Antes de chegar ao sul em Austin, F1 cortou EUA de leste a oeste e viu até prova de seis carros

Ainda que os Estados Unidos não estejam entre as nações mais tradicionais da principal categoria do automobilismo mundial, o país caminha, no próximo domingo (18), em Austin, para a 61ª corrida de F1 em sua história. O Circuito das Américas será a décima pista norte-americana a receber o certame

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Depois de cinco anos fora do calendário, o GP dos Estados Unidos finalmente está de volta ao Mundial de F1. Neste fim de semana será disputada a 19ª e penúltima etapa da temporada 2012 no novíssimo Circuito das Américas, em Austin, capital do Texas. Será a décima pista norte-americana a receber a F1 em toda a sua história.

Talvez esse seja um dos fatores que evidencie a falta de identificação do norte-americano com a F1. Os ianques nunca morreram de amores pela categoria nascida na Europa. A preferência por lá sempre foi a Nascar. Nem mesmo a Indy, pelo menos nos dias atuais, tem feito sucesso na América. Mas foi justamente na pista que dá nome à principal categoria estadunidense de monoposto que a F1 começou sua história, ainda em 1950.

Entre 1950 e 1960, as 500 Milhas de Indianápolis fizeram parte do calendário do Mundial de F1. A prova disputada no mítico oval de Indiana, no entanto, fez parte do campeonato apenas para dar à F1 um status de mundial, uma vez que o certame apenas corria na Europa. Era raro ver um piloto europeu cruzando o Atlântico para correr em Indianápolis. Afinal, o regulamento e a concepção dos carros era completamente diferente.

A F1 realizou sua primeira corrida nos Estados Unidos em 1950. Mas não era bem a F1 (Foto: IMS)

Nesse período de uma década e 11 corridas, o maior vencedor foi Bill Vukovich, que triunfou em 1953 e 1954. Um ano depois, no entanto, o piloto nascido em Fresno morreu quando tentava o tricampeonato consecutivo, marca que nenhum piloto jamais conseguiu em Indy.

Mas o primeiro GP dos Estados Unidos de fato aconteceu em 1959, em Sebring, na Florida. Em uma pista enorme, de 8.369 m, que utilizava parte da pista do aeroporto regional, Bruce McLaren foi o primeiro piloto vencedor da prova. Com algumas alterações e um pouco mais curto, o circuito, até hoje é um dos mais utilizados pelas categorias americanas, como Indy, Nascar e American Le Mans Series. Sebring foi, no começo de 2012, cenário do primeiro teste de Rubens Barrichello na Indy.

Um ano depois, a F1 mudou de destino nos Estados Unidos. A categoria saiu da costa leste para aportar na Califórnia, no circuito de Riverside. Com extensão de 5.271 m, Riverside era uma pista rápida e contava com uma longa reta dos boxes. A vitória do GP dos Estados Unidos de 1960 ficou com Stirling Moss, guiando um Lotus Climax. O circuito também foi palco da Nascar, da Indy (Cart) e até mesmo do Mundial de Endurance, em 1981. Riverside teve fim em 1988, quando seus proprietários venderam o terreno para construção de um centro comercial.

Mas a história da F1 nos Estados Unidos estava apenas começando. E foi exatamente nesse período, a partir de 1961, que o país ficou mais tempo recebendo a categoria e em um mesmo circuito. Desde então, e até 1980 — os últimos cinco anos como GP dos Estados Unidos Leste —, a F1 correu no tradicionalíssimo circuito de Watkins Glen, uma pista histórica para o automobilismo brasileiro. Foi lá que, pela primeira vez, um piloto do país venceu uma corrida na categoria, com Emerson Fittipaldi, em 1970. Quatro anos depois, graças a um quarto lugar em The Glen, o ‘Rato’ conquistou o bicampeonato mundial de F1.

Glen recebeu a F1 em duas épocas distintas. Entre 1961 e 1970, a pista, cravada no estado de a Nova Iorque, tinha um traçado mais curto e mais rápido, de 3.701 m. Jim Clark e Graham Hill triunfaram três vezes cada. A partir de 1971, o circuito passou a ter 5.435 m e continuou muito rápido. Seu primeiro vencedor nessa nova configuração foi François Cevert. Mas dois anos depois, o destino foi cruel com o francês, que morreu ao sofrer um acidente na The Esses, justamente no circuito onde conquistou sua primeira e única vitória na F1.

Emerson Fittipaldi conquistou a primeira vitória do Brasil na F1 em Watkins Glen, 1970 (Foto: Divulgação)

Entre 1976 e 1983, com pausa em 1981, os Estados Unidos tiveram a chance de receber a F1 em duas oportunidades na mesma temporada. As provas, contudo, receberam nomes distintos. O GP dos Estados Unidos Oeste foi disputado entre 1976 e 1983, em Long Beach, na Califórnia, em um dos circuitos urbanos mais tradicionais da América do Norte. Foi lá que Nelson Piquet, em 1980, conquistou a primeira de 23 vitórias em uma das carreiras mais vencedoras da história do esporte a motor.

Las Vegas, a ‘Cidade do Pecado’ também fez parte do Mundial de F1. Com o nome de GP Caesars Palace, a categoria correu num circuito urbano improvisado em um enorme estacionamento no famoso cassino da cidade. Obra de Bernie Ecclestone, claro. A pista é considerada por muitos especialistas de F1, até hoje, como uma das piores de todos os tempos. Foram duas corridas, em 1981 e 1982. Neste último ano, a corrida, que fechou a temporada, marcou as despedidas de Mario Andretti e da equipe Copersucar da F1.

