Opinião GP: F1 inova em evento divertido, cheio de referências, mas com medo presente

A Fórmula 1 surpreendeu na noite de terça-feira (18) ao apresentar um espetáculo semelhante às grandes cerimônias do cinema e da música. Mas foi além ao dar ritmo e celebrar a própria história em Londres. Diante de uma plateia entusiasmada, a maior das categorias do esporte a motor inovou e deixou as equipes brilharem, deixando uma sensação de quero mais. No entanto, ainda há pontos que precisam ser melhor trabalhados. E a própria F1 também tem de deixar velhos vícios para trás

A FÓRMULA 1 PEGOU o sistema de lançamentos coletivos utilizado pela MotoGP e criou um formato diferente, com enorme liberdade para as equipes se movimentarem da maneira como melhor imaginavam. O resultado que se viu, no amplo palco da Arena 02, em Londres, na tarde/noite desta terça-feira (18), foi um encontro da rigidez cármica dos segredos mais escondidos duma F1 sempre atenta a espiões com os momentos mais autocentrados do entretenimento e suas premiações. Ao menos interessante, dá para dizer. E divertido, lançando mão de sua rica história e cheio de referências à trajetória que chega aos 75 anos.

O lado ‘showtime’ estava na absoluta coleira longa oferecida às equipes para que conduzissem seus 7 minutos à imagem e semelhança do que podiam desenvolver de festa. A McLaren alinhou carros campeões; a Aston Martin estabeleceu a si própria como a arma mais poderosa do Reino Unido com as referências a 007, além de contar com uma cantora própria no palco; a Racing Bulls fez das tripas coração para apresentar ao mundo o novo nome, que anda patologicamente em mutação; a Red Bull, por algum motivo, inverteu tudo e começou com um monólogo do chefe de equipe e terminou com uma balada.

Colocar e tirar carros e personagens no mesmo palco em tão curto espaço de tempo é um feito, do ponto de vista do trabalho logístico. Com a ajuda de momentos de shows, da boy band dos hoje cinquentões ingleses, o Take That, que revelou Robbie Williams ao mundo, e do ex-Machine Gun Kelly, que busca um rebranding musical na carreira, juntou diferentes elementos no mesmo espaço num evento de duas horas. Acerto em cheio da F1 nessa, ainda que com alguns elementos de estranheza mútua sobre os quais o texto discorre um pouco mais para frente.

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A cola disso tudo foi a apresentação do comediante Jack Whitehall, que navegou entre piadas inofensivas aos personagens do espetáculo, algumas azedas para cima da FIA e momentos de rasgação de seda para quem por lá estava. Whitehall foi um cicerone mais à moda das grandes premiações inglesas que das americanas, onde quase nunca o mestre de cerimônia age de maneira tão dócil assim. Foi um toque dos mais interessantes.

De qualquer maneira, a estrutura que a F1 mirou foi claramente a das prestigiadas premiações. Oscar, Emmy, Grammy, Bafta, vocês escolham. O plano era adaptar esse tipo de evento, com liberdade artística fluida, para dentro das possibilidades da F1. A sensação foi que cada equipe se apresentava dentro de algo maior, como acontece com grandes atrações musicais no Grammy, o grande prêmio da música, ou com os indicados a Melhor Canção Original no Oscar, o principal galardão do cinema. Para quem não está acostumado, o que acontece é o seguinte: os cinco indicados se apresentam no palco, com cantoria e musicalidade, separados por blocos da transmissão da TV. Entre as apresentações, os prêmios correm normalmente. Foi o que a F1 quis fazer, mas sem prêmios a entregar. Os pilotos e carros foram as estrelas.

E é possível dizer que os planos foram bem-sucedidos, porque as equipes conseguiram desenvolver diferentes ideias e colocar seus representantes mais importantes no palco e nas TVs de todo o mundo.

Para uma F1 que tenta cada vez mais ocupar tempo de TV e imaginário do público por todo o ano, seja entupindo o calendário de corridas ou dividindo tais datas de março a dezembro, o lançamento coletivo pega uma realidade em extinção no campeonato, as pomposas e hoje quase defuntas apresentações particulares, revitaliza com o selo de novidade e transforma em algo institucional. Em receita, por fim. O F175 foi a primeira edição de algo que certamente alcançou o suficiente para ser confirmado, muito em breve, como a retornar para 2026 e além.

Detalhe da apresentação da Mercedes (Foto: F1/Reprodução)

Mas ainda se trata da F1 e a ausência dos carros reais, aqueles que vão para a pista na temporada, dá uma demonstração clara de que o show, por mais de parar o trânsito e imprimir dinheiro que seja, ainda não significa que as equipes estejam dispostas a dividir segredos entre quatro paredes. Por isso, basicamente todo mundo levou carros de demonstração atualizados somente com a pintura. No máximo, uma ou outra novidade, como a suspensão dianteira da Ferrari, que pode ou não seguir viva quando os carros tocarem o asfalto de Sakhir para os testes de pré-temporada.

É a contínua batalha entre a F1 nova, que batalha para capitalizar as oportunidades de ter se tornado um ‘showstopper’ — aquele grande número de um musical —, também no entretenimento, fora das pistas, e a F1 antiga com seus vícios de plagiar ao menor sinal de diferença e o medo quase psicótico de ter as melhores ideias tungadas de si no calar da noite. Até de uma noite de festa.

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Fórmula 1 se aproxima do retorno das férias. A próxima atividade é exatamente a sessão única de testes coletivos de pré-temporada, marcada para os dias 26, 27 e 28 de fevereiro, no Bahrein. A temporada 2025 começa com o GP da Austrália, nos dias 14-16 de março.

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