“Colapso pelo calor”: entenda gravidade a que pilotos foram expostos no GP do Catar

Ao ser exposto a uma temperatura acima de 28°C, o organismo já corre um risco considerado elevado de hipertermia, que é o aumento da temperatura corporal. O GRANDE PRÊMIO procurou especialistas para falar sobre o perigo que os pilotos correram no GP do Catar, em que vários precisaram de atendimento médico ao final das 57 voltas por desidratação e até perda de consciência

Presente no calendário da Fórmula 1 pela primeira vez em 2021 e ficando de fora no ano passado, o GP do Catar retornou ao campeonato de 2023 com um contrato de dez anos, mas a corrida que marcou o tricampeonato de Max Verstappen será muito mais lembrada pelo número de pilotos precisando ser amparados e até mesmo levados ao centro médico às pressas após a bandeirada. E tudo por culpa de um fator que não é nenhuma novidade para aquela região do planeta nessa época do ano: o extremo calor.

O Catar está localizado no Oriente Médio, região composta por países da chamada Ásia Ocidental e que possui um clima árido — também conhecido como desértico — e semiárido. Banhado pelas águas do Golfo Pérsico, é caracterizado pelo clima seco e quente durante a maior parte do ano, tanto que é quase impossível especificar as quatro estações.

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Na verdade, o que se tem é um período de intenso calor que vai de março a outubro, com picos entre junho e setembro. Nessa ocasião, que pega o verão no hemisfério norte, as temperaturas no país asiático podem chegar a impressionantes 50°C durante todo o dia, mas a sensação térmica vai muito além.

Albon teve dificuldades em deixar seu carro ao final da prova (Vídeo: reprodução/F1 TV)

O fisiologista Fabiano Ribeiro morou em Doha, capital do Catar, de novembro de 2007 a dezembro de 2018 e disse ao GRANDE PRÊMIO que a sensação térmica durante o verão pode chegar facilmente a 60°C. “Na rua, é extremamente desagradável, até porque o verão lá é muito úmido, tem verões com 100% de umidade do ar, você sai na rua e em 1 minuto já está todo molhado, suado”, relatou.

Apesar de ser um país “muito bem preparado para o calor que enfrenta”, com ambientes climatizados a ponto das pessoas terem de frequentar shoppings e outros estabelecimentos de casaco, Fabiano explicou que o clima muito quente e úmido é dos mais difíceis para um atleta, mesmo os de alta performance, como o caso dos pilotos de Fórmula 1. “Essa umidade, para o esporte, prejudica mais ainda a performance, dificulta a troca de calor, aumenta a temperatura corporal, então realmente é um clima não muito agradável para praticar esportes.”

Atualmente preparador físico das categorias de base do Fluminense, Fabiano ainda contou ao GP da situação mais extrema de calor que passou no período em que viveu no Catar: foi no primeiro campeonato de futebol após as férias, no mês de agosto, “que é quando temos as piores temperaturas, do verão, altíssimas e com a umidade muito alta”, acrescentou.

“Mesmo os jogos sendo marcados para noite, ainda assim, era muito desagradável, a ponto das pessoas se sentirem mal. A intensidade do jogo, a velocidade do jogo caía muito, e quando os atletas tinham de competir numa intensidade mais alta, precisavam de um longo período para recuperação. Tinham de ficar, cinco, dez minutos caminhando no campo, trote leve, só para se recuperar”, salientou.

Alonso chegou a pedir que jogassem água em seu carro (Reprodução: F1)

Foi justamente por conta desse cenário que a Copa do Mundo, realizada no ano passado no Catar, aconteceu em dezembro, quando as temperaturas estão bem mais amenas, e não nos tradicionais meses de junho e julho. Ainda assim, os estádios que receberam as partidas de futebol foram climatizados para que os termômetros não passassem dos 27°C.

No caso específico da F1, o fisiologista avalia que a situação se agravou por conta do equipamento, uma vez que o cockpit do carro é muito estreito e os bólidos são bem próximos ao solo, aumentando ainda mais a sensação de calor.

“Na Fórmula 1, vejo que há um agravante muito maior: o equipamento que os pilotos usam já proporciona um calor maior. Há uma distância do corpo para a troca de calor maior, o próprio cockpit do carro gera muito mais calor, eles estão muito próximos do piso, que emana uma irradiação de calor maior, então deve ser uma situação até mais extrema que o futebol”, pontuou.

A categoria realizou a 17ª etapa da temporada 2023 em Lusail com os termômetros passando dos 30°C ao longo de todo o final de semana. Na sexta-feira, os ventos fortes ainda levaram bastante areia para a pista, dificultando ainda mais a pilotagem para os pilotos.