Do outro lado dos Estados Unidos, Detroit sucedeu The Glen e passou a abrigar o GP dos Estados Unidos Leste. A pista urbana ficava próxima ao Renaissence Center, o maior prédio da cidade e sede da General Motors, símbolo máximo da força da indústria automobilística local à época. O circuito não tem nada a ver com o traçado Belle Isle, que fica em uma ilha no Rio Michigan, que separa Estados Unidos do Canadá.

Detroit é uma pista de histórico vencedor para o Brasil na F1. Foram quatro vitórias, sendo uma com Nelson Piquet, em 1984, no último GP dos Estados Unidos Leste. No mesmo ano, o Mundial realizou sua primeira prova no Texas, mais precisamente em Dallas. O cenário da corrida foi um circuito criado no meio do Fair Park. O forte calor, acima dos 40ºC, e o asfalto frágil como areia e que virava farelo, tornaram o evento um fiasco. Por muito pouco aquela etapa não foi cancelada, mas sua largada foi antecipada para as 11h da manhã. Mesmo contrariados com a situação, os pilotos decidiram correr, em respeito ao público. No fim das contas, Keke Rosberg, de Williams venceu.

O fim daquela corrida teve um momento épico. Faltando alguns metros para o fim da corrida, Nigel Mansell, da Lotus, bateu seu carro. Mas, num gesto de coragem, empurrou o bólido preto e dourado até à linha de chegada. Numa mistura de cansaço e extremo calor, o ‘Leão’ não aguentou e desmaiou ao lado do carro.

Ayrton Senna venceu cinco vezes o GP dos Estados Unidos, três delas em Detroit (Foto: Divulgação)

Quando o país passou a realizar apenas uma prova de F1 por ano, Ayrton Senna desandou a ganhar corridas na então ‘Capital do Automóvel’. Foram três (1986 a 1988), sendo que a primeira delas foi emblemática. Com a Lotus preta e dourada patrocinada pela John Player Special, Senna venceu minutos depois de o Brasil ter sido eliminado pela França na Copa do Mundo do México. Ayrton empunhou a bandeira após a vitória e eternizou o gesto que marcou a sua carreira.

Um ano depois, a F1 saiu de Detroit com destino a Phoenix, no Arizona. A cidade cravada no meio do deserto também já recebia a Nascar e a Indy, mas as duas realizavam suas corridas no circuito oval de uma milha. Restou à F1 organizar sua prova em um circuito de rua no centro de Phoenix. Entre 1989 e 1990, o traçado tinha 3.798 m. Para o ano seguinte, a pista perdeu 77 m. Senna conquistou duas vitórias no Arizona, se consolidando como o maior vencedor do GP dos Estados Unidos.

Depois de Phoenix, a F1 ficou muito tempo longe dos Estados Unidos, pouco mais de nove anos. Esse período, coincidentemente, representou o auge da Indy, tanto dentro quanto fora dos Estados Unidos. Não havia um grande piloto norte-americano no Mundial de F1 desde a desastrosa passagem de Michael Andretti pela McLaren, em 1993. Mas Bernie Ecclestone, de olho dos dólares da terra do Tio Sam, não mediu esforços e, ao lado de Tony George, empreendeu uma obra antes impensável: levar a F1 de volta para o Indianapolis Motor Speedway para correr em sentido horário num circuito meio misto, meio oval.

Em 2005, o vexame maior: apenas seis carros largaram em Indianápolis (Foto: Red Bull/Getty Images)

Após muita expectativa sobre o retorno de F1 a Indy, as obras tiveram início em 1999. Para que um circuito misto fosse construído dentro do espaço do oval, boa parte do campo de golfe teve de ser destruída. Tratava-se de um trecho bastante travado que era ligado ao trecho do oval em sua curva 1. A F1 voltava aos Estados Unidos em 2000. E foi um retorno triunfal: 250 mil pessoas lotaram as arquibancadas para ver aqueles carros e pilotos desconhecidos e de um esporte bem diferente da Indy e da Nascar. A vitória foi de Michael Schumacher.

Mas a F1 começou a perder crédito perante o público norte-americano dois anos depois. No dia 29 de setembro, Schumacher já havia conquistado o pentacampeonato há tempos, mas queria retribuir a ‘gentileza’ de Rubens Barrichello, que lhe entregou a vitória naquele vergonhoso GP da Áustria. O alemão, então líder da corrida, reduziu seu ritmo e cruzou a linha de chegada 0s011 atrás de Rubens. O gesto enfureceu o público norte-americano, que vaiou muito a Ferrari.

Só que o pior estava reservado para 2005. Na guerra dos pneus entre Bridgestone e Michelin, quem levou o prejuízo foi o torcedor estadunidense presente nas arquibancadas de Indianápolis. Ocorre que a Michelin, assustada com o acidente sofrido por Ralf Schumacher, da Williams, na saída da curva 1, admitiu que seus pneus poderiam estourar ao passar por aquele trecho. A fornecedora francesa recomendou às suas sete equipes que não corressem em Indianápolis. Resultado: com exceção de Ferrari, Minardi e Jordan, todos os outros competidores recolheram aos boxes no fim da volta de apresentação. Foi um dos maiores vexames da história da F1, que ficou queimada nos Estados Unidos. No fim, a corrida teve apenas seis carros e foi vencida, pela quinta vez, por Schumacher.

O GP dos Estados Unidos foi realizado mais duas vezes em Indianápolis. A última corrida foi muito boa e teve a vitória de Lewis Hamilton — a segunda da sua carreira —, depois que Fernando Alonso, então na McLaren, esbravejou contra a equipe e contra seu ex-companheiro de equipe, que não abriu passagem e lhe entregou a liderança, como queria o espanhol. Por muito pouco, a última página do GP norte-americano não foi novamente manchada pela vergonha.

A F1 começou a perder crédito com o público norte-americano desde então (Foto: Red Bull/Getty Images)

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