F1 toma pernada da Red Bull e entra na torcida para ‘Opção Porsche’ se materializar
Negócio entre Red Bull e Porsche caiu por terra para desagrado da Fórmula 1, que tem fortes esperanças de contar com a fábrica alemão no grid
Durante mais de um ano, a Fórmula 1 convidou Audi e Porsche, interessadas nas diretrizes da categoria, para quem sentassem à mesa e discutissem como seria o futuro do ponto de vista da tecnologia. O interesse das gigantes alemãs, ambas partes do Grupo Volkswagen, encantou a F1. Afinal, as dificuldades de atrair novas fábricas desde o fim dos anos 2000 era atroz. Com as barreiras nas quais apitava, de futuro e tecnologia, superadas, notar que há o próximo passo ainda é incerto preocupa.
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A questão é que, as diretrizes que as fabricantes de motor aprovaram casava com o que as novatas e FIA e F1 gostariam. Era uma enorme barreira, talvez a mais complexa de todas, e foi superada. Bem como foi a luz verde dada pela antes resistente Volkswagen. A partir daí era procurar em que tipo de capacidade as duas fábricas ingressariam na categoria a partir de 2026, ano em que estas novidades no motor e combustíveis entram em vigor.
A Audi foi clara desde o começo: queria comprar uma operação e assumi-la por completo, sendo fabricante de motor e equipe oficial dela própria. Buscou McLaren, Williams, mas conseguiu abertura para negociar mesmo com a Sauber, ainda dona da equipe que leva o nome da apenas parceira Alfa Romeo. O negócio ainda não saiu, mas está próximo: salvo uma degringolada completa nas semanas vindouras, algo improvável visto que a Alfa Romeo já anunciou que deixa a equipe no fim do contrato, a Audi será dona da Sauber. Uma equipe da F1, pois.
A situação da Porsche era menos clara. Afinal, a informação original dava conta de que, diferente da coirmã Audi, a Porsche não queria, necessariamente, controlar uma equipe e assumir a operação por completo. Gostaria de produzir motores, entregar e adquirir know-how.
Assim foi que a possibilidade de fazer negócio com a Red Bull engrossou. Em 27 de julho, um documento oficial sobre a fusão foi tornado público pelas agências antitruste do Marrocos. O motivo era que uma fusão deste porte, entre duas companhias pesos-pesados, tinha de ser autorizada dentro da União Europeia e por mais 20 países fora dela para que fosse tida como legal. O Marrocos, um dos países consultados, tem como lei que avaliações antitruste sejam feitas de forma pública.

O relatório mostrou, por exemplo, que o negócio era por 50% das ações e que a Red Bull notificou as autoridades inicialmente no dia 8 de julho. Era um negócio que estabelecia acordo de dez anos e com sede em Milton Keynes, na fábrica atual da Red Bull.
Depois disso, a revista alemã Auto Motor und Sport foi além e publicou planos de como o trabalho em conjunto seria estruturado. A Red Bull tocaria a equipe da maneira que funciona hoje, enquanto o motor será batizado de Porsche. Mas, não custa lembrar que, neste 2022, a marca dos energéticos inaugurou uma fabricante de motores, a Red Bull Powertrains, que opera atualmente na mesma fábrica de Milton Keynes. E os planos eram que os motores de combustão interna continuassem sendo feitos na Inglaterra, enquanto a Porsche conduziria toda a parte eletrônica e híbrida/elétrica direto de seus domínios, na cidade alemã de Weissach.
A parceria entre as duas na construção do motor só valeria para 2026 e sem tração com a AlphaTauri, ao menos no que era programado inicialmente. Desta maneira e com a Porsche apontando na reta para 2026, chegou a haver uma dúvida sobre se a Honda toparia seguir ao lado da Red Bull com atual tecnologia, congelada até 2025 – mudanças permitidas basicamente apenas na área de segurança. Mas a Honda, interessada em bater a carteira dos alemães e voltar à F1, renovou o acordo técnico e seguirá ao lado da Red Bull nas próximas três temporadas.
O relatório apresentado no Marrocos destacava o dia 4 de agosto como data do anúncio da parceria, mas as coisas atrasaram. 4 de agosto passou e se esgotou, bem como o restante do mês. No dia 10 de agosto, mais um forte sinal da oficialização da parceria Porsche/Red Bull foi dado: a montadora de Stuttgart registrou a marca comercial “F1nally” — jogo de palavras com F1 e finally (finalmente, em inglês). Bastava a confirmação da FIA (Federação Internacional de Automobilismo) sobre quais mudanças seriam promovidas na categoria para o anúncio, então, ser feito.
Elas vieram seis dias depois, após aprovação do Conselho Mundial do Esporte a Motor da FIA. Era o que faltava para Audi e Porsche, então, colocarem em prática os planos iniciais para finalmente ingressarem na elite do automobilismo mundial, e a Audi saiu na frente, anunciando que passaria a ser fornecedora de motores a partir de 2026.
O atraso esticou mesmo após a definição oficial das diretrizes do motor para 2026, que, ao menos em teoria, encerraria o suspensa. Aí, já estava claro: o atraso queria dizer impasse. As conversas encontraram um bloqueio.

