F1

GP desastroso na Alemanha revela lado vulnerável e humano da Mercedes

O mês de julho na F1 foi particularmente interessante e apresentou diversas facetas dos principais nomes do campeonato. E uma das mais curiosas diz respeito à Mercedes. Sempre tão precisa e perfeita, a pentacampeã revelou seu lado mais terreno e frágil. O atrapalhado GP da Alemanha mostrou que a equipe prata é humana

GRANDE PRÊMIO / EVELYN GUIMARÃES, de Curitiba
A Mercedes viveu um início de temporada avassalador em um domínio poucas vezes visto na Fórmula 1. A performance chegou tão próxima da perfeição que a equipe prata foi acusada de deixar o campeonato chato e sem graça. É claro que o time chefiado por Toto Wolff não pode ser culpado pelas trapalhadas ou pela falta de desempenho das rivais, mas, ao fim e ao cabo, a versão venceu o fato. Só que, para a sorte da F1, até a precisa esquadra da estrela de três pontas está sujeita às intempéries da vida. E foi a partir do fim de junho que ficou claro que os alemães também têm lá seus perrengues para lidar.
 
Acontece que o GP da Áustria foi disputado sob um calorão de quase 40ºC em uma pista que fica 700 m acima do nível do mar. As duas condições combinadas acabaram por minar as chances prateadas no Red Bull Ring. O W10 sofreu sob altas temperaturas, e os engenheiros tiveram de achar soluções improvisadas: os dutos todos foram abertos no carro, e o motor passou a trabalhar em uma configuração bem abaixo de seu potencial. Todo cuidado foi pouco na etapa austríaca. Ainda assim, os dois carros completaram a prova, mas longe do pódio. 
A Mercedes sofreu na Áustria (Foto: Mercedes)
Duas semanas mais tarde, a Mercedes chegou a Silverstone, sua segunda casa, uma vez que a fábrica da equipe fica a poucos quilômetros do tradicional circuito britânico. A Inglaterra se mostrou mais amena, mas a esquadra se envolveu em outras situações, apesar da brilhante vitória de Lewis Hamilton. A equipe acatou a decisão dos pilotos, que optaram estratégias diferentes. A do inglês se apresentou mais sábia, com um único pit-stop. Só que o time poderia ter mudado a tática de duas paradas de Valtteri Bottas no safety-car e não o fez, e isso gerou algum questionamento sobre um eventual, ainda que inconsciente, como disse Wolff, favorecimento a Hamilton.
 
Aí veio Hockenheim, casa de fato da equipe pentacampeã. Celebrando 125 anos de esporte a motor e 200 largadas na F1, a esquadra preparou uma festa, surgiu vestida como nos anos 50. Um carisma só. Mas nem isso a ajudou. Apesar do sábado de glória com a pole de Hamilton, o domingo foi de pesadelo, de um raríssimo momento errático e atrapalhado.
 
A corrida com chuva até que começou bem, com os dois carros à frente, liderando sem muito problema. Só que era uma daquelas provas em que ou dá tudo muito certo ou dá tudo muito errado. No caso da Mercedes, foi a segunda opção, algo que ela não está acostumada. A instabilidade do clima gerou, claro, uma confusão nos boxes, no troca-troca de pneus, ora para pista molhada, ora para os trechos já secos com trilho. Normalmente, a equipe trabalha bem nessas condições, embora não seja o time mais ousado do mundo. Mas, desta vez, o pit-wall colocou tudo a perder com grande ajuda dos pilotos.
A largada do GP da Alemanha: bom começo para a Mercedes (Foto: AFP)
Depois de comandar a primeira parte da corrida com certa tranquilidade, Lewis se viu em apuros. A equipe o chamara para os boxes aproveitando um safety-car. Ainda que a pista estivesse em condições mistas, o pentacampeão saiu com pneus macios slicks no momento em que voltava a chover. E cometeu um erro incomum, escapou da pista, bateu a asa dianteira e, como estava muito próximo da entrada do pit-lane, tratou de ir logo para lá. Só que os mecânicos não estavam preparados, haviam acabado de trabalhar no carro do britânico. Foi um corre-corre nunca visto ali – e olha que estamos falando de uma equipe que fez dois pit-stops quase ao mesmo tempo na China, sem pestanejar.
 
O fato é que Hamilton permaneceu nos pits por uma eternidade até que se encontrasse uma asa dianteira, os pneus corretos. E como desgraça pouca é bobagem, Lewis ainda foi punido pela entrada descuidada nos boxes. Lá se foram mais alguns segundos... A prova já estava acabada. Mas calma lá! Ainda faltava Bottas. O finlandês também errou no mesmo lugar do colega de garagem, mas não teve tanta sorte. Bateu e deu adeus à disputa, num momento em que negocia um novo contrato...
 
"Eu sou apenas humano, foi um erro e erros acontecem. Foi uma combinação de fatores. É decepcionante e perturbador para todos nós. Tínhamos tudo sob controle e estávamos liderando a prova. As coisas foram simplesmente acontecendo, como um dominó. E isso apenas mostra como é fácil errar em um fim de semana", disse Hamilton.
O GP da Alemanha foi um caos para Lewis Hamilton (Foto: AFP)
Do ponto de vista da equipe prata, o perturbador ali talvez seja o que melhor traduziu o dia em Hockenheim. E isso se confirma nas palavras do chefão Toto Wolff. Ao falar da derrota, o austríaco poderia até ter se dado ao luxo de usar a carta de que, para a equipe, o resultado não muda o fato de que o time vive uma temporada das mais fortes, com nove vitórias em 11 corridas, mas o dirigente foi na direção contrária. "Não é embaraçoso. O esporte a motor é assim. Às vezes, você precisa tomar um soco no queixo e aprender. Estes são os dias que nos tornam melhores."
 
Para a Fórmula 1, foi ótimo esse soco no rosto da Mercedes, porque acirra a disputa e deixa os campeões mordidos, após deixarem suas fraquezas à mostra. E nada como uma revanche para melhorar um campeonato. Não se engane, depois que se despir do branco, o time alemão voltará com força. A história mostra que a esquadra nunca sofre dois reveses seguidos. E a temporada passada é a maior prova disso. Azar da concorrência.

A Fórmula 1 retorna neste fim de semana, em Hungaroring, para o GP da Hungria, o 12º da temporada e último da primeira parte do campeonato. O GRANDE PRÊMIO acompanha tudo AO VIVO E EM TEMPO REAL
 

 
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