Hamilton perde paciência com Mercedes que se desesperou e busca Eldorado na Ferrari

Mercedes entrou em pânico ao ver Red Bull passando de passagem e não se recuperou. Bem como, e agora fica claro, Lewis Hamilton também não aceitou o fato de ter sido ignorado e ter de conviver com um time aflito por 24 meses. Agora, faz o movimento à Ferrari que sempre se falou e parecia que jamais viria

Há decisões importantes e anúncios inesperados a todo momento no mundo do esporte e da Fórmula 1. Mas há aqueles que são instantaneamente acontecimentos que ficarão marcados por muito tempo. Hoje, 1º de fevereiro de 2024, será lembrado como o dia do juízo final para a Era de Ouro da Mercedes, o período mais vitorioso de uma mesma equipe na história da Fórmula 1. O dia em que Lewis Hamilton oficializou um inesperado adeus.

E não se trata apenas de um adeus de Hamilton para deixar a Mercedes, mas para fazer um movimento que já ninguém mais esperava: a mudança para uma rival. Para a Ferrari, ainda. É um dia para o qual o mundo da F1 não se preparou, porque ainda não havia qualquer aviso de que se avizinhava. Hamilton e a Mercedes, afinal, ainda falavam de um futuro juntos, de como queriam prosperar como parte do conjunto que tanto conquistou.

Mas a decisão está tomada e é final. Hamilton fica na Mercedes para este 2024 que, afinal, já está arquitetado para a eles e para Ferrari, que conta com Carlos Sainz pronto e sob contrato. Será uma temporada esquisita, com dois zumbis ocupando vagas que já não são suas. O que esperar da sempre tão próxima relação entre Mercedes e Hamilton, por exemplo? São cenas dos próximos capítulos.

A questão é que, com tudo às claras, é possível fazer um raio-x da relação nos últimos tempos e tentar recuperar as migalhas deixadas pelo caminho que explicam a mudança impensável até dois dias atrás. Sobretudo porque, no fim de agosto do ano passado, Lewis assinou um acordo de dois anos mais com a Mercedes, até o fim de 2025. É desse acordo que sairá um ano antes.

Lewis Hamilton a caminho de Maranello (Foto: Mercedes/LAT Images)

O incômodo remete ao começo de 2022, quando ficou evidente que o carro da Mercedes já não era o melhor do grid — estava longe disso, na verdade. Mas o problema maior sequer era o local na ordem de forças, embora é claro que se ver fora da briga após oito anos tenha sido um baque. Dentre carros da F1 que sofriam na nova ordem, a Mercedes sofria mais. Naquele começo especificamente, entre os que muito pulavam, a Mercedes tinha o bólido que pulava mais com as configurações do efeito-solo.

A primeira reclamação veio ainda na pré-temporada, após a segunda sessão de testes no Bahrein.

“Teríamos que ser muito, muito bons para ter tanto oversteer e pilotagem inconsistente só para esconder nossas cartas. Temos coisas que estamos tentando resolver. Outros estão tendo menos problemas. Quem sabe, talvez, teremos um melhor entendimento quando a temporada começar. Estamos trabalhando em diferentes cenários, tentando manter o downforce sem chacoalhar tanto como no último teste. Alguns conseguiram gerenciar isso melhor. Está sendo bem difícil”, falou há cerca de dois anos.

Essas reclamações persistiram por boa parte do campeonato, bem como a recorrente frustração pela falta de performance. Mas a Mercedes escalou um tanto no fim do ano: encerrou 2022 muito atrás da Red Bull, mas encostou na Ferrari e até ganhou uma corrida no GP de São Paulo. Com George Russell, porém, o que decretou o primeiro campeonato sem vitória de Hamilton desde que ingressou na F1, em 2007. A avaliação final sobre o carro ainda era desastrosa.

“[O W13] simplesmente não quer ir onde você quer e não reage da maneira que você quer, ou qualquer coisa como qualquer carro do passado. Este carro, na fase inicial, meio que desafiou todas as características normais que você experimentaria ao longo de toda a sua carreira de piloto. Trabalhávamos para evoluir, mas quando um novo fim de semana chegava e íamos à pista, ainda era a bagunça que tivemos na corrida anterior. Eu definitivamente diria que foi difícil para todos”, opinou sobre 2022.

E é aí que vem o grande ponto de inflexão. Piloto e equipe tiveram diferentes opiniões sobre a melhora do fim do ano. Para Hamilton, era fruto das circunstâncias, mas o projeto conceitual do zeropod devia ser abandonado para 2023, enquanto a Mercedes entendeu como prova de que o conceito precisaria ser ajustado. Assim, o W14 de 2023 empreendia a mesma ideia.

Logo no primeiro teste, melancolia. “Lembro de ter sentido exatamente a mesma coisa que em 2022”, disse Hamilton em entrevista à emissora britânica BBC. “Definitivamente, não era algo bom de sentir, eu tinha esperanças grandes”, lamentou.

“Em fevereiro, quando começamos a ver para onde o carro estava indo, fiquei um pouco mais apreensivo porque, no ano passado, era aquilo de ‘o carro é incrível, é único, ninguém vai ter nada igual. E aí veio o primeiro teste…”, recordou.

