Em primeiro ano à frente da F1, Liberty tira Ecclestone de cena, pensa em 2021 e se desentende com potências

No ano em que de fato chegou ao Mundial de F1, o Liberty Media não tentou passou como observador. A maior parte de suas ideias foram apenas isso, ideias, mas quando colocou a mão na massa para criar alguma coisa, como o projeto da nova geração de motores da F1, criou polêmica. Entre o progresso que acredita ser e a resistência de montadoras que entendem o poder que têm, o Liberty vai precisa de mais jogo de cintura no Mundial

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Foi em setembro de 2016 que o Liberty Media confirmou aquilo que era esperado há meses: que passaria a ser o dono da F1, comprando grande parte das ações da antiga dona, a CVC. O acordo garantia a compra, mas ainda previa um novo pagamento, no primeiro trimestre de 2017, para que o comando das operações passasse de fato para as novas mãos. O valor do negócio foi superior a R$ 20 bilhões.

 
O Liberty deixasse claro que tinha como intenção transformar a F1 com relação à identidade e a interatividade, entre várias questões. O então vice-presidente executivo do estúdio de cinema 21st Century Fox, Chase Carey, foi o escolhido para se tornar o novo chefão da F1, mas, num primeiro momento, a palavra era que o grupo midiático norte-americano manteria Bernie Ecclestone a seu lado. 
 
"Estou animado ter a oportunidade de trabalhar ao lado de Bernie Ecclestone, CVC e a Liberty Media", falou Carey na ocasião. "Eu admiro a F1 como um esporte global e franquia de entretenimento que atrai centenas de milhões de fãs de todo mundo a cada temporada. Vejo uma ótima oportunidade de ajudar a F1 a continuar o desenvolvimento e prosperar para o benefício do esporte, dos fãs, dos times e dos investidores", seguiu.
 
Assim que o Liberty de fato tomou controle do campeonato, em janeiro, foi de encontro ao que havia prometido e dispensou Ecclestone da função de chefão. Embora tenha ganho o posto de presidente de honra, saiu das operações diárias. Estas foram entregues a três pessoas: Carey, o presidente; Sean Bratches, diretor-comercial; Ross Brawn, diretor-esportivo. A Santíssima Trindade do Liberty Media para cumprir a promessa de levar a F1 a uma nova era.
Chase Carey e Bernie Ecclestone (Foto: AFP)
“Fui deposto hoje. Vou embora, isso é oficial. Não dirijo mais a empresa. Minha posição foi assumida por Chase Carey”, declarou Ecclestone em fala divulgada pela revista alemã ‘Auto Motor und Sport’. “Meus dias no escritório estão ficando um pouco mais calmos agora. Ainda tenho um monte de amigos na F1. E eu ainda tenho dinheiro suficiente para poder pagar uma visita a uma corrida. “Minha nova posição é agora uma expressão americana. Uma espécie de presidente honorário. Vou assumir esse título sem saber ao certo o que significa”, disse na ocasião.
 
Já Brawn, diretor-técnico brilhante e campeão mundial com Michael Schumacher por sete oportunidades em Benetton e Ferrari, voltou ao Mundial após três anos de aposentadoria. “Estou muito empolgado por me unir à F1 e contribuir para o crescimento contínuo desta extraordinária marca global e do esporte. A F1 é um dos poucos esportes verdadeiramente globais, e estou encorajado pelas múltiplas oportunidades para fazer crescer materialmente o negócio, trabalhando junto com os atuais e futuros patrocinadores, circuitos, donos dos direitos televisivos, bem como criar uma próxima geração digital e experiências de corridas para servir da melhor forma aos fãs da F1”, comentou.
 
O Liberty mostrou interesse em transformar corridas da F1 em pequenos Super Bowls e falou em fazer das praças tradicionais a maior parte do campeonato. O que foi visto como concretizada foram mudanças na identidade eletrônica e uma maior liberdade para retratar pilotos como pessoas normais. Nada drástico, mas um esforço inicial, até com piadas.
Ross Brawn chega para a festa no charmoso Palácio de Versalhes (Foto: FIA)

O primeiro evento Liberty aconteceu na com a criação do 'Fan Fest', em Barcelona. Um espaço dentro do autódromo nos dias anteriores ao GP espanhol apenas para os fãs. Simuladores de carro, tirolesa e música, além de um centro de convivência. Naquele mesmo fim de semana, o caso do menino Thomas emocionou o mundo do esporte a motor. O pequeno Thomas, trajado com camisa da Ferrari, foi flagrado aos prantos pela transmissão oficial da TV após o abandono de Kimi Räikkönen. Pois a organização da corrida tratou de encontrar o menino e levar para um tour nos boxes ainda durante a corrida. Thomas entrou na Ferrari, recebeu mimos e encontrou com o ídolo Räikkönen.

