Desde o início dos problemas políticos no leste da Ucrânia, a F1 teve a decisão de correr na Rússia sob pesadas críticas. E todas as vezes que era arguida sobre o GP, a resposta era que a categoria não faz política. Não poderia ser diferente para quem já mostrou negligente a problemas políticos em seu caminho, como recentemente no Bahrein, por exemplo, em meio a repressões violentas da polícia local em protestos contra o regime.
Em que pese o fato de que sofre pouca ou quase nenhuma pressão de equipes e pilotos, que parecem de acordo com qualquer decisão tomada pela categoria, a completa alienação da F1 ao caos político na fronteira entre Ucrânia e Rússia é marcante. Nem mesmo após a derrubada do voo MH317 da Malaysia Airlines por forças ucranianas rebeldes com o uso de um míssil russo, matando 298 pessoas, a F1 considerou reavaliar a realização da prova russa. Obviamente, não o faria motivada pelas sanções internacionais e críticas diretas ao grande lobista do GP, o presidente Vladimir Putin.
O palco do GP da Rússia (Foto: Divulgação)
Mais do que isso: a defesa em qualquer estágio do que é decidido por F1 e FIA vai contra os princípios de dar bons exemplos do qual se é tão falado. As equipes defendem com unhas e dentes as escolhas feitas pelos chefes, ainda que possa colocar em risco mesmo a segurança de seus próprios funcionários, que dirá a estabilidade política local.
"Nós somos um time esportivo, e creio que o esporte deveria se unir. Devemos confiar no órgão-chefe, e que os promotores da categoria nos guiem e deem informações. É sempre perigoso ler as notícias e montar uma opinião, porque essa opinião pode estar errada em relação ao que está acontecendo na verdade. Acho que é o que faremos, confiar na FIA", disse, ainda na Hungria, o diretor-executivo da Mercedes, Toto Wolff.
"Temos a escolha de entrar na temporada ou não, depois que já conhecemos o calendário. Quando assinamos para participar, colocamos nossa fé e confiança na F1 e na FIA. Nós participaremos a não ser que eles julguem desnecessário que nós estejamos lá", falou o chefe da Red Bull, Christian Horner.
Sabidamente, a questão é maior do que confiar ou não no que a FIA e F1 garante. Tanto é que, por segurança, a F1 foi aconselhada pelas autoridades locais a contratar um serviço de shuttle, algo como uma empresa privada para tomar conta dos deslocamentos pela cidade.
Da mesma forma, as parceiras comerciais da F1 não tem qualquer interesse em fazer a categoria se afastar de um grande mercado como a Rússia. Até porque grandes empresas dificilmente não olham para a terra de Putin com todo o carinho que os gigantescos mercados recebem.
"Do nosso ponto de vista de negócio, a Rússia é um país importante. Temos duas fábricas lá. Você tem que ter uma visão um pouco diferente, de longo prazo. No fim do dia, se houver um evento, nós seremos os fornecedores de pneus. Se a categoria for para lá, nós iremos", simplificou o homem forte da Pirelli, Paul Hembery.
Agora, a F1 tem ainda um novo turbilhão pela frente.
O acidente grave sofrido por Jules Bianchi levanta a preocupação natural por um companheiro piloto estar no hospital em estado grave e ainda levanta investigações que talvez apontem falhas no
modus operandi da categoria em situações de pista. E tudo isso, apenas alguns dias antes de os carros acelerarem outra vez.
Nome de Jules Bianchi está na porta da garagem da Marussia em Sochi (Foto: Getty Images)
Assim como as discussões políticas, a procura de respostas pelo que aconteceu em Suzuka não fez a categoria considerar a possibilidade de postergar a prova de Sochi. Não foi sequer considerada a chance de segurar a competição para que uma profunda avaliação da cadeia de eventos que levou ao acidente de Bianchi tomasse o ar de prioridade.
Em reta final de campeonato, com apenas quatro provas restando, a categoria não pode se dar ao luxo de protagonizar uma corrida afetada pelo que acontece no Hospital Universitário de Mie — e considerando que não houve uma só voz que questionasse se o show deveria continuar assim, afetado pelo baque. A Mercedes irá conquistar o título do Mundial de Construtores em qualquer cenário em que a Red Bull não marque pelo menos 19 pontos a mais, enquanto Lewis Hamilton lidera Nico Rosberg por dez pontos na briga pelo título do Mundial de Pilotos.
Sob os olhares atentos de Putin, que vai a Sochi, a F1 passa pela primeira vez na Rússia cercada por críticas, preocupações e momentos decisivos.
As imagens do autódromo de Sochi
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