Só que a situação no domingo ficou ainda mais extrema: a previsão indicava 32°C para o momento da corrida, mas com a sensação térmica em 38°C, pior que a vista dos dias anteriores. A umidade relativa do ar alta, em quase 70%, potencializou o clima de ‘sauna’, levando os pilotos à exaustão.

Stroll passou mal e foi direto para ambulância após GP do Catar (Vídeo: F1)

Durante a corrida, Logan Sargeant teve um quadro de desidratação intensa e decidiu abandonar; Esteban Ocon vomitou duas vezes enquanto pilotava; Lance Stroll chegou a ter pequenos apagões ao volante e Fernando Alonso deixou o cockpit com queimadura nas costas. Fora os que resistiram, porém muito longe das condições físicas ideais.

O GP também conversou com o médico Paulo Cezar Vieira, pós-graduado em Medicina do Exercício do Esporte e Nutrição Esportiva, e a médica Gabriela Vieira, que atua no staff do Hospital de Campanha da Maratona do Rio. Eles explicaram em detalhes o que acontece com o corpo humano quando exposto a uma situação de calor extremo. Primeiro, é preciso entender como funciona a temperatura corporal e o mecanismo denominado ‘termorregulação’, que mantém o organismo dentro dos valores compatíveis com a vida mesmo quando exposto a variações para mais ou para menos.

“Nossa temperatura corporal varia entre 36 a 37,8°C e quem controla essa regulação térmica é o hipotálamo, localizado no sistema nervoso central”, explicou Paulo Cezar. “Quando a temperatura ambiente é mais alta, a tendência de nosso corpo é ganhar calor e aumentar a temperatura corporal além do adequado, então o cérebro envia informações para o organismo que é preciso dissipar este calor. Ocorre uma vasodilatação periférica para aumentar a taxa de transpiração e consequente perda de calor para o ambiente por evaporação e aumento da frequência respiratória”, completou.

Gabriela acrescentou que “alguns fatores podem alterar o equilíbrio térmico”, entre eles, além da temperatura, a umidade relativa do ar. O perigo de hipertermia, que é o aumento da temperatura corporal, já acontece a partir dos 18°C. Acima de 28°C, o risco já é considerado extremamente elevado.

O GP do Catar foi marcado por muito caos (Foto: Red Bull Content Pool)

“Atletas de alto rendimento submetidos a esforços físicos em temperatura ambiente elevada podem sofrer os efeitos da hipertermia, que é o aumento da temperatura corporal acima do fisiológico, e da desidratação”, seguiu Dr. Vieira, frisando que até 40°C, o corpo humano ainda consegue manter a termorregulação, mas já pode apresentar um distúrbio conhecido como ‘exaustão pelo calor’ — ou heat exhaustion, como é o termo em inglês.

“O atleta pode apresentar sintomas e sinais como fadiga, fraqueza, cefaleia, taquicardia e sudorese”, seguiu, alertando para um quadro ainda mais severo em condições mais quentes. “Já temperaturas acima de 41°C podem levar a sintomas mais graves com alteração no sistema nervoso central, chamado ‘colapso pelo calor’ ou heatstroke, levando a alterações visuais (vistas turvas), desmaios, convulsões, lesões cerebrais graves, parada cardiorrespiratória e até morte.”

A recomendação imediata para um esportista exposto a uma situação de calor extrema é que ele pare o exercício que está praticando e receba tratamento, que será ministrado de acordo com os sintomas manifestados. “De forma geral, é de suma importância a medida da temperatura corporal e seu acompanhamento, para que se possa fazer um ajuste sem levar à hipotermia”, acrescentam os médicos, concluindo que, em casos mais graves, reposição hidroeletrolítica, oxigenioterapia e medicamentos para caso de convulsões podem ser adotados, com posterior remoção para o hospital.

Em 2024, o GP do Catar está previsto para acontecer entre os dias 29 de novembro e 1º de dezembro. Fabiano diz que essa é uma época do ano muito mais agradável, com as temperaturas girando em torno de 28°C, mas as noites são mais refrescantes. O inverno catari, aliás, também é caracterizado por uma grande amplitude térmica, já que a sensação térmica pode ficar próxima de 0°C à noite. E ao contrário do verão, o clima fica bastante seco.

Fórmula 1 volta daqui a duas semanas, entre os dias 20 e 22 de outubro, em Austin, com o GP dos Estados Unidos, o primeiro da última perna tripla da temporada. E o GRANDE PRÊMIO acompanha tudo.

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