 
A novidade seguinte aconteceu na quarta-feira anterior ao GP da Inglaterra. Numa das praças mais fortes do Mundial, os novos donos inauguraram o F1 Live. Para quase 100 mil pessoas 'in loco' e mais alguns milhares via transmissões ao vivo nas redes sociais, pilotos novos e antigos se aventuraram com carros de todas as épocas e uma grande entrevista descontraída na Trafalgar Square, em Londres. Tamanho o sucesso que prometeram replicar em outros lugares. Marselha, na volta do GP da França, é o alvo da vez.
 
Os esforços do Liberty em seu primeiro ano foram, em geral, voltados para o futuro. Quando a nova geração de carros e motores for apresentada, em 2021, será a primeira 'Geração Liberty'. Portanto o grupo tem tentado desenvolver dois pontos principais para daqui três anos: um motor que seja mais barato e cause interesse em novas fábricas e possíveis construtoras independentes, algo que os motores atuais não fazem pelo preço e alta tecnologia; e um controle orçamentário para todas as equipes, que permita nivelar o pelotão.
 
O primeiro grande ponto da discórdia, porém, veio no plano de instituir um teto orçamentário a partir da temporada 2021. A ideia era que o limite ficasse em R$ 470 milhões em gastos, o que ganhou o suporte das equipes menores e, a priori, não teve oposição das maiores esquadras. “Acho que todos nós vivemos na mesma realidade financeira, vimos os times crescerem muito nos últimos anos e pensamos muito em como conter isso. As discussões que vêm acontecendo estão em um estágio inicial, mas acho que ainda não há discordância”, falou o diretor-executivo da Mercedes, Toto Wolff. Que logo mudaria o discurso.
O F1 Live London, mega evento idealizado pelo Liberty Media, contou com milhares de fãs (Foto: Ferrari)
Conforme as conversas avançaram, porém, o resultado foi desagradando. A verdade é que os aspectos que vem sendo propostos para que o Liberty controle os custos da F1 não estão deixando sobretudo Mercedes e Ferrari felizes. E tudo isso se intensificou após o anúncio do plano de novo motor – também para 2021. O V6 turbo foi mantido, mas numa versão menos tecnológica, sem o gerador de energia. 
 
“O motor para 2021 é um exemplo do futuro que temos com a FIA como regulamentadora, da F1 como produto comercial, das equipes e fábricas como partes interessadas, e como todas trabalharão juntas pelo bem do esporte. A proposta apresentada hoje é o resultado de uma série de reuniões que ocorreram durante 2017 com as equipes atualmente na F1 e com as fábricas que mostraram interesse em participar da F1", disse Brawn.
 
"Ouvimos, também, e cuidadosamente, o que os fãs pensam sobre os motores atuais e o que eles gostariam de ver num futuro próximo, com o objetivo de estabelecer regras que proverão um motor mais simples, barato e mais barulhento e criar condições para facilitar novas fábricas a entrar na F1, para que possamos nivelar mais o esporte. O novo alvo da F1 é ser o líder global em esportes juntamente com ser líder em tecnologia esportiva. Para animar, trazer os fãs de todas as idades para o esporte, mas de maneira sustentável. Acreditamos que o novo motor alcançará isso", completou.
 
As fabricantes não gostaram. "Apesar do que diz a FIA e a FOM, teríamos que desenhar outros motores. É um novo motor com muito detalhes, afinal de contas. E esse é o elemento fundamental para mim", disse o diretor-esportivo da Renault, Cyril Abiteboul. "Precisamos ser extremamente cuidadosos cada vez que instituímos um novo regulamento que implique novos motores ou chassis. Sabemos o impacto disso. Vai gerar uma guerra tecnológica e abrirá novamente as proibições", seguiu.
Liberty Media, a nova dona da F1 (Foto: Reprodução)
"Quando você se fixa num dos pontos-chave da proposta apresentada, parece que não haverá grande mudança; mas no fundo existe, sim. É um motor completamente novo", afirmou Wolff, pela Mercedes. "Aceitamos que o desenvolvimento tem um custo que você precisa enfrentar, mas não devíamos ignorar a criatividade nos novos conceitos, porque isso pode criar custos de desenvolvimentos paralelos nos próximos três anos", explicou.
 
É nessa situação que o Liberty termina o conturbado ano de reconhecimento de terreno na F1. Em desacordo com a Renault, pé de guerra com a Mercedes – que ainda teve Niki Lauda dizendo que se preocupa com o futuro da F1 sob as ideias dos novos donos – e com a Ferrari ameaçando deixar o Mundial. E, por fim, com um novo logo – a primeira mudança no carro-chefe da identidade da F1 nos últimos 24 anos.
 
Os planos pensados precisam mais do que a aprovação teórica dentro da patota do Liberty, por mais que os norte-americanos se julguem extremamente progressistas. Precisam ter o jogo de cintura que Ecclestone, ainda que jurasse ser um ditador, sempre teve. As ideias precisam chegar ao plano prático sem abrir uma temporada de ódio mútuo entre Liberty e grandes fábricas.
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