A diferença entre as partes jamais foi alcançada. Acontece que, no fim das contas, a Porsche queria, sim, o controle que a Red Bull não estava disposta a oferecer. A marca dos energéticos não apenas rejeitou a ideia de virar uma companhia Porsche, mas até de passar toda a fabricação de motores aos alemães. Bateu o pé e reafirmou que o projeto da Red Bull Powertrains é sério.
“Nos últimos meses, a Porsche e a Red Bull conversaram sobre a possibilidade da entrada da Porsche na Fórmula 1. As duas empresas chegaram juntas à conclusão de que essas negociações não serão levadas adiante”, disse o comunicado oficial emitido pela marca alemã.
“A premissa sempre foi que uma parceria seria baseada na igualdade, o que incluiria não apenas uma parceria de motores, mas também dentro da equipe. Não conseguimos alcançar isso. Com as mudanças de regras definidas, a categoria continua sendo um ambiente atraente para a Porsche, e continuará sendo monitorado”, encerrou a nota.
“Comprometemo-nos a ser uma fabricante de motores há um ano e meio, mais ou menos”, lembrou Christian Horner, chefe da Red Bull. “Investimos muito em instalações e pessoal, e o primeiro motor da Red Bull foi ligado há pouco tempo. Portanto, é um capítulo absurdamente empolgante para nós, e isso nunca dependeu de terceiros ou de um OEM (fabricante do equipamento original, da sigla em inglês). Definitivamente, isso nunca foi um pré-requisito. A Porsche é uma grande marca, mas o DNA e diferente do nosso”, fechou à revista inglesa Autosport.
A questão é que por boa parte das discussões sobre 2026, a Fórmula 1 foi submetida aos desejos de Audi e Porsche porque havia a convicção, tanto do Liberty Media quanto as demais equipes, que faria bem para os cofres e imagem da categoria contar com outras marcas do tamanho de Mercedes, Ferrari e Renault, sobretudo após a perda da Honda. O que era possível de envergar para dar passagem às gigantes, foi envergado.
Enquanto isso, as equipes que fecham portas para os interesses da Andretti, um emblema tão imponente do automobilismo dos Estados Unidos, só faltam estender o tapete vermelho para que a Porsche encontre soluções. Ninguém representa essa dicotomia como Toto Wolff, diretor-executivo da rival nacional Mercedes.

“Se uma marca como a Porsche, que é conhecida no mundo inteiro, colocar o dinheiro de marketing ativando na F1, todos nós vamos nos beneficiar. Esta é a parte importante, não é apenas ter o time e tocá-lo, mas em todos os mercados precisariam ter grandes propagandas, grandes campanhas, colocar a marca deles. Por isso ter essas grandes marcas na F1 é importante”, comentou o chefe da Mercedes.
Apesar de todos os esforços da F1 e suas equipes, a Porsche ficou mais distante. A Red Bull está no direito dela e nada fez de errado, ética ou esportivamente, ao rechaçar as conversas com a fábrica. Só que a F1 tem de se sentir como grande derrotada do naufrágio deste acordo, por tudo o que projetou.
Agora, até mesmo Wolff imagina a Porsche na F1 apenas “para 2027 ou 2028”. A F1 pode até mexer alguns pauzinhos e facilitar alguma mediação que possa surgir com outra equipe menor, mas as opções não são diversas. A Williams rejeitou os avanços da Audi e deu a entender que não está interessada; as equipes de fábrica, e nisso a McLaren se encaixa, não estão abertas; a Sauber/Alfa Romeo tem acordo adiantado com a Audi; a AlphaTauri nunca foi do interesse; sobra a Haas, dos Estados Unidos, com enormes problemas financeiros. A outra alternativa seria uma nova equipe, talvez até a Andretti, como 11ª escuderia do grid. Isso, ao menos até o fim do atual Pacto da Concórdia, parece desagradar as equipes grandemente.
Se quiser ver a Porsche no grid nos próximos anos, é bem possível que a F1 tenha de se mexer e ajudar a concretizar alguma ‘Opção Porsche’. Resta saber qual, porque não está clara até agora.
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