Na Garagem: Rindt morre após acidente em Monza. Depois, entra para história da F1

Foi há exatos 50 anos, em 5 de setembro de 1970, que Jochen Rindt morreu de forma trágica no treino classificatório do GP da Itália após acidente na curva Parabólica de Monza. O austríaco era o líder do campeonato. Quase um mês depois, a primeira vitória de Emerson Fittipaldi na categoria ajudou Rindt a ser o primeiro e único campeão póstumo da Fórmula 1

Em um sábado, 5 de setembro como hoje, a Fórmula 1 realizava o treino classificatório para definir o grid de largada do GP da Itália há 50 anos. Em Monza, Jochen Rindt, austríaco de 28 anos que defendia a Lotus e que liderava o Mundial de Pilotos com 45 pontos, estava na pista para tentar melhorar seu tempo, 1min25s71, e buscar a pole-position no templo da velocidade. Mas um gravíssimo acidente naquela tarde na curva Parabólica, que dá acesso à reta dos boxes, encerrou precocemente a carreira do piloto. De forma única, um mês mais tarde, Rindt conquistou o título da temporada 1970. A vitória de Emerson Fittipaldi no GP dos EUA, em Watkins Glen, encerrou as chances de Jacky Ickx chegar ao título e fez de Rindt o único campeão póstumo da história da Fórmula 1.

Nascido em Mainz, na Alemanha, em 1942, Rindt corria com licença austríaca em razão da mãe, que era tenista e natural do país. Jochen ficou órfão dos pais com apenas 15 meses depois de um bombardeio em Hamburgo durante a II Guerra Mundial. A criança foi criada pelos avós maternos.

Rindt era descrito por amigos de infância como uma criança atrevida. Ao brincar de esquiar, quebrou o fêmur e foi submetido a várias cirurgias, o que deixou uma perna 4 cm mais curta que a outra. Foi por isso que Jochen mancou até o fim da vida. Adolescente, tomou ainda mais gosto pela velocidade e, ao ganhar uma moto, começou a competir com os amigos. Em 1961, conheceu de perto a Fórmula 1 ao acompanhar o GP da Alemanha em Nürburgring com amigos de escola. Entre eles, estava um certo Helmut Marko, hoje consultor e um dos homens-fortes da Red Bull.

Com a morte dos pais, Rindt herdou bom dinheiro. Por isso, não teve problemas para comprar bons carros e iniciar sua trajetória no automobilismo. Jochen manteve o estilo atrevido e arrojado que o caracterizou desde a infância e se destacou correndo na Fórmula 2. Em 1965, venceu as 24 Horas de Le Mans com uma Ferrari 250LM da North American Racing Team. No ano seguinte, fez sua estreia na Fórmula 1 correndo justamente a corrida de casa, com uma Brabham da equipe de Rob Walker, mas sem pontuar.

Jochen Rindt venceu o GP de Mônaco de 1970. Foi seu primeiro triunfo naquela temporada fatal (Foto: Forix)

Nos anos de 1967 e 1968, Rindt disputou também as 500 Milhas de Indianápolis, mas sem muito sucesso. A glória para o piloto estava reservada para a Fórmula 1.

Rindt foi piloto oficial da Cooper a partir de 1965. No ano seguinte, teve bons resultados como os segundos lugares nos GPs da Bélgica e dos Estados Unidos e um terceiro lugar na Alemanha, ficando no top-3 do campeonato, só atrás de Jack Brabham e de John Surtees. Depois de uma temporada marcada por abandonos em 1967, Rindt foi contratado pela Brabham, conquistou suas duas primeiras poles, foi terceiro lugar na África do Sul e na Alemanha, mas teve mais problemas que alegrias. Tudo mudou mesmo quando assinou a transferência para a Lotus em 1969.

A Lotus foi uma das maiores escuderias da F1 e, nos anos 1970, perdia em números de títulos apenas para a Ferrari. Com seis taças do mundo, a equipe de Colin Chapman teve cinco campeões diferentes em seus carros: Jim Clark, em 1963 e 1965; Graham Hill, em 1968; Emerson Fittipaldi, em 1972; e Mario Andretti, em 1978. Além da conquista ímpar de Rindt no ano do tri do Brasil na Copa do Mundo. O piloto de licença austríaca se notabilizou por ser muito rápido: marcou cinco poles em 10 GPs e venceu pela primeira vez na F1 em Watkins Glen.

Tudo indicava, portanto, que 1970 seria um grande ano para Jochen Rindt.

