Retrospectiva 2019: Hamilton vive ano irretocável com hexa e atos de grandeza

A versão 2019 de Lewis Hamilton é vitoriosa não somente dentro das pistas. Além de ter dado mais um passo rumo ao objetivo de ser o maior piloto de todos os tempos, o hexacampeão mundial de Fórmula 1 se notabilizou também pelos seus posicionamentos fora do carro. Voz ativa contra o racismo e por um mundo mais sustentável, Hamilton é o homem do ano por entender o tamanho que tem e fazer uso disso para ajudar a tornar a sociedade como um todo um pouco melhor

RETROSPECTIVA F1 2019
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Como toda boa retrospectiva, é preciso voltar alguns bons meses no tempo, especificamente no início de março, para lembrar como Lewis Hamilton abordava o começo da temporada 2019: “Parece ser o ano mais difícil de todos”. A fala em tons alarmistas era toda carregada de expectativa por conta do desempenho da Mercedes nos testes de pré-temporada, em Barcelona, onde a escuderia prateada foi superada por uma Ferrari que tinha ares de superioridade e mostrava ser, finalmente, uma real concorrente na luta pelo título do campeonato.
 
Fora das pistas, Hamilton era a grande estrela da Fórmula 1. Embaixador informal do esporte, o então pentacampeão se notabilizava por ser um grande astro do showbiz. Amigo de celebridades e atletas famosos, como o brasileiro Neymar, Lewis também era figura frequente de eventos grandiosos de moda e capas de revista das mais importantes publicações de lifestyle do planeta. Com 34 nos recém-completados, o britânico chegou a um estágio da vida em que mostrou real amadurecimento em todos os aspectos. Amadurecimento que levou Hamilton a um outro patamar em razão da sua personalidade.
 
Em termos esportivos, Lewis já ostentava um cartel de enorme respeito: cinco títulos mundiais — empatado com Juan Manuel Fangio —, 73 vitórias, 83 poles e 132 largadas na primeira fila ao longo de 12 temporadas. À frente do britânico, somente um nome: Michael Schumacher. No auge da sua carreira, Hamilton tinha todos os elementos para pavimentar mais um passo rumo ao trono de maior da história, mas, por outro lado, também tinha a certeza que teria sua missão dificultada pela escuderia de Maranello.
Lewis Hamilton foi o homem do ano na Fórmula 1 (Foto: AFP)
Só que a teórica superioridade da Ferrari caiu por terra tão logo o jogo começou pra valer. Na primeira classificação do ano, Hamilton cravou a pole-position do GP da Austrália, enquanto Valtteri Bottas foi o segundo. Sebastian Vettel marcou o terceiro tempo. Mas o tetracampeão terminou o Q3 com enormes 0s704 de desvantagem para Lewis. Melbourne tratou de evidenciar que 2019 seria mais um ano tendo o prata como a cor mais quente.
 
Só que a mesma Melbourne que tratou de sepultar as esperanças dos fãs, ávidos por uma batalha entre Mercedes e Ferrari, reservou uma grande surpresa: a atuação impecável de Bottas. O finlandês assumiu a liderança da corrida na largada e jamais foi ameaçado por Hamilton, venceu com larga vantagem e ainda foi o primeiro piloto a fazer uso da novidade da F1 para 2019 ao marcar o ponto extra com a melhor volta da prova. Um início que nem o maior fã de Valtteri esperava.
 
O início da temporada foi sublime para a Mercedes, com nada menos que cinco dobradinhas consecutivas. Hamilton triunfou no ótimo GP do Bahrein e no 1000º GP da história da F1, realizado na China. O jogo foi favorável a Bottas até o GP do Azerbaijão. Com duas vitórias e dois segundos lugares em quatro corridas, os mesmos resultados que Hamilton ostentava, o nórdico era o líder do campeonato justamente por um ponto, o ponto extra que somou em março na Austrália.
 
Mas Hamilton começou a ganhar o hexa a partir do GP da Espanha. Foram quatro vitórias em sequência: além de Barcelona, Mônaco, Canadá — onde viu Vettel vencer na pista, mas perder o triunfo e protagonizar uma das cenas do ano — e o insosso GP da França. A ‘gordura’ acumulada neste período foi fundamental para Lewis abrir enorme vantagem e não ser mais superado no campeonato. Ao mesmo tempo, Bottas voltava a ser o irregular Bottas ao alternar corridas boas com outras apenas medianas.
Hamilton abriu 2019 sendo superado por Bottas na Austrália (Foto: Mercedes)
Outro grande momento da trajetória de Hamilton em 2019 foi a chance de vencer em casa, diante da enorme multidão britânica, em Silverstone. O triunfo no excelente GP da Inglaterra, com direito a grande duelo roda a roda com Bottas, fez de Lewis o maior vencedor da história da prova, deixando para trás os lendários Jim Clark e Alain Prost.
 