Com isso, Carlos Sainz vê a aventura ferrarista perto do fim (Foto: Ferrari)

“Certamente fiquei frustrado, porque pedi por determinadas mudanças e elas não foram feitas”, admitiu Lewis. “Ninguém sabia exatamente qual era o problema. Ninguém sabia consertar. Com a experiência do ano anterior, simplesmente me esforcei em termos de me aprofundar e sentar com os caras [engenheiros e mecânicos]”, comentou.

O mais importante está nessa última parte: Hamilton pediu claramente mudanças que não foram feitas. Depois de dez temporadas, seis títulos e mais de 80 vitórias, foi ignorado no momento mais crucial.

Embora a declaração acima tenha sido feita no fim de 2023, Hamilton contou ao mundo que se sentira ignorado logo no começo da temporada passada, ainda em março, após a corrida que abriu o ano, no Bahrein.

“No ano passado, falei diversas vezes. Eu expliquei os problemas que tinha no carro. Pilotei tantos carros na minha vida. Eu sei do que um carro precisa e do que não precisa. Eu acho que é realmente sobre responsabilidade”, contou o heptacampeão ao podcast Radio 5 Live’s Chequered Flag, da BBC.

“Trata-se de assumir e dizer: ‘Sim, quer saber? Não ouvimos você’. Não é sobre onde precisa estar e temos de trabalhar. Temos de olhar para o equilíbrio nas curvas, observar todos os pontos fracos e nos unirmos como um time. É isso que fazemos. Ainda somos multicampeões mundiais, sabe? Só não acertamos desta vez. Não acertamos no ano passado. Mas isso não significa que não podemos acertar no futuro”, pontuou.

Depois, no Catar, Hamilton se pegou na pista com o companheiro Russell, no que foi o primeiro atrito de uma parceria que fora tranquila até então. O primeiro desagravo de Hamilton com um companheiro desde a aposentadoria de Nico Rosberg. E, embora publicamente os dois não tenham alimentado o fogo, a Mercedes também evitou se comunicar a favor de um ou outro.

Para fechar a conta, virou o ano tratando Russell como “o futuro”. Mas Hamilton ainda está no presente e acabara de assinar por mais dois anos, sem muito desejo imediato de parar.

Os incômodos de Hamilton com o fato de ter sido ignorado são bastante claros há muito tempo, mas a extensão era ainda maior do que se pensava. Mesmo que dissesse a coisa certa, como um membro da equipe, jamais processou a maneira como a Mercedes lidou com sua opinião em situação dramática.

Lewis Hamilton foi parar na brita após contato com o companheiro de equipe no GP do Catar (Foto: AFP)

Mesmo assim, as declarações recentes não parecem as de um sujeito prestes e zarpar da marina. “Acredito que temos um norte agora”, disse Hamilton em entrevista à emissora britânica BBC. “Algo que acho que não tivemos por dois anos. Mas ainda estamos chegando lá, não é uma linha reta. Certas coisas, decisões que foram tomadas, nos deixaram bloqueados e no fim do caminho. E você não pode fazer nada, por causa do teto de gastos e todas essas coisas”, pontuou.

O trabalho, agora, é ajudar estabelecer o norte. Daí em diante, o futuro. Nos últimos dois anos, se a Ferrari mostrou alguma coisa, é que consegue reagir muito mais rapidamente ne era do efeito-solo. Mesmo com as dificuldades apareceram durante 2023, os italianos fecharam o ano mais fortes que a Mercedes, ainda que não tenham terminado na frente no Mundial de Construtores. Em grande parte, aliás, ao campeonato que Lewis teve.

E se Hamilton, que completa 40 anos em janeiro de 2025, antes de estrear pela Ferrari, parecia fugir à regra dos grandes campeões com a tentativa de achar petróleo na Ferrari, tudo isso mudou rapidamente. Como Michael Schumacher, Juan Manuel Fangio, Alain Prost e Sebastian Vettel, entra para a galeria dos que se vestiram de vermelho: todos os pilotos com mais de três títulos mundiais de F1 defenderam a Ferrari em algum momento.

É a chance, também, de novos desafios. Não apenas dividir a garagem com um talento tão estabelecido na casa quanto Charles Leclerc, que acabou de renovar o contrato até 2029, mas mudar de ares. Pela primeira vez em quase 20 anos de F1, defenderá uma equipe não estabelecida na Inglaterra, mas na Itália, e acelerará um motor diferente daquele feito na fábrica da Mercedes, em Brixworth. Ainda vai reencontrar Frédéric Vasseur, chefe dele na ART nos tempos de GP2.

Na bolsa de desafios, a chance de tirar da fila o Eldorado vermelho. Fila, essa, que começou exatamente no ano de estreia e muito pelas mãos de Hamilton que, com o campeonato quase conquistado, errou feio na China e no Brasil e serviu o caneco de bandeja a Kimi Räikkönen. Quem sabe, pelas mãos dele, a sala de troféus volte a crescer.

Fórmula 1 retorna às pistas de 21 a 23 de fevereiro, com os testes coletivos da pré-temporada no Bahrein, no circuito de Sakhir.

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