Hamilton bate cabeça em começo de jornada que promete ser escorregadia na Ferrari
Lewis Hamilton encontro um pouco de tudo que há de mais difícil na estrada da Ferrari durante o fim de semana de estreia da temporada 2025 da Fórmula 1
A trajetória de Lewis Hamilton pela Ferrari começou no último fim de semana, com o GP da Austrália, que abriu a temporada 2025 da Fórmula 1. É claro que há a necessidade de fazer análises superlativas, com contundência acima do tom para o que primeiras etapas de grandes campeonatos sempre são – confusas e normalmente misteriosas quando olhadas em retrospecto. Mas dá para dizer que Melbourne iluminou um pouco mais do caminho na nova estrada. Ao menos o suficiente para mostrar que é ainda mais longa que mostrava a fantasia da intertemporada.
A Ferrari, para além de Hamilton, foi a grande decepção da primeira etapa do campeonato. Afinal, os testes do Bahrein e o os treinos livres iniciais deram a entender que a F1 2025 podia começar num cenário de McLaren contra Ferrari, e não foi isso que o sábado de classificação e o domingo de corrida mostraram. Ao contrário, deram a entender uma Ferrari frágil, incapaz de encostar nas adversárias de primeira ordem e sofrendo na comparação até com Williams e Racing Bulls.
Tanto Hamilton quanto Charles Leclerc chegaram a falar, ao longo do fim de semana, algo na linha de que não esperava tamanhas dificuldades de maneira alguma. A declaração mais interessante veio de Charles ainda no sábado após a classificação. “Sei de onde vêm nossas dificuldades. Precisávamos perder um pouco de performance, o que nunca é algo que você quer fazer, mas era o certo para este fim de semana. Não vou entrar em mais detalhes”, continuou.
A declaração de Leclerc, alguém que tão bem conhece os bólidos da equipe e suas funcionalidades – pudera, está no time desde a temporada 2019 -, dá a entender que há uma obscura decisão da escuderia italiana específica para a Austrália. Talvez ajustes alinhados a uma pista de curvas tão predominantemente velozes, que não aparecem tanto na primeira parte do campeonato. Ou talvez não. Talvez seja um processo de autoconhecimento pelo qual o time ainda passa com a SF-25.
Fato é que a Ferrari entendeu que pelo menos a luz amarela, para não dizer quase laranja, já começou a apitar loucamente na fábrica de Maranello. A defasagem tanto em ritmo de corrida quanto de classificação foi grotesca, dá para dizer, escandalizando quem imaginava um desafio. De certa forma, uma piora em relação ao ano passado, quando a Ferrari também não tinha as armas para duelar com a força dominante de então, a Red Bull, no começo do ano, quando era cotada como a grande desafiante. Tanto a luz amarela começou a apitar que a companhia resolveu mandar o diretor-técnico Loïc Serra de volta para Maranello, deixar a China de lado, e entender como melhorar as coisas a tempo do Japão. Suzuka é uma pista muito mais parecida ao Albert Park que Xangai, afinal.
Enquanto a Ferrari tem suas questões a resolver e um carro a fazer funcionar, Hamilton tem de deixar isso um tanto de lado. Que os engenheiros, Leclerc e quem mais de direito cuidem dos meandres da SF-25 por ora. O heptacampeão tem coisas mais pessoas e urgentes a resolver. Uma delas é a relação com o engenheiro de corridas, Riccardo Adami.
A demonstração de que testes sem pista cheia e com atribuições com peso reduzido não resolvem certas coisas veio durante as 57 voltas de Melbourne. Foram várias as vezes que Lewis reclamou de Adami, especialmente por achar que o engenheiro falava demais, mas também por acreditar que falou de menos em certo momento. Nas voltas que antecederam a queda da pancada de chuva a 12 voltas do fim da prova.
“Infelizmente, no final, disseram que seria só uma chuva rápida e que o resto da pista estava seco, então pensei: ‘Vou aguentar o máximo que puder. Posso me manter na pista.’ Eles não disseram que mais água estava por vir, então, de repente, choveu mais, então faltou um pouco de comunicação”, criticou Hamilton.

A relação entre piloto e engenheiro de corridas é a cola de um campeonato de sucesso. Sem que os dois se entendam há pouquíssima possibilidade que as coisas caminhem em ordem. Hamilton e Adami têm uma viagem tripla até China e Japão para entrarem numa sintonia que, caso não venha, azeda o caldo de todo mundo. É preciso cabeça fria e esforços escaldantes dos envolvidos, porque o piloto não recebe a comunicação do jeito que gosta num momento de pressão e o engenheiro passa a ser publicamente achincalhado desde as mensagens de rádio.
Mas não é só o engenheiro, mas o carro. Hamilton fez os testes de pré-temporada e dezenas de voltas com carros de anos anteriores da Ferrari, mas o elemento competitivo traz outro desafio. Não basta saber, tem de ser automático. E tem coisa que só é possível aprender quando as circunstâncias se alinham. Chuva, por exemplo.
“Nunca pilotei esse carro na chuva. Não sei quais botões vou pressionar amanhã, então isso vai ser novo. Estamos usando freios da Brembo, que eu não usava há muito, muito tempo. Então, não sei como se comportam na chuva, ou quais configurações vamos precisar usar com esse carro”, afirmou no sábado, quando mirava a previsão do tempo com chuva para o domingo.
Ainda foi adiante sobre a falta de coordenação com o carro. “Quando tem um problema com o carro, normalmente, quando tem experiência, pode dizer: ‘Ok, é aqui que quero ir com isso’, mas não sei qual ferramenta usar no momento. Então, estou dependendo fortemente pela primeira vez dos engenheiros. Tem um monte de ferramentas que ainda estou descobrindo. O equilíbrio de frenagem e de curva é bem diferente do que eu tinha [na Mercedes]. A mudança no equilíbrio mecânico é muito, muito diferente, e o equilíbrio em alta velocidade, em baixa velocidade, é uma mudança e tanto”.

O saldo do fim de semana foi tão nublado quanto dá para imaginar.
“Foi muito complicado, muito pior do que pensava que seria. O carro estava muito, muito difícil de guiar. Estou grato por tê-lo mantido longe do muro, porque era para lá que ele queria ir na maior parte do tempo”, avaliou.
Hamilton tem de melhorar o meio de campo que tem com as novas ferramentas, humanas, mecânicas e tecnológicas, na Ferrari antes de pensar em fazer um barulho real. E, claro, resta confiar que a Ferrari tem o conhecimento necessário para desfazer rapidamente a má impressão deixada na Austrália.
De qualquer maneira, o Albert Park, com suas nuvens carregadas e chuva pesada, colocou fim no céu de brigadeiro estabelecido durante a intertemporada. A trajetória de Hamilton na Ferrari até um possível sucesso é muito mais longa e escorregadia do que o otimismo imaginava. Nada anormal, mas há muito a resolver antes de pensar em glória.
A Fórmula 1 retorna neste fim de semana, entre os dias 21 e 23 de março, direto de Xangai, com o GP da China. O GRANDE PRÊMIO acompanha todas as atividades AO VIVO e EM TEMPO REAL e ainda acompanha a classificação sprint, a prova curta, a classificação e a corrida de domingo em SEGUNDA TELA no GP1, no YouTube.
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