Naquela temporada, quando a F1 chegou a Monza, a tabela apontava Rindt na liderança do campeonato; Jack Brabham, em seu carro próprio, tinha 25 pontos; Denny Hulme, da McLaren, com 20; Jacky Ickx, da Ferrari, e Jackie Stewart, da March, apareciam empatados com 19. Para o austríaco da Lotus, bastava vencer em Monza e Brabham não chegar ao pódio para conquistar o título.

Era uma briga entre juventude e experiência: o austríaco tinha apenas seis temporadas na categoria. Já o australiano tinha 14 temporadas completas na F1, era tricampeão do mundo e dirigia por uma equipe própria. Brabham liderou o campeonato até o GP da Bélgica, quarta etapa do campeonato. No segundo terço do campeonato, Rindt emendou quatro vitórias seguidas e disparou na liderança.

Tragédia em Monza ceifou precocemente vida de Jochen Rindt em 1970 (Foto: Forix)

Àquela época, a vitória rendia 9 pontos ao vencedor. O austríaco venceu os GPs de Mônaco, Holanda, França, Inglaterra e Alemanha. Por isso, em uma temporada que venceu ou não pontuou, Rindt desembarcou na Lombardia com 45 tentos somados em nove corridas disputadas.

Na segunda parte do campeonato, porém, quem começou a despontar foi a Ferrari de Ickx. Após um péssimo início de campeonato, o belga obteve três pódios em cinco corridas: terceiro na Holanda, segundo na Alemanha e a vitória na Áustria. Com isso, o ferrarista chegou junto na briga pelo vice-campeonato e sonhava com uma virada em cima de Rindt.

Durante os treinos de sexta-feira, Ickx foi o primeiro, com Clay Regazzoni e Ignacio Giunti colocando as outras duas Ferrari 312B nas três primeiras posições do grid. A Lotus não tinha bom rendimento, e Rindt foi apenas sexto com a Lotus 72C. Descontente com o carro, Jochen queria guiar o modelo antigo, o Lotus 49. Também naquele dia, Emerson Fittipaldi escapou na entrada da Parabólica e foi parar no meio das árvores do Parque de Monza: milagrosamente, o brasileiro nada sofreu.

Colin Chapman decidiu então trocar o motor de Rindt, e o austríaco tomou uma temerária decisão: pediu à equipe para arrancar as asas dianteiras do carro. A ideia era aproveitar as retas de Monza, e o piloto assumiu o risco para segurar o carro nas curvas. John Miles e Fittipaldi acharam a ideia de Rindt ‘coisa de louco’ — e mantiveram as asas em seus bólidos.

Veio, então, o trágico sábado. Rindt tentou de todo modo tomar a pole de Ickx. Na reta que antecede a Parabólica, o austríaco passou a McLaren de Hulme, mas os freios da Lotus falharam. Justamente no mesmo lugar onde Fittipaldi bateu na véspera.

Em um lance de trágico azar, Rindt bate o carro não no guard-rail, mas no pilar de concreto que sustentava as lâminas de metal. Vem aí outro fator determinante. O austríaco não gostava do cinto de segurança apertado porque alegava que, em caso de batida e incêndio no carro — algo comum naquela época — poderia sair com mais rapidez. Por isso, abriu mão de usar a parte do cinto junto à cintura e virilha.

Só que, com o impacto da forte batida frontal, seu corpo foi projetado para frente e para baixo no cockpit, e a traqueia do piloto foi cortada pela parte frontal do cinto superior. Para completar a tragédia, não havia helicóptero no circuito, e Rindt foi levado de ambulância para Milão, 40 km distante de Monza. Retirado vivo do carro, chegou morto ao hospital.

Ickx obteve a pole com facilidade, cravando 1min24s140, 0s220 à frente do mexicano Pedro Rodríguez, da BRM. Mas o clima de competição do GP da Itália havia desaparecido por conta da morte de Rindt. Era o terceiro piloto da F1 a morrer naquela temporada, junto com Bruce McLaren e Piers Courage. Colin Chapman retirou seus carros da corrida. Eram anos trágicos e de pouca segurança.

O belga mantém a ponta após a largada, mas a transmissão da Ferrari quebrou na volta 25. Com isso, Regazzoni assumiu a ponta e venceu após outras 43 voltas. Foi a última vez que a corrida italiana teria 68 voltas. A multidão invadiu a pista para comemorar a primeira vitória de Regazzoni.

Os abandonos de Ickx e Brabham, aliados ao segundo lugar de Stewart, praticamente decidiram o campeonato. Rindt tinha 20 pontos de vantagem para os vice-líderes, e faltavam apenas as três provas na América do Norte para o fim do campeonato. Ickx venceria no Canadá e no México, mas o quarto lugar nos Estados Unidos, culminando com a vitória marcante de Emerson Fittipaldi em Watkins Glen — a primeira da sua carreira na F1 — terminou com as pretensões de título do belga.

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