Na Garagem: Schumacher faz GP da Espanha de almanaque e vence primeira pela Ferrari

Então bicampeão mundial, Michael Schumacher travou na largada, recuperou em chuva torrencial e venceu em dia inspirado

Castroneves sobe nas grades de Indianápolis (Vídeo: Indycar)

Ainda no meio do campeonato de 1995, a Ferrari e Michael Schumacher se juntaram para o anúncio bastante esperado de que o maior piloto da Fórmula 1, campeão em 1994 e que comandava o Mundial daquele ano rumo ao bi, daria o salto da Benetton para a equipe italiana no ano seguinte. Era a cartada de um grupo diretor liderado por Jean Todt e que esperava levar a Ferrari de volta ao título de Pilotos, perdido desde o fim dos anos 1970. Apesar da história daquela segunda metade da década de 1990 ter sido bem diferente do começo dos anos 2000, aquele domingo de junho de 1996 mostrou que a contratação fora correta.

Logo de cara naquele 1996 ficou evidente que a Williams era a dona de uma vantagem bastante relevante. Damon Hill ganhou as primeiras três corridas, duas vezes com o novato companheiro Jacques Villeneuve conferindo uma dobradinha, enquanto Schumacher tinha dificuldades de terminar as provas. Após dois pódios seguidos, o alemão errou na chuva em Mônaco, numa das provas mais esquisitas de todos os tempos, e abandonou logo no começo. O GP da Espanha, na Catalunha, era a sétima das 16 etapas do calendário – e Michael aparecia 27 pontos atrás de Hill numa época em que o vencedor levava dez pontos.

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Já se sabia, na chegada a Barcelona, que a Williams seria campeã mundial. Se desse tudo errado para Hill, Villeneuve viria salvá-lo. A Ferrari ficaria na mão uma vez mais. Assim como duas semanas antes, no Principado, tempo fechado. Schumacher classificou em terceiro, atrás dos dois rivais, mas o domingo era de chuva torrencial.

Era o dia de de redimir por Mônaco? A sorte não estava lá. Na hora em que as luzes se apagaram, a Ferrari #1 ficou praticamente parada no colchete. Uma largada desastrosa que Michael empurrou para um certo problema na embreagem – que o alemão já tinha apontado como culpado em Monte Carlo – que custou preciosos segundos e jogou Michael varias posições para trás. Mas a sorte resolveu colocar uma pimenta, ao menos auxiliar com pequena mágica: evitou que alguém batesse na traseira do carro vermelho.

A sorte de uns naturalmente se compensa em outro lado. No desdobramentos da falta de visibilidade causada pelo spray da chuva na pista e mais um carro praticamente parado, cinco pilotos acabaram se encontrando: David Coulthard, Oliver Panis, Giancarlo Fisichella, Pedro Lamy e Ricardo Rosset. No fim da primeira volta, mesmo com a embreagem travada, Schumacher aparecia em quinto e tirando tempo.

Ainda no começo da segunda volta, o dono da outra Ferrari, Eddie Irvine, rodou sozinho e ficou na brita. Na terceira volta, então, foi a vez do líder do campeonato: Hill perdera a dianteira logo na largada e vinha em segundo, mas errou, saiu da pista e voltou com os pneus sujos e posições perdidas. Schumacher já era o terceiro. A corrida de Hill seria desastrosa: até a décima volta, rodou duas outras vezes, abandonando de vez. “Fiquei até aliviado, estava perigoso demais”, afirmou.

Michael Schumacher venceu o GP da Espanha de 1996 (Foto: Pinterest)

Schumacher andava de maneira espantosa e tirava 2s por volta de Villeneuve e Jean Alesi, que assumira sua vaga na Benetton. Era evidente que, salvo algum erro, o bicampeão tomaria os primeiros lugares em alguns instantes. A chuva seguia castigando Barcelona. Quem fazia corrida elogiável era Rubens Barrichello, mostrando os famosos predicados em pista molhada: já colocava a Jordan na quinta colocação após dez das 65 voltas.

Antes do fim daquela volta, Schumacher cansaria de negociar com o rival canadense: mergulhou, ultrapassou e, enquanto a transmissão de TV mostrava Damon Hill voltando a pé para o pit-lane, Michael começava a abrir da outra Williams: nas duas voltas seguintes, foi, respectivamente 2s e 4s mais veloz que Villeneuve. Rapidamente, o dono do #1 andava absolutamente sozinho na pista catalã e só melhorava os tempos: tinha 6s6 de frente.

