Ferrari chega para 2025 ainda no esqueleto e precisa se mexer para evitar chacota

A luz vermelha já pisca na casinha da Ferrari, em Maranello. O começo terrível, bem pior que o esperado em desempenho e com duas desclassificações, faz a Ferrari entrar em situação grave de controle de danos na Fórmula 1 2025

O primeiro reflexo para abrir a esta análise foi dizer que a Ferrari chega ao mês de abril 100% presente no alerta de fraude. Mas nem isso é cabível. A Ferrari não deu o ar da graça de maneira suficiente a levantar sobrancelhas de que talvez o sucesso fosse um tanto quanto mentiroso. Após duas corridas, tudo que a Ferrari mostrou foi definitivamente decepcionante. Direto e reto abaixo da linha do razoável. É preciso mexer rápido para evitar de entrar na irremediável pauta das chacotas da Fórmula 1.

O GP da Austrália colocou a equipe italiana no contrapé com a absoluta falta de ritmo. Charles Leclerc e Lewis Hamilton passaram boa parte da corrida com dificuldades de levar a melhor na comparação com Williams e Racing Bulls. Hamilton ficou apenas na décima posição.

As declarações, como trouxemos em análise na semana passada, eram de cunhos distintos. Os dois pilotos diziam que o fim de semana foi abaixo da pior das hipóteses estabelecida pela equipe. Apesar disso, Leclerc dizia saber os motivos e que o pouco ritmo fora fruto de uma escolha específica para Melbourne.

E o começo do evento na China parecia ecoar o sentimento de que a vida na Austrália foi pior do que viria a ser realidade depois. Hamilton tirou um coelho da cartola na classificação sprint, largou na pole e segurou a dianteira na largada da corrida curta. Foi a chave, porque a McLaren ficou distante – Lando Norris no meio do pelotão e Oscar Piastri largando mal e tendo que se recuperar ao longo da prova. Com isso, os pilotos de macacão laranja não foram capazes de se aproximar. Com violento desgaste de pneus, ninguém atacou por atacar. Hamilton gerenciou bem os pneus, único sem brigar por posições entre os primeiros colocados, e conseguiu manter distância e vencer.

Lewis Hamilton venceu a sprint na China, mas alegria ficou por aí (Foto: AFP)

Ótimo, mas a corrida sprint, como muitas vezes funciona, oferece distorções que o restante do fim de semana corta pela raiz. A classificação já voltou a colocar a Ferrari em condições normais de temperatura e pressão: Hamilton e Leclerc foram quinto e sexto colocados, atrás da dupla da McLaren, George Russell e Max Verstappen. Por sorte, Liam Lawson e Andrea Kimi Antonelli ainda tentam se entender com os carros, respectivamente, de Red Bull e Mercedes.

Logo após a tomada de tempos, Hamilton já mostrou que não tinha gostado das modificações feitas após a sprint. “Nós começamos realmente otimistas, mas fizemos algumas mudanças e realmente colocamos o carro no fio da navalha”, disse Hamilton em entrevista à emissora britânica Sky Sports F1.

“Você quer um carro equilibrado. No momento, de uma curva para a outra, o carro tinha um equilíbrio diferente. Fizemos a mudança e, de repente, em altas velocidades, estava desequilibrado, então você quer um carro em que possa confiar e que, quando ataca as curvas, saiba que ele vai ficar com você ao invés de travar ou sair de frente. Quando é imprevisível, você não tem esperança”, encerrou.

A corrida mostrou uma realidade semelhante. Leclerc até sonhou com a possibilidade de incomodar Russell, algo que não aconteceu. A Ferrari voltou a ter apenas o quarto melhor carro do grid, apesar dos elogios ao ritmo de Charles mesmo com naco de asa quebrada – por toque justamente com Lewis na largada.

Leclerc e Hamilton se tocaram na largada do GP da China (Vídeo: Reprodução/DAZN)

A questão que piorou tudo foi que, por motivos distintos, os dois pilotos foram desclassificados hora após a prova. Leclerc estava abaixo do peso mínimo, enquanto Hamilton teve desgaste maior que o permitido na prancha de madeira do assoalho.

“Não quero culpar nada e nem ninguém, mas temos de fazer um trabalho melhor”, pregou o chefe Frédéric Vasseur.

Mudanças sem rumo e erros bobos na operação de um fim de semana são sinais de um time que pouco conhece do projeto que tem em mãos. É por isso que Maranello aperta os cintos para fazer chegar o primeiro pacote de atualizações no GP do Bahrein, quarta etapa do campeonato, com ideia de mudar o assoalho já na próxima corrida, no Japão. Contraste poderoso ao que a Ferrari costuma fazer, que é esperar a Europa.

E demonstração de que há uma compreensão geral de que o carro atual não é o bastante. “O projeto ainda é imaturo, mas tem potencial”, é a opinião de Paolo Filisetti, especialista técnico do jornal italiano La Gazetta dello Sport.

Charles Leclerc foi melhor na corrida, mas ainda é pouco (Foto: AFP)

“Há planos para desenvolvimento visando que o assoalho controle melhor as diferenças entre a parte de cima e de baixo do carro”, finalizou.

Pelo lado bom, a Ferrari parece ter convicção sobre como resolver ao menos parte dos problemas da SF-25, mas precisa ser certeira. Um erro agora colocaria a Ferrari no contrapé até cerca do fim da primeira metade do campeonato. Talvez definido a necessidade de abandonar 2025 e mirar o próximo carro, com as novas regras de 2026, muito mais cedo do que se imaginava.

Mais até do que isso, um erro agora colocaria a Ferrari numa interminável caminhada da vergonha pelo resto do ano. Afinal, com Hamilton e o peso do vermelho, os ferraristas entraram 2025 com todos os olhos sobre si e, ao terminar o ano passado tão bem, havia a expectativa de que desafiasse a McLaren pelo topo da F1. O fracasso de passar longos meses como quarta força do grid colocaria a Ferrari com uma camisa de força no quarto da chacota da F1, onde seria vítima de incessantes provocações e ataques. É parte do jogo.

Começar a temporada de maneira decepcionante é, aliás, praxe na era Frédéric Vasseur. Assim foi nos dois anos passados, quando abriu os campeonatos de 2023 e 2024 aquém daquilo que se esperava dela. Em 2023, estava distante da Red Bull e atrás até mesmo de uma cambaleante Mercedes; em 2024, quando havia a crença geral de que incomodaria a Red Bull, iniciou a jornada em outro universo. Na hora que houve aproximação, foi da McLaren inicialmente e, depois, da Mercedes, por breve momento.

Se há algo que a Ferrari de Vasseur soube fazer, porém, foi desenvolver bem o carro e melhorar os rumos durante a trajetória. É um caminho para evoluir, claro, mas não é assim que se ganha títulos. Mais uma vez, a Ferrari abriu um campeonato com esqueleto de carro. Falta muito para brigar por canecos.

Fórmula 1 volta no fim de semana de 4 a 6 de abril em Suzuka, palco do GP do Japão, terceira etapa da temporada 2025.

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