Sem motor e sem comando, Ferrari vive pior GP da Itália desde 1995 com abandono duplo

Em crise na temporada 2020 da Fórmula 1, a Ferrari voltou a passar vergonha no GP da Itália e, agora, tem tantas vitórias em Monza desde 2008 quanto a compatriota AlphaTauri, que triunfou com Pierre Gasly e também com Sebastian Vettel quando ainda se chamava Toro Rosso

Era um desastre anunciado. Desde que a temporada começou, estava nítido que a Ferrari não era a mesma dos anos anteriores, mas não é exagero dizer que a equipe segue surpreendendo negativamente a cada dia que passa. Sem carro, sem motor e sem comando, os italianos caminham a passos largos para um campeonato absolutamente histórico, mas na pior das formas. E o GP da Itália, fatalmente, vai entrar na coletânea dos muitos momentos de insucesso ferrarista em 2020.

Todos os prognósticos indicavam mais um capítulo do calvário da equipe na temporada, mas Monza, naturalmente, tem um peso diferente. É a corrida da Ferrari, a pista da Ferrari. Ou pelo menos era. As primeiras corridas já causavam uma preocupação, afinal, o motor abria o bico nas retas, então, a sequência Bélgica-Itália tinha tudo para ser desastrosa. E, de fato, foi.

O rendimento em Spa foi triste, um fiasco: Sebastian Vettel e Charles Leclerc sofrendo por uma vaga no Q2 da classificação e, no fim das contas, chegando em 13º e 14º, respectivamente, longe dos pontos. Por incrível que pareça, a Ferrari conseguiu piorar as coisas em Monza e, no fim das contas, precisa agradecer o fato da corrida ter acontecido com portões fechados, evitando o que prometia ser uma reação enlouquecida de seus fãs.

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Sebastian Vettel está sofrendo com a Ferrari na despedida em 2020 (Foto: Ferrari)

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Em Monza, sem conseguir ganhar tempo no miolo e perdendo um caminhão de décimos nas muitas retas, a Ferrari foi presa fácil de praticamente todo mundo. Na classificação, não conseguiu evitar o vexame e caiu no Q1 com Vettel, enquanto que Leclerc se garantiu em um não muito melhor 13º lugar. A lógica seguiu aparecendo na corrida, com a equipe italiana ficando sem pontuar pela terceira vez em oito etapas.

Acontece que foi mais feio do que poderia se imaginar. Primeiro com Vettel, que parecia mesmo estar guiando uma Haas: lento, sem downforce e sem freios. Depois, Leclerc, que até cometeu mesmo um erro na Parabólica, mas típico de alguém que estava lutando com seu carro e tentando tirar dele uma performance que simplesmente não existia. No fim das contas, com dois abandonos, o time teve seu pior GP caseiro desde 1995, quando Jean Alesi e Gerhard Berger não completaram a prova.

E as estatísticas que envolvem a Ferrari em 2020 são as piores possíveis. Para início de conversa, são apenas dois pódios em oito provas, ambos com Leclerc, marca mais baixa de 2015 para cá. Tem também o placar de vitórias em Monza desde 2008: duas para a Ferrari, duas para a AlphaTauri/Toro Rosso, ou seja, a escuderia de Maranello não é nem mais a principal força italiana na pista de casa de forma incontestável.

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A festa italiana em Monza foi da AlphaTauri (Foto: Honda Racing)

De 2008 para cá, aliás, a Ferrari nunca mais ganhou um título do Mundial de Pilotos ou do Mundial de Construtores. Ainda que tenha tido alguns vices, não teve mais o carro mais forte e vinha ensaiando um vexame histórico. Que está prestes a se consolidar em 2020: até aqui, são 61 pontos e a inacreditável sexta colocação nos Construtores, resultado que supera apenas e tão somente a temporada 1980, historicamente conhecida como a pior de todos os tempos dos italianos, quando anotaram oito tentos na décima posição geral.

“Não há atalhos na vida e estamos nesta posição porque provavelmente merecemos. Estamos sofrendo, toda a equipe está sofrendo e eu sou parte da equipe. Tudo acontece por uma razão, e nós somos lentos por uma razão. É duro, e não sou o único a sofrer”, disse Vettel, descartando qualquer tipo de azar, após abandonar em Monza. Aliás, o alemão vive a pior temporada em resultados desde 2008, com a Toro Rosso, em seu ano de novato.

Leclerc vem um pouco melhor, achou dois pódios muito por conta de sua ótima fase e grande talento, mas sofre também com a falta de ritmo do carro e, depois de tanto lutar, já entrega os pontos não apenas para 2020, mas também para um futuro próximo.

“Não será fácil. Levará tempo, mas estou pronto para isso. E o meu trabalho é dar o melhor em qualquer situação. Estou tentando trabalhar do jeito possível, como todo mundo no time está tentando encontrar os problemas e criar uma base sólida para os próximos anos”, afirmou.

Charles Leclerc, vencedor em Monza em 2019, abandonou em 2020 (Foto: AFP)

No meio disso tudo e cheio de culpa no cartório aparece Mattia Binotto. Antigo responsável pelos motores da equipe, o italiano já mostrava em 2019, quando as coisas pareciam promissoras com o carro, que não tinha força para comandar algo tão grande. Aí, após um imbróglio com ilegalidade justamente dos motores do ano passado, a Ferrari surgiu com uma peça muito menos potente e os problemas foram surgindo e ficando cada vez mais distantes do controle de Binotto.

O ponto no ano passado era evitar uma guerra interna entre Vettel e Leclerc, algo que Mattia foi incapaz de fazer. Em 2020, porém, há algo muito maior em jogo: a reputação de uma Ferrari em crise e a forma como a equipe, na figura de Binotto, menospreza a carreira de um tetracampeão e toda sua dedicação.

Vettel não teve o contrato renovado no início do campeonato e, assim, já entrou em 2020 sabendo que faria sua última temporada pela Ferrari. Tudo bem, é do jogo, faz parte. Mas o que se viu depois foi um show de desrespeito com a figura do alemão. Seb vem sendo contestado abertamente pelo chefe em declarações, ignorado em estratégias e, de certa forma, deixado de lado. Vettel sequer parece ser hoje para a Ferrari um segundo piloto de Leclerc, mas um apêndice.

E, definitivamente, não é como um apêndice que Vettel merecia se despedir da equipe. Não apenas por ser um tetracampeão, o que já é muito, mas pela história que fez em Maranello, pela inegável importância que teve no processo de reconstrução de um time que, lá em 2014, tinha um horizonte parecido com o atual: desgovernado e sem perspectiva.

Aí chegamos ao próximo final de semana, o GP 1000 da história da Ferrari, em Mugello, ainda mais casa da equipe e uma pista que praticamente só está lá para agradar os de Maranello em uma data que deveria ser histórica. Assim como foi em Monza, a expectativa tem de ser uma só: tentar passar a menor vergonha possível. Agora na corrida 1000, agora com pintura especial. Mas ainda com um carro que não tem nada a oferecer.

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