Retrospectiva 2019: Excelente, Mercedes dá lição e se põe de novo imbatível

A Mercedes foi capaz de ir além em 2019. Ainda que domine a Fórmula 1 desde 2014, na introdução da era híbrida, a equipe alemã jamais descansou. Reage rápido quando ameaçada, seja por adversários, seja por si mesma, e nunca dá chance. Com um comando firme e um gênio no carro, a dinastia prata parece não ter fim

RETROSPECTIVA F1 2019
_F1 vive duas temporadas em uma, irrita e diverte ao mesmo tempo

_Hamilton vive ano irretocável com hexa e atos de grandeza

Perfeição, excelência, competência. Não há predicados suficientes para o que a Mercedes faz e é na Fórmula 1 nesta era híbrida. Talvez apenas a Ferrari dos vitoriosos anos 2000 possa ser colocada com algum pé de igualdade ou comparação. Isso porque a trupe liderada por Jean Todt e Michael Schumacher falharam na conquista do Mundial de Pilotos em sua fase dominante, além de jamais terem permitido uma disputa aberta e interna entre seus comandados, sem contar no tempo de história de Maranello. A Mercedes, por sua vez, nunca deu chances a ninguém, arrebatou todos os títulos que pode, enfrentou uma rivalidade doméstica e, raramente, se colocou em posição de ser questionada. A equipe funciona como um relógio muito bem acertado e tem três pilares sólidos: o chefão centralizador, Toto Wolff, o engenheiro e diretor-técnico, James Allison, e o gênio Lewis Hamilton. É a tal “combinação perfeita” que o hexacampeão definiu como sendo o grande segredo da esquadra que mais ganha na F1. Mas há mais pequenos segredos que explicam a razão pela qual a equipe caminha para se tornar a maior de todas, depois da temporada mais forte de sua trajetória.

A Mercedes conquistou o título mundial de construtores pela sexta vez consecutiva (Foto: Mercedes)
Mesmo com tão pouco tempo de vida na maior das categorias – nesta fase moderna, está desde 2010 –, a Mercedes já estabelece um padrão altíssimo de performance, conquistas e números. E 2019 foi especial para os prateados. A equipe venceu as oito primeiras etapas da temporada, com direito a cinco dobradinhas – ninguém na história havia alcançado essa marca antes. Ao longo do ano, foram 15 vitórias e dez poles em um campeonato com 21 etapas. Hamilton completou todas as voltas de todas as corridas do ano, com pouquíssimos erros. É impressionante.
 
Grande parte do sucesso neste ano também se deve à capacidade de mudar e arriscar na medida certa. A Mercedes teve o melhor carro da temporada – em média, era 0s1 mais rápida que a Ferrari e 0s3 que a Red Bull, as principais rivais. A verdade é que o time deu um passo diferente quanto à concepção de seu W10. É bem verdade que os engenheiros e pilotos demoraram para entender o novo carro, mas, quando o fizeram, se tornaram quase imbatíveis.
 
A confiabilidade e a força do motor ainda estavam lá, mas agora o modelo se tornava também muito bom em curvas de média e baixa velocidade, trabalhando melhor o downforce, algo novo para a Mercedes. Todo o pacote aerodinâmico também ajudou a compreender o comportamento dos diferentes pneus da Pirelli. Ou seja, a receita para o sucesso estava pronta. E a esquadra aproveitou.
 
A performance foi resultado também de um esforço enorme feito na fábrica, onde foi implantado um sistema de turnos de trabalho de 24 horas, o que criou uma estrutura difícil de bater. Os resultados falaram por si. Nem mesmo a perda de Niki Lauda, uma das fortalezas de grupo, fez a equipe desviar de seu caminho. Pelo contrário. 
 
É claro que, sendo Hamilton quem é, o desempenho vem quase que naturalmente, por isso também houve ocasiões em que a Mercedes venceu por conta da sensibilidade de sua estrela maior, como no México ou em Mônaco. Outra vezes, a equipe soube aproveitar os vacilos das duas concorrentes. São lições que a marca segue dando na concorrência.
 
Campeonato de três atos
A largada do GP da Austrália (Foto: Mercedes)
A temporada mais forte e competitiva da Mercedes começou com uma curiosa dobradinha Valtteri Bottas-Hamilton. O finlandês largou melhor e tratou de disparar na frente, não dando chance ao inglês. Naquele momento, ficou também a esperança de que o nórdico poderia endurecer a briga com o companheiro de equipe. Pena que não se confirmou. Aliás, a primeira corrida do ano, ainda que tenha sido realizada em uma pista muito particular, apresentou alguns aspectos do campeonato que se revelariam verdade mais para frente, como os problemas ferraristas e a ascensão da Red Bull – Max Verstappen, inclusive, foi ao pódio naquela corrida. Além é, claro, do poder de fogo da Mercedes.
 