Duas semanas depois de alcançar a glória em Silverstone, Hamilton cravou a pole-position do GP da Alemanha. Estava tudo montado para ser uma grande festa para a Mercedes, que comemorava 125 anos de envolvimento com o esporte a motor. Em Hockenheim, a equipe prateada adotou um layout diferente para o carro, com muitos detalhes da pintura em branco, e até mesmo a indumentária dos funcionários caracterizava o fim dos anos 1980. A festa durou até sábado…
 
Verstappen alcançou sua segunda vitória no ano, enquanto Hamilton cruzou a linha de chegada em 11º. Entretanto, uma punição imposta à dupla da Alfa Romeo fez com que o britânico somasse 2 pontos na Alemanha. Foi seu pior resultado do ano.
 
Uma semana depois, a F1 viu um duelo de gerações baseado na tática. Verstappen conquistou sua primeira pole-position na carreira e despontava como favorita, com Hamilton vindo em segundo lugar. Mas a Mercedes reagiu bem ao revés de Hockenheim e aplicou um nó tático na Red Bull ao adotar uma inesperada segunda parada para Lewis. Com pneus mais rápidos e em melhor estado, mesmo com um pit-stop a mais, Hamilton partiu para cima do holandês e, com quatro voltas para o fim, alcançou a liderança para conquistar uma das grandes vitórias da temporada.
 
A tabela do Mundial de Pilotos apontava 250 pontos para Hamilton contra 188 de Bottas e 181 de Verstappen. A Ferrari, com uma temporada muito ruim, tinha Sebastian Vettel como melhor posicionado, em quarto lugar com 156 tentos. Assim, com 62 de vantagem para Bottas, seu adversário mais direto, estava claro que o hexa era tão somente uma questão de tempo.
Um dos raros erros cometidos por Hamilton em 2019 (Foto: AFP)
Na volta das férias, Hamilton tratou de somar pontos importantes no melhor momento da Ferrari no ano, com as vitórias de Leclerc na Bélgica e Itália e com o triunfo de Vettel em Singapura. A reação da Mercedes veio na pista que é absolutamente um feudo prateado, Sóchi. Lewis venceu e marcou a volta mais rápida do GP da Rússia, com Bottas terminando em segundo. O finlandês deu o troco com uma grande vitória em Suzuka e viajou para o México com esperanças de adiar ao máximo o hexa do companheiro de equipe.
 
Hamilton conquistou outra grande vitória na temporada diante dos fãs no Hermanos Rodríguez, mas como Bottas cruzou a linha de chegada em terceiro, a decisão do título ficou para Austin, nos Estados Unidos. Lá, a estrela do britânico brilhou mesmo sem ter conquistado uma vitória na pista, que acabou ficando com Bottas. A segunda colocação foi o que bastou para Lewis comemorar o hexacampeonato mundial de F1.
 
Em Interlagos, Hamilton ficou longe de ser protagonista. O grande nome do GP do Brasil, com direito a pole e uma vitória dominante, foi Verstappen. Mas Lewis ficou perto de subir ao pódio, mas cometeu outro raro erro ao acertar a Red Bull de Alexander Albon e tirar do anglo-tailandês a chance de marcar seu melhor resultado na carreira. Depois de travar maravilhoso duelo roda a roda até a bandeirada final com Pierre Gasly e terminar em terceiro, Hamilton acabou sendo punido em 5s no seu tempo de corrida e caiu para sétimo, proporcionando assim o primeiro pódio de Carlos Sainz na F1.
 
Mas a atuação no Brasil logo foi suplantada por uma performance incontestável em Abu Dhabi. Pole com sobras — depois de quebrar uma rara seca que durava desde o GP da Alemanha —, Hamilton liderou todas as voltas, venceu e ainda marcou a volta mais rápida da corrida, alcançando assim seu sexto grand-chelem na F1.
A um passo de Schumacher: Hamilton confirmou o hexa em Austin (Foto: Mercedes)
Hexacampeão, Hamilton encerrou o ano com 11 triunfos, 5 poles, e 17 top-3, ampliando assim seu cartel para 84 vitórias, 88 poles e 151 pódios. Restam apenas sete vitórias para Lewis alcançar Schumacher como o maior vencedor da história. Com a supremacia da Mercedes perante as rivais e a manutenção das regras para 2020, parece mesmo ser questão de tempo para Lewis Hamilton ser coroado como o maior de todos na F1. 
 