Os abandonos continuavam: além dos já indicados, Ukyo Katayama teve pane elétrica, Martin Brundle encostou a Jordan na saída do pit-lane com problema no diferencial e Johnny Herbert rodou e parou. E ainda tinha Mika Salo, desclassificado na volta 16 por ter trocado de carro antes da largada quando já não era permitido. Isso tudo até a volta 20! Com menos de 1/3 da corrida, apenas nove carros seguiam na corrida. Destes, Jos Verstappen e Pedro Paulo Diniz já tinham dado breve passeio na brita e se recuperado.

Schumacher tinha a corrida na mão e parou logo de cara nos boxes, ainda começo da janela, para mesmo assim voltar na frente e com boa distância. Mas Barrichello fez outro esquema e foi ficando na pista enquanto Villeneuve, Alesi e Berger pararam. O brasileiro assumiu o segundo lugar e fazia corrida impecável. Mesmo após 40 voltas na pista, ainda beirava os 2s5 mais rápido que o terceiro colocado, Alesi – o rival alemão aparecia mais de 1min na frente, seguro até para fazer o segundo pit-stop. Barrichello parou logo depois e voltou em quarto, colado em Villeneuve. Pelo ritmo que mostrava, não era impossível imaginar que passaria.

Michael Schumacher venceu o GP da Espanha de 1996 (Foto: Pinterest)

Duas voltas depois, entretanto, voltou ao pit-lane e abandonou. Também tinha problema na embreagem. A Jordan tentou colocar Barrichello na pista de novo depois de algumas voltas, à espera de que um abandono de outro piloto desse a ele a chance de pontuar mesmo aos trancos e barrancos. Mas a segunda tentativa durou apenas alguns metros e parou com o carro encostado no gramado.

Pouco antes de Rubens, Berger rodara e abandonara, ao passo que Verstappen fez o mesmo instantes depois. Com 18 voltas para o fim, apenas seis carros resistiam e Pedro Paulo Diniz, piloto brasileiro da Ligier, ficava com o sexto lugar e se aproximava do primeiro ponto dele no Mundial. Nas voltas finais, Diniz diminuiu drasticamente um rimo que já não era excelente antes e terminou duas voltas atrás de Schumacher. Mas, sem acidentes, garantiu o ponto solitário para a equipe francesa.

Daí em diante, foi questão de Schumacher seguir abrindo e terminar uma enormidade de tempo à frente dos demais – mesmo com um pit-stop a mais e um problema de cilindros que acusou na entrevista posterior. Michael Schumacher completou as 65 voltas do GP da Espanha perto do limite, em 1h59min49s, num dia em que guiou como se pintasse uma obra-prima. Há quem veja aquele dia como o melhor de sua carreira. A Ferrari tinha nas mãos o piloto que queria.

Michael Schumacher venceu o GP da Espanha de 1996 (Foto: Pinterest)

“Eu realmente não achava que fosse ganhar hoje, isso é ótimo, que grande dia, porque merecemos e temos mérito nesse triunfo pelo trabalho de todos nós”, disse.

“Tirando um problema no meio da corrida, quando o carro começou a apagar um ou dois cilindros, o carro estava muito bom no molhado. Isso confirma que precisamos trabalhar duro para entender os problemas que o carro tem. Aqui, não éramos competitivos no seco, mas fomos dominantes no molhado, enquanto em Mônaco foi exatamente o contrário”, afirmou.

“Temos muito a fazer, mas, no momento, quero tirar prazer dessa vitória, que gostaria de dedicar a toda equipe”, finalizou.

Michael Schumacher venceu o GP da Espanha de 1996 (Foto: Pinterest)

Jean Alesi e Jacques Villeneuve completaram o pódio, respectivamente para Benneton e Williams. Heinz-Harald Frentzen (Sauber), Mika Häkkinen (McLaren) e Pedro Paulo Diniz (Ligier) completaram os pontos.

Apesar de sair de Barcelona empatado com Villeneuve na vice-liderança do campeonato – 26 pontos cada – e 17 atrás de Hill, Michael veria o rival inglês ganhar três das quatro corridas seguintes e sumir para se tornar campeão mundial de 1996. No ano seguinte, já sem Hill, foi o próprio Villeneuve quem teve de superar Schumacher para manter o título na Williams. Aí, então, veio a McLaren de 1998, forte o bastante com Häkkinen para bater os rossos. Em 1999, Schumacher quebrou a perna e, fora do campeonato por sete etapas, sequer lutou pelo título – mas, com o companheiro Irvine apenas um ponto atrás de Häkkinen, é justo pensar que tinha chances consideráveis de tirar o time italiano da fila.

O título viria apenas em 2000. Finalmente, após quatro derrotas seguidas de Schumacher e uma agonia ferrarista que datava desde 1979, a Ferrari era campeã do Mundial de Pilotos. E, claro, emendaria cinco títulos seguidos. O primeiro passo foi naquela tarde chuvosa na Catalunha, em 2 de junho de 1996.

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