Opinião GP: Mercedes prova do próprio veneno e põe Red Bull como força a ser batida

O GP da França deve marcar um ponto de virada no campeonato: em uma corrida que parecia ao gosto da Mercedes, a Red Bull soube reagir e usou o feitiço contra o feiticeiro quando adotou uma estratégia bem semelhante a que os alemães tiveram na Espanha. E mais importante, conseguiram provar que estão melhores, sim, na Fórmula 1 2021

Verstappen arrisca na estratégia e bate Hamilton: os melhores momentos do GP da França (GRANDE PRÊMIO com Reuters)

Logo depois da classificação de sábado, Christian Horner foi aos microfones para dizer que “se a Red Bull vencesse em Paul Ricard, então poderia ganhar em qualquer outro circuito do calendário”, dado o histórico vitorioso da Mercedes no piso francês. A declaração do chefe dos taurinos, empolgada e impulsionada pelo desempenho sólido de Max Verstappen na parte final do Q3, soou como uma provocação, mas também pode ser encarada agora como uma intrigante profecia. Bem, a equipe dos energéticos venceu o GP da França e abriu uma vantagem considerável para a Mercedes em ambos os campeonatos. E o triunfo foi construído em cima de uma melhor leitura do que acontecia na pista, mas também na base do ritmo de corrida. Os homens de preto caíram numa armadilha, é verdade, mas uma coisa ficou evidente: algo não está encaixado como deveria na esquadra de Brackley.

A Mercedes queria voltar a um traçado convencional para recuperar o que havia ficado em Barcelona – quando ganhou e deu a impressão de ter retomado as rédeas de si e da disputa. E de fato, até poderia ter vencido neste domingo. Só que Paul Ricard acabou sendo mais complexo. É correto afirmar que, na corrida, o desempenho foi forte quase que o tempo todo. O problema é que a rival austríaca foi melhor. Foi mais inteligente do ponto de vista da estratégia e superior no que se refere à configuração do carro – com pouco downforce e uma nova versão do motor Honda, o RB16B voou nas retas e impressionou nos trechos seletivos. Tanto é verdade que Verstappen registrou a segunda maior velocidade da prova em 337 km/h, contra 320.7 km/h de Hamilton – último colocado nesse quesito. O inglês, inclusive, citou essa vantagem logo após a definição da pole. “Eles têm uma velocidade incrível”, disse.

Será que os atuais campeões perderam uma chance ao não optar por um acerto mais extremo? Pode até ser, mas o fato é que a Red Bull leu melhor o cenário como um todo porque tem um carro que permite isso – esse, sim, talvez seja o ponto mais interessante aqui. Também é curioso notar que o pit-wall dos taurinos começou a entender de forma mais clara a corrida depois que Verstappen se viu atrás de Hamilton, após o erro ainda nos metros iniciais.

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Lewis Hamilton viu a Red Bull se vingar, aplicar um ‘undercut’, e levar para a casa a vitória no GP da França (Foto: Mercedes)

Enquanto o heptacampeão seguia firme à frente, poupando pneus e muito consistente, Max tentava acompanhar, tendo Valtteri Bottas no encalço. Foi assim até a janela de pit-stops. A Mercedes decidiu chamar o finlandês antes, numa aposta de mandá-lo à frente do holandês – a diferença de quase de 3s conferia alguma certeza. Acontece que os energéticos responderam rápido e acionaram Max imediatamente. A parada mais veloz manteve Verstappen à frente. Então, o que fez a equipe da estrela? Convocou Hamilton, como uma resposta à Red Bull, mas o inglês tinha bom rendimento e estava cuidando dos compostos médios que largara. Ainda assim, teve de ir aos boxes.

Pouco antes das paradas, Hamilton sustentava uma diferença acima de 3s para Verstappen, em tese, uma distância que permitira o pit-stop seguro. Mas não foi o que aconteceu. O holandês conseguiu o undercut, e isso surpreendeu a Mercedes. Mais tarde, veio a explicação, o líder do campeonato havia sido 0s6 mais veloz na volta de saída dos boxes. O tempo de Max foi de 1min58s099, contra 1min58s684 de Lewis.

Mas por que isso aconteceu? Essa é uma questão que a Mercedes ainda não tem uma resposta. Também é parte do problema.

Só que isso foi apenas o começo. No stint seguinte, Verstappen compreendeu rapidamente que seria difícil levar o carro até o fim com aquele jogo de compostos duros. Hamilton chegou a entender da mesma forma, mas confiou em seu poder de cuidar da borracha. Diante desse impasse, a Red Bull pensou rápido e chamou Max para uma segunda visita aos boxes – e aqui a sacada foi mesmo o momento desse pit, que fez com que o dono do carro #33 voltasse ainda com tempo de pegar o rival – cerca de 20 giros. Acho que já vimos esse filme, não?

O pit-stop de Valtteri Bottas acabou gerando uma série decisões equivocadas da Mercedes (Foto: Mercedes)

“A Mercedes nos pressionou após o pit-stop. Nós achamos que a estratégia deles incluía duas paradas. Naquele momento, nosso estrategista propôs a possibilidade de antecipar um possível segundo pit da parte deles, e decidimos tentar”, revelou Horner após a prova.

Foi lá em Barcelona que a Mercedes teve essa mesma ideia. Enquanto Verstappen seguia à frente tentando lidar com os pneus, Hamilton parou e voltou muito rápido. Max se tornou uma presa fácil e foi ultrapassado sem dó. Em Paul Ricard, foi apenas um pouco mais dramático, porque o filho de Jos precisou driblar mais carros e superar não só o companheiro de equipe, como também Bottas, além do próprio Hamilton. Por isso, a manobra derradeira veio somente na penúltima passagem. Era a Mercedes provando do próprio veneno.

No fim das contas, a decisão de antecipar a primeira parada do nórdico desencadeou toda uma sequência de movimentos equivocados da Mercedes. “Na realidade, o pit-stop de Valtteri acionou os pit-stops de quem estava na frente, e foi isso que nos levou a ter de fazer um longo stint com Lewis”, admitiu Andrew Shovlin, engenheiro de pista da equipe da estrela.

“Pensamos que, como tínhamos pouco mais de três segundos para Max, estávamos a salvo e não foi esse o caso. Mesmo agora, não entendemos totalmente por que nossos modelos estavam nos dizendo que estaríamos bem. Então, claramente, há algo que precisamos descobrir e entender”, completou.

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Mais uma vez, e no mesmo fim de semana, a Red Bull subverteu a lógica para pegar a adversária. Enquanto os energéticos confiaram em seu melhor rendimento, acerto e nas lições tomadas neste ano, a Mercedes largou Hamilton refém da estratégia rival. Bottas poderia ter feito a diferença, mas, de novo, foi errático e apático, em que pese as queixas no rádio. Portanto, há algo que não encaixa mais como antes na Mercedes.

Nos últimos tempos, a esquadra conseguiu mascarar certos erros por conta de um domínio técnico e, claro, da genialidade de Hamilton, que segue intacta. Mas a marca da estrela precisa também aceitar seus demônios e aprender a lidar com eles, porque agora existe uma adversária sólida e aguerrida, aproveitando cada vacilo. E que, neste momento, tem um conjunto mais forte e melhor azeitado. É o time a ser batido, muito por culpa da própria Mercedes.

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