Fórmula E deixa nível ‘várzea do bem’ e vira circo com show de horrores em Valência

A Fórmula E sempre foi bagunçada, o que acabou virando um atrativo com o passar do tempo. Só que tudo tem limite, como bem mostrou a corrida de sábado em Valência. Não dá para levar a sério um campeonato com quase todo mundo se arrastando até a bandeira quadriculada

Sem bateria, Da Costa perde potência e liderança na abertura da última volta (Vídeo: Fórmula E)

A Fórmula E sempre teve uma dose saudável de caos. Correndo em pistas de rua, a categoria se acostumou a ter acidentes, punições e reviravoltas, sempre com uma dose gostosa de várzea. A ‘várzea do bem’, digamos. Só que para tudo há um limite, e não há dúvidas de que este foi superado no eP de Valência deste sábado (24): o que era para ser uma corrida empolgante sob a chuva virou um show de horrores que deixa mancha em um certame que ainda não consegue ser levado a sério.

Para quem não viu a corrida, este parágrafo é para você. A Fórmula E tem o hábito de sempre tirar bateria dos carros ao fim de cada período de safety-car. 1 kw/h a cada minuto, para ser preciso. Não costuma ser um problema, sendo apenas uma pequena fração do total disponível para os 45 minutos de corrida. Só que virou um problema em uma corrida que teve nada menos do que cinco entradas do safety-car, cortesia da chuva e da brita em Valência. As cenas na volta final foram patéticas: salvo dois ou três pilotos, todo mundo teve de fazer a volta final em velocidade de tartaruga para não ficar sem bateria disponível. Foi assim que António Félix da Costa perdeu uma vitória aparentemente certa, e claramente merecida, para Nyck de Vries na volta final.

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Era para ser um dia divertido na chuva, mas a Fórmula E deixou gosto amargo na boca (Foto: FIA Fórmula E)

A retórica oficial da Fórmula E, tanto na transmissão da categoria quanto em mídias digitais, foi de uma corrida dramática, definida por quem soube melhor poupar energia. O que não é inerentemente errado, já que De Vries de fato teve méritos por ter energia até o fim. Dito isso: qual é o prazer de ver pilotos se arrastando em uma disputa automobilística? De ver gente que luta por cada centésimo perdendo quatro minutos no giro final por estar na velocidade de um Fusca rumo à bandeira quadriculada?

O que se viu em Valência foi, em essência, uma fraude. Tentou ser uma corrida de verdade, mas não foi. O paralelo com a Fórmula 1 é o GP dos Estados Unidos de 2005, aquele que teve seis carros e zero disputas entre Ferrari, Jordan e Minardi. No caso da F1, o problema foi politicagem de bastidor. No da FE, um erro inaceitável para um certame que já tem sete anos nas costas.

Se quisermos dar uma colher de chá, podemos falar que a categoria nunca teve cinco entradas do safety-car em uma corrida só. Foi pega desprevenida, de certa forma. Ainda mais que Da Costa, tivesse cruzado a linha de chegada alguns segundos antes, teria diminuído a distância final de prova e evitado o auê. Só que isso não tira o gosto amargo da boca de quem queria ver uma disputa de verdade, nem a responsabilidade de quem deu um tiro no próprio pé.

António Félix da Costa quase venceu. Mas o fim… (Foto: FIA Fórmula E)

O primeiro tiro no pé nos leva a um outro problema da corrida 1 em Valência. A chuva antes da corrida levou a direção de prova a decidir por uma largada atrás do safety-car. Isso fez algum sentido em Roma, quando a pista era simplesmente estreita demais e levaria a uma pancadaria em uma largada normal. Só que o Ricardo Tormo é um autódromo permanente, com reta larga e área de escape parcialmente asfaltada. A Fórmula E parece desenvolver o mesmo medo de água que a Fórmula 1 teve no começo da década passada, e que só foi começar a superar em tempos mais recentes. Está longe de ser o maior problema do dia, mas é algo que já começa a cansar os fãs do certame elétrico.

O sábado foi um show de horrores, uma corrida que deveria colocar a Fórmula E no divã. Ainda mais com outra prova em Valência neste domingo, e ainda com possibilidade de chuva. Que o fim de semana se encerre com um gosto menos amargo na boca.

De um jeito ou de outro, a Mercedes é quem tem motivos de sobra para estar feliz. A equipe prateada levou a vitória e, apesar de não ter o melhor ritmo de todos, mostrou que vem forte pelos dois títulos. No Campeonato de Pilotos, Nyck de Vries é o novo líder e o primeiro a vencer duas corridas. Não fosse uma punição besta, o companheiro Stoffel Vandoorne teria a faca e o queijo na mão para ir ao alto do pódio. Não há como negar: a marca alemã é candidata seríssima ao título por ser capaz de andar bem em inúmeras situações diferentes.

Stoffel Vandoorne virou vice-líder da FE, atrás apenas de Nyck de Vries (Foto: Fórmula E)

Isso não é visto, por exemplo, na Jaguar. A escuderia terminou a rodada dupla de Roma como a líder do Campeonato de Construtores, mas começou a jornada em Valência perdidinha. Mitch Evans e Sam Bird largaram respectivamente em 17° e 20° e, mesmo com as loucuras da corrida chuvosa, não ganharam muito terreno. Os pontos perdidos cobram um preço alto e deixam a Mercedes em posição privilegiada para tentar os dois canecos de 2020/21. De Vries é o líder do campeonato, com Vandoorne em segundo. E talvez esse seja apenas o começo de uma grande investida.

A Techeetah, por sua vez, fica com sinal de alerta mais ligado do que nunca. Não pelo carro ser ruim, mas por uma nova oportunidade desperdiçada. Da Costa segue sem vitórias e sem pontuar tanto quanto deveria. Vergne venceu em Roma, mas não fez quase nada além disso até aqui. Não tá morto quem peleia, mas a necessidade de uma reação é cada vez mais urgente.

É difícil prever o que acontecerá nos próximos meses da FE, pelo menos em termos de disputas na pista. Em termos de organização, a tendência não é das melhores: a categoria segue perdendo chances de mostrar que é um campeonato 100% sério.

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