Haas passa pano para Mazepin e deixa imagem de que tudo pode. E silêncio da F1 ratifica

Nikita Mazepin vai seguir como piloto titular da Haas para 2021. A equipe americana, no fim das contas, não achou tão abominável assim o comportamento hediondo do rapaz. E deixa a mensagem de que tudo é permitido, desde que se pague. Mas o silêncio da F1 e da FIA incomoda mais

A Haas confirmou que o abuso sexual protagonizado por Nikita Mazepin não é motivo suficiente para expulsá-lo de suas garagens. O russo é alvo de discussão desde o último dia 8, quando publicou um vídeo nos stories do Instagram abusando de uma modelo. Na publicação, o piloto apalpa o seio da mulher que ficou exposto após a alça do vestido escorregar. Ela respondeu tentando afastar a mão do piloto e mostrando o dedo médio – mais tarde, também o acusou. A postagem do piloto, claro, já foi retirada do ar, não sem antes ser amplamente compartilhada. A equipe norte-americana precisou reagir, dada a repercussão negativa que tomou conta das redes sociais, tendo a hashtag ‘#WeSayNotoMazepin’ [‘Dizemos não a Mazepin’, em português] como símbolo de um movimento crítico contra as ações de Nikita. Em nota, o time chefiado por Guenther Steiner classificou o episódio como abominável e condenou o comportamento do recém-contratado. Ainda, a esquadra afirmou que resolveria o problema internamente e que estava levando o caso a sério. Só que a solução encontrada foi mesmo a de empurrar a sujeira para debaixo do tapete.

Não que isso surpreenda, afinal a própria F1 já deu inúmeros exemplos ao longo de sua história sobre como ignorar solenemente direitos humanos e glorificar o poder da grana. Mas são tempos diferentes esses. Só o aporte financeiro não será o bastante para justificar o fato de que a Haas se associa a uma imagem machista e discriminatória. Também, a decisão protege um jovem branco e rico e ratifica o pensamento de que tudo, absolutamente tudo é permitido, sem qualquer punição.

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Guenther Steiner abriu mão do correto pelo dinheiro e passa uma mensagem distorcida ao público (Foto: Rodrigo Berton/Grande Prêmio)

De carreira mediana, Nikita chega à Fórmula 1 impulsionado pelo dinheiro do seu pai, Dmitry Mazepin, um bilionário ligado à indústria petroquímica. Estima-se que o aporte na Haas seja de US$ 40 milhões – cerca de R$ 205 milhões –, o que tiraria a equipe de fortes dificuldades financeiras. Só que a trajetória do jovem russo é pautada mais por episódios controversos do que por grandes atuações em pista – e fora delas. A começar pela ‘desculpa’ que deu para o caso do abuso. Logo depois que o vídeo ganhou notoriedade, Mazepin afirmou que agora “tinha de se segurar, pois agora é um piloto de F1” – a declaração foi apagada de suas redes, é importante destacar aqui. E a ideia distorcida dá uma dimensão do que é esse rapaz. Outros episódios corroboram: Nikita é o mesmo que, algumas semanas atrás, debochou e escreveu que “hoje faz um ano que um menino comeu um morcego em Wuhan. Feliz aniversário, Covid”. Acontece que um colega de grid na Fórmula 2, o compatriota Robert Shwartzman, perdeu o pai para a doença. Além de todos os efeitos devastadores que a pandemia provocou ao redor do mundo e em seu país também.

Em 2018, o jovem promoveu uma festa em Moscou em meio à morte de nove operários em um acidente em uma mina da empresa de seu pai. Bem, há uma falha de caráter. E também um desrespeito pela vida privilegiada, especialmente quando ignora que pessoas morreram enquanto geravam milhões à companhia da família. O piloto de 21 anos também já se envolveu em um confronto físico com o inglês Callum Ilott. Acertou socos no rival após um desentendimento durante os treinos da F3 Euro na Hungria. Ele foi suspenso da primeira corrida. No último fim de semana da Fórmula 2, no Bahrein, acabou punido depois de duas manobras inconsequentes e graves durante a primeira corrida.

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Portanto, há um histórico perigoso aí. Então, por que não falar sobre que ações foram tomadas contra o comportamento do piloto? Há uma garantia de que entendeu o que fez de errado? De novo, é uma mensagem muito equivocada essa que a equipe americana passa agora. Ou seja, para a Haas, não há problema algum em importunar uma mulher, expô-la sem seu consentimento. Nem desculpas precisam ser feitas e mantidas.

FÓRMULA 2; NIKITA MAZEPIN; FELIPE DRUGOVICH;
Nikita Mazepin joga carro para cima de Felipe Drugovich duas vezes em Sakhir (Foto: Reprodução)

Só que esse também não é um episódio isolado e precisa ser tratado com uma real seriedade, já que a Haas renunciou a isso. Portanto, o silêncio da Fórmula 1 e da Federação Internacional de Automobilismo incomoda. Especialmente em um 2020 em que lança a campanha ‘We race as one’. Então, corremos juntos ou não? Ou quem é de fato esse um? São perguntas que só podem ser respondidas como atitudes firmes.

Ações que outras categorias não temeram em tomar. A Nascar não hesitou em se posicionar contra os comentários racistas feitos por Kyle Larson, durante uma competição virtual. O piloto foi demitido de sua equipe por isso. Ainda, apoiou todas as iniciativas no caso de Bubba Wallace, diante do símbolo racista encontrado nos boxes em Talladega. Em um caso bem diferente, mas que deixa evidente o caráter ou a falta de, Daniel Abt perdeu lugar na equipe que leva seu sobrenome, depois de enganar os rivais, colocando outro piloto em seu lugar numa disputa de uma prova virtual da Fórmula E.

Os episódios são exemplos de como tratar de forma séria aquilo que pode mudar a imagem de um esporte e mandar a mensagem correta aos fãs. Só que, curiosamente, a F1 e a FIA tiveram atitudes recentes que vão contra tudo isso e apenas reforçam a posição de que simplesmente lavaram as mãos neste caso de Mazepin e a Haas. Em 2018, quando Max Verstappen empurrou Esteban Ocon durante a pesagem, numa discussão entre ambos por lance de pista, a Federação puniu o holandês com serviços comunitários, com o objetivo de rever suas atitudes contra um adversário e como isso poderia influenciar o comportamento dos mais jovens. Max cumpriu a sanção.

Lewis Hamilton usou camisa pedindo a prisão dos policiais que mataram a jovem negra Breonna Taylor (Foto: AFP)

Outro caso ainda mais sério aconteceu neste ano. Após vencer o GP da Toscana, Lewis Hamilton subiu ao pódio com uma camiseta em que chamava a atenção para a impunidade no assassinato de uma técnica de enfermagem preta nos Estados Unidos. A FIA rapidamente ensaiou uma investigação, alegando que a mensagem quebrava regras da entidade, por causa do posicionamento político estampado por Hamilton.

Portanto, é imperativo que a F1 e a FIA se posicionem do lado certo desse hediondo episódio, pois são as únicas que podem, de fato, fazer a diferença, inclusive em um campo financeiro, já que essa parece ser a desculpa para tudo. Ainda, as duas entidades têm a obrigação de nos fazer acreditar que o ‘We race as one’ é verdadeiro e não uma frase vazia. O futuro depende disso também. É um capítulo importante que está sendo escrito agora e que será julgado pela crueldade do tempo. E que história esse esporte quer contar, afinal?


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