Como pandemia do Covid-19 influenciou GP da Inglaterra e ajudou em vitória de Hamilton

Os períodos de intervenção do safety-car após os acidentes com Kevin Magnussen e Daniil Kvyat no último domingo foram mais longos que o habitual. Isso se explica principalmente pelo número reduzido de fiscais de pista em razão das regras de distanciamento social. Os estouros nos pneus de Carlos Sainz, Valtteri Bottas e Lewis Hamilton, por exemplo, poderiam ter acontecido voltas antes se o tempo de corrida com bandeira amarela tivesse sido menos duradouro

Além do desgaste acentuado dos pneus durante o GP da Inglaterra, há um outro fator fundamental que ajudou a determinar os rumos da corrida do último domingo (2), influenciando inclusive na vitória lograda com bravura por Lewis Hamilton, que cruzou a linha de chegada com três pneus inteiros e o dianteiro esquerdo furado. O hexacampeão teve sorte no azar ao enfrentar o problema já na volta final, quando tinha vantagem confortável para Max Verstappen, da Red Bull. O piloto da Mercedes chegou a andar a 230 km/h com o pneu avariado, minimizou os danos e ainda terminou 5s8 à frente do holandês. Contudo, não fosse por uma situação diretamente provocada pela pandemia do novo coronavírus, o troféu de vencedor em Silverstone poderia estar hoje em outras mãos.

A corrida teve dois períodos de safety-car. O primeiro foi na esteira do incidente entre Kevin Magnussen e Alexander Albon na curva que dá acesso à nova reta dos boxes. O dinamarquês da Haas levou a pior no contato com o carro do anglo-tailandês da Red Bull, bateu na barreira de proteção e abandonou. O SC foi à pista na segunda volta e retornou aos boxes antes da abertura do sexto giro.

Acidente sofrido por Daniil Kvyat ajudou a mudar os rumos do GP da Inglaterra (Foto: AFP)

Pouco depois, na volta 11, Daniil Kvyat, que vinha em 12º lugar, foi o primeiro dentre os pilotos na pista a enfrentar problemas no pneu traseiro, que estourou enquanto o russo passava pela veloz curva Maggots. Antes de chegar à Becketts, o carro #26 da AlphaTauri rodou e se estatelou contra o muro de proteção, provocando a segunda entrada do SC, que durou até a volta 18.

Em situações normais, tais períodos sob bandeira amarela seriam mais curtos. Mas os protocolos adotados para assegurar um maior distanciamento social em termos de pandemia levaram a organização do GP da Inglaterra a chamar um número menor de fiscais de pista para trabalhar tanto no último fim de semana como também no próximo, o do GP do Aniversário de 70 Anos da F1.

O número de trabalhadores na comparação com o ano passado foi reduzido em mais da metade. Em 2019, por exemplo, cerca de 980 pessoas que integram o time de voluntários de Silverstone trabalharam na pista, incluindo funcionários de unidades de resgate e cobertura médica, além de profissionais deslocados para atuar com atendimento aos espectadores. Contudo, tudo mudou para 2020 com as corridas sem público. E mesmo nos serviços de pista, como remoção dos carros e detritos, por exemplo, houve redução de pessoal para assegurar o distanciamento social.

Outro motivo que determinou a drástica redução de fiscais de pista em Silverstone é o fato de que os funcionários não foram testados para o Covid-19. Os testes RT-PCR foram destinados apenas aos profissionais que atuam no paddock da Fórmula 1, como pilotos, membros das equipes e jornalistas. Tal situação causou a fúria dos funcionários, que também são fundamentais na organização de uma etapa do Mundial. Segundo reporta o jornal The Guardian, vários alegaram que se sentiram enganados, como se tivessem levado um “tapa na cara”.

Com menos funcionários em Silverstone, remoção dos carros levou mais tempo que o habitual (Foto: Pirelli)

“Cerca de 30 ou 40% dos fiscais sentem que algo não está certo e não estão muito felizes. Nos sentimos como cidadãos de segunda classe. Como não temos contato direto com as equipes, realmente não temos importância. Sinto-me enganado. Essa é a verdade, para ser sincero”, afirmou um dos fiscais, sob condição de anonimato, em entrevista ao diário.

“É um tapa na cara. Tanto tempo, dinheiro e esforço que investimos para organizar isso durante o ano todo, todos os anos. Isso tudo nos faz sentir indesejados ou apenas um mal necessário”, alegou o profissional, que deixou claro que dinheiro não é, ou não deveria ser problema para que os testes não fossem aplicados também aos fiscais de pista.

“É redução de custos? Bem, se você faz 4.500 testes no local, por que não pode adicionar mais algumas centenas de pessoas? Isso nos faz sentir desnecessários”, lastimou.

Com exceção de Alexander Albon e Romain Grosjean, todos os outros pilotos na pista aproveitaram o período de entrada do safety-car após o acidente de Kvyat para entrar nos boxes e trocar pneus. Na abertura da volta 13, por exemplo, Hamilton e Bottas pararam juntos e fizeram a mudança dos compostos médios usados para duros novos. Ao mesmo tempo, Sainz realizou o pit-stop e trocou os pneus macios usados também para novos compostos brancos.

Uma vez que a corrida só foi retomada com bandeira verde na volta 19, significa dizer que, em condições normais, Hamilton, Bottas e Sainz, para citar aqueles que enfrentaram problemas com pneus nos giros finais, andariam mais tempo em ritmo habitual de corrida com tais compostos.

O ponto é: em um período menos demorado de safety-car, os furos que aconteceram nas voltas finais da corrida seriam vistos pouco antes. Da mesma forma, não é exagero pensar que até mesmo outros pilotos poderiam enfrentar a mesma condição, o que mudaria completamente o resultado que foi visto no último domingo.

Lewis Hamilton venceu com bravura no último domingo em Silverstone (Foto: AFP)

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