Mas se o piloto brilhou com um ano quase impecável, fora das pistas Lewis Hamilton se mostrou ainda mais importante ao chamar a atenção para temas merecedores de toda a atenção por parte de uma sociedade civilizada.
 
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Voz ativa contra o racismo e por um mundo mais sustentável
 
Em um meio predominado por brancos em todos os aspectos, Lewis Hamilton sobressaiu ao entender o tamanho que tem como grande símbolo e embaixador do esporte a motor. Única voz da F1 a se erguer para falar de temas como o racismo, o piloto assumiu um posicionamento que ainda é, infelizmente, raro para atletas de alto nível e grande sucesso na carreira.
 
No fim de semana do GP do Bahrein, depois de mais um revoltante caso de racismo no futebol, Hamilton se manifestou. “É insano pensar que nestes tempos ainda é algo muito proeminente no mundo. Está realmente aqui, no mundo todo. Racismo ainda é uma questão, o que é triste de ver. Não parece que vai mudar muito nos próximos anos. É ótimo ver gente se levantando e dando apoio, mas não parece que qualquer coisa vá mudar em muito tempo”, disse.
 
“As pessoas precisam lutar mais contra isso. Lembrei agora de estar na escola: quando você é jovem e ganha um tapa na mão e as coisas fluem, você não acha que isso deve acontecer. É necessário que ações sejam tomadas e as pessoas aceitem isso muito menos”, comentou.
Lewis Hamilton é voz ativa e única dentro da F1 na luta contra o racismo (Foto: Rodrigo Berton/Grande Prêmio)
Engajado, Hamilton se mostra preocupado com o futuro das crianças e também deixou claro que pensa em buscar alternativas para tornar o esporte mais acessível para os menos favorecidos. Único piloto negro da história, Lewis se destaca também por se posicionar em prol de uma vida mais saudável. Vegano, o piloto é também um líder por defender um mundo capaz de defender o meio ambiente, deixando claro a sua opinião a respeito das lastimáveis queimadas na Amazônia.
 
A respeito da possibilidade de o GP do Brasil ser realizado em um autódromo que hoje é uma grande floresta no Rio de Janeiro, Hamilton se mostrou totalmente contra. “Acho que, sinceramente, tem muito dinheiro envolvido na construção destes circuitos. Já temos um autódromo histórico aqui [Interlagos], não precisa derrubar árvores, destruir mais território”, disse o piloto em São Paulo.
 
"Isso significa que vão derrubar árvores? Não aprovo isso. Temos um país muito bonito aqui, uma floresta importante para o nosso futuro. Temos que focar mais no meio ambiente. Amo o Rio, gostaria de passar mais tempo lá, mas não quero correr em um circuito que prejudicou o meio ambiente, uma terra tão bonita para o nosso futuro", declarou.
 
“Acho que o dinheiro pode ir para algo melhor, tem coisa que o governo pode investir nas cidades. Tem muito talento e gente aqui. Se fosse meu dinheiro, colocaria em coisa melhor. Educação é muito importante. Na minha equipe, temos vários jovens engenheiros, mas poucos do Brasil. Deveríamos ter mais”, comentou.
 
"Precisamos pensar no futuro da nossa geração, que fica pior a cada ano. As mudanças climáticas estão piores a cada ano. Existem muitas áreas que precisamos atacar, esta é uma delas. Me disseram que destroem um algo do tamanho de um campo de futebol na floresta a cada dia. Não acho que a F1 contribui para isso [preocupações ambientais]", concluiu Hamilton, que tem em Nelson Mandela um dos seus grandes espelhos na vida.
Lewis Hamilton e Nelson Mandela (Foto: Reprodução)
Os posicionamentos de Hamilton são louváveis, mas não são unanimidade no meio da F1. Nomes como Fernando Alonso e Romain Grosjean contestaram o estilo de vida sustentável adotado pelo hexacampeão, assim como Kimi Räikkönen. Lucas Di Grassi, piloto da Fórmula E, foi além e falou em hipocrisia. Mas o fato é que a própria F1 trabalha com uma filosofia de ser um esporte mais sustentável e limpo a médio e longo prazo, com o objetivo de eliminar o consumo de plástico até 2025 e zerar a emissão de carbono no máximo até 2030.
 
O fato é que Lewis Hamilton não é somente mais um grande piloto que brilha no mundo do esporte a motor. Se o talento ímpar e a busca perene pela perfeição o tornam único pelo que faz dentro das pistas, fora delas o britânico é uma grande, rara e importante voz por trazer à tona, no meio do esporte a motor, discussões que são sempre postas de lado.
 
Que grande privilégio é poder fazer parte da mesma geração que Lewis Hamilton!

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