 24 carros na pista hoje, 8 são Toyota e 16 são Chevrolet”, salientou.

“Você vai ter, dentro do mercado, os pilotos que querem renovar e ir para a Toyota, e as equipes que são Toyota têm uma margem para pedir a mais porque tem uma quantidade limitada de carros, e as equipes com Chevrolet vão ter de dar desconto porque o piloto pode falar: ‘Já que é o que tem, quero pagar menos’. Então, em termos de mercado, isso é muito ruim, vai fortalecer algumas equipes, mas vai prejudicar muitas outras. Mas você não faz um campeonato de oito carros. Se vai aumentar o número de carros da Toyota, se vai entrar outra montadora, tem de ver. Por que, do jeito que está hoje, é loucura pensar no ano que vem e não querer andar com o carro da Toyota. Acho que tem essas coisas que tem de ponderar”, complementou.

Resignado, Átila entende que, neste momento, só pode torcer por um salto de qualidade dos carros da Chevrolet e, enquanto isso, sabe que tem de seguir trabalhando e acelerando com o que tem às mãos.

“De fato, agora, com o campeonato rolando, com o trabalho que vem sendo feito para equalizar, da minha parte tenho de continuar brigando, não posso desistir, tenho de tentar ser o melhor Chevrolet, estou entre os três melhores — ainda não tenho a velocidade dos melhores, dos carros do Meinha, da Eurofarma —, mas estou fazendo um campeonato interessante. Sou um dos dois pilotos, ao lado do Ricardinho [Maurício], que pontuou em todas as corridas, venho tentando fazer do limão uma limonada: fui o quarto maior pontuador da última etapa, na outra etapa estive também entre os melhores pontuadores. Tentando, de alguma maneira, contornar esse prejuízo que a gente tem, da montadora, e mesmo sendo Chevrolet, ainda não sou o melhor. Então, tenho de seguir arregaçando a manga para reverter essa situação”, concluiu.

A temporada 2020 da Stock Car realiza neste fim de semana, no Autódromo do Velocitta, em Mogi Guaçu, a sétima etapa do campeonato. Tudo com cobertura do GRANDE PRÊMIO.

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