O Bahrein, segunda etapa do calendário, foi uma daquelas provas em que Hamilton e a Mercedes tiraram proveito das mazelas da Ferrari, na falha de motor do carro de Charles Leclerc, e no erro de pilotagem de Sebastian Vettel. Depois disso, a equipe enfileirou triunfos. Alguns sem drama, como na China, no Azerbaijão e na Espanha, mas alguns como uma dose emoção, como Mônaco, quando Hamilton precisou cuidar bem dos pneus para segurar o ímpeto de Verstappen, ou no Canadá. Lewis pressionava Vettel pela ponta, quando alemão passou reto em uma chicane. Os comissários puniram o tetracampeão, o que fez Hamilton herdar a vitória. Aí veio a vitória no terrível GP da França e nova conquista.
 
De fato, a Mercedes nadava de braçada, com um motor confiável e um carro consistente, ditando o ritmo em trechos de baixa velocidade. Neste tempo, a Ferrari mergulhava em uma série de problemas técnicos, inclusive, pneus, mas principalmente de gerenciamento. E era alvo de críticas severas da imprensa, especialmente na Itália. A Red Bull, por outro lado, trabalhava quieta, tendo em Verstappen sua constante. 
Charles Leclerc e Max Verstappen (Foto: Reprodução)
O trabalho dos austríacos foi recompensando com uma excelente vitória na Áustria – corrida de tirar o fôlego e que marcou o início de uma sequência de grandes corridas. Enquanto isso, a equipe prata enfrentava o primeiro grande entrave do ano: as altas temperaturas. A altitude de quase 700 m acima do nível do mar e o calor excessivo comprometeram demais o trabalho do motor alemão. Com isso, enquanto o público vibrava com o pega entre Verstappen e Leclerc, Hamilton e Bottas minimizam o prejuízo. Apenas o finlandês foi ao pódio. A etapa austríaca, então, revelou o ponto mais fraco desse conjunto que parecia absoluto: sim, a Mercedes tinha seu calcanhar de Aquiles. Mas como é de costume também, a equipe reagiu rápido ao revés, trabalhou em atualizações e foi a Inglaterra decidida a retomar a sequência vitoriosa. E conseguiu. Hamilton fez uma corrida brilhante, adotando uma estratégia ousada para neutralizar o companheiro de equipe, que havia lhe roubado a pole no dia anterior.
 
A Alemanha veio logo em seguida. Hamilton não deu chances e saiu da pole em um domingo chuvoso em Hockenheim. Mas o caos se instaurou na pista e, pela primeira vez em muito tempo, a Fórmula 1 viu a Mercedes se atrapalhar toda, errar na escolha de pneus e pôr tudo a perder. O corre-corre no pit-lane foi uma comédia. Mais que isso, a corrida alemã ainda testemunhou um raríssimo erro de Hamilton, ainda mais com chuva. Foi um desastre completo em plena comemoração dos 125 anos de automobilismo da marca. O vexame foi grande e reforçado pelo abandono de Bottas e a apenas nona posição de Hamilton.
 
Na sequência, a F1 viajou para Budapeste, na Hungria. Era a última corrida antes da pausa das férias. Com o orgulho ferido, a Mercedes chegou a Hungaroring com a meta de encerrar a primeira parte do ano da maneira como começou. Ou seja, vencendo. Mas não foi tão fácil assim, ainda que o traçado húngaro tenha caído como uma luva ao W10. Acontece que um tal de Verstappen, de novo, se pôs no caminho. E não era por acaso. Saindo da pole, o holandês se pôs forte e obrigou a equipe prata a tomar uma atitude. O estrategista viu uma oportunidade, parou Hamilton mais uma vez e o fez retornar mais rápida à pista. Lewis voou, chegou em Max, passou e venceu, saindo de férias com o título praticamente encaminhado.
O pódio do GP da Bélgica (Foto: Mercedes)
A segunda parte da temporada foi um pouco mais difícil para a Mercedes, mas nada que a tirasse da zona de conforto. A Ferrari acertou a mão nas atualizações aerodinâmicas após as férias, além de, enfim, tirar proveito do motorzão que construiu. Foram três vitórias entre Bélgica e Singapura – duas com Leclerc e uma com Vettel. E a marca da estrela? Embora não tenha tido condição de igualar a Ferrari em termos de força do motor e velocidade de reta, a esquadra não se deu por vencida, foi ao pódio e atormentou os pilotos de vermelho.
 
Mais tarde, tudo voltaria ao normal. Hamilton venceu na Rússia e Bottas no Japão, em uma corrida estratégica que garantiu o sexto título do Mundial de Construtores à marca. Lewis asseguraria o de Pilotos duas semanas depois, em Austin, na corrida que teve vitória do colega finlandês. Antes de dominar o GP de Abu Dhabi com o inglês, a Mercedes ainda viu uma enorme performance de Hamilton no México, em que o #44 deu lições de como cuidar dos pneus.
 
É bem verdade que a parte final da temporada foi marcada pelos erros de estratégia da Mercedes no Brasil e pelo equívoco do hexacampeão na dividida com Alex Albon, mas também certo dizer que esses pequenos deslizes não mancham em nada a impecável temporada dos prateados, que não dão pinta de querer parar de vencer tão cedo.

Azar dos rivais.

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