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‘As pioneiras’: Danica Patrick – a primeira mulher a vencer uma corrida na Indy e a ser pole na Nascar

No primeiro capítulo da série ‘Pioneiras’, o GRANDE PRÊMIO traz um perfil de Danica Patrick, a primeira mulher a vencer uma corrida da Indy e a primeira a conquistar a pole na Nascar. Hoje aposentada das corridas, a norte-americana de Roscoe, no Illinois, olha para a carreira sem arrependimentos
Grande Prêmio / JULIANA TESSER, de São Paulo

 Danica Patrick um dos nomes mais conhecidos no esporte a motor mundial. Embora não seja uma colecionadora de títulos e vitórias, a norte-americana de Roscoe, no Illinois, foi uma pioneira, já que foi a primeira mulher a vencer na Indy e a conquistar a pole-position da Nascar.
 
Aposentada das corridas desde a temporada passada, quando se despediu do esporte nas 500 Milhas de Daytona da Nascar e nas 500 Milhas de Indianápolis da Indy, Patrick deixou um legado para trás, uma vez que conseguiu provar que é plenamente possível que uma mulher vença em um mundo de homens. 
 
Na temporada 2008, em Motegi, Danica fez história ao conquistar sua primeira ― e única ― vitória na Indy. No total, ela disputou 116 GPs, alcançou um total de sete pódios, três poles e duas voltas mais rápidas, e teve seu melhor desempenho em 2009, quando fechou a temporada no quinto posto, 223 pontos atrás do campeão Dario Franchitti.
Danica Patrick de despediu da Indy e da Nascar em 2019 (Foto: IndyCar)
Patrick ficou na Indy até 2011, mas já nos últimos dois anos fazendo a transição para a Nascar. Na Cup, a categoria principal, Danica disputou 191 corridas e esteve sete vezes no top-10, além de ter conquistado uma pole. 
 
Patrick é, aliás, uma dos apenas 14 pilotos que lideraram a Indy 500 e a Daytona 500 ao longo da carreira.
 
Em entrevista ao GRANDE PRÊMIO, Danica lembrou o início no esporte e relatou que lendária prova no oval de Indiana era um sonho de criança.
 
“Na infância, nós corríamos de kart em família. Ao invés de comprar um barco e ir para o lago, nós compramos karts e íamos para as pistas. Eu era realmente boa e aí, quando tinha uns dez anos, decidi o que queria fazer: queria ser uma pilota de corrida”, disse Patrick. “Correr nas 500 Milhas de Indianápolis sempre foi o meu sonho. É uma pista icônica e um evento bem incrível”, elogiou.
 
A despedida na Indy 500, aliás, deixou a sensação de completar um ciclo da carreira.
 
“Foi apropriado que eu tenha feito um circulo completo no Indianápolis Motor Speedway. Foi lá que a minha carreira decolou e foi onde fiz minha última corrida”, lembrou. “Eu amei isso”, resumiu.
 
Questionada sobre as memórias que tem daquele histórico 20 de abril de 2008, quando venceu a Japão 300 com 5s859 de vantagem para Helio Castroneves, Danica respondeu: “Fiquei muito feliz por finalmente ter a minha primeira vitória na Indy. Fazia muito tempo que eu estava esperando”. 
 
“Eu me lembro de ficar no pódio com o troféu e amar o fato de que meu pai e minha mãe estavam lá para compartilhar aquele momento comigo”, recordou.
 
Patrick, que nas oito participações nas 500 Milhas de Indianápolis esteve seis vezes no top-10, também lembrou sua despedida da Indy e afirmou que os fãs a ajudaram a superar o nervosismo.
 
“Tinha muito amor em Indianápolis. Foi ótimo. Foi exatamente o lugar certo para eu encerrar a minha carreira como pilota”, comentou. “Os fãs em Indy me deram muito apoio, o que significa muito para mim. Eu estava realmente nervosa por voltar a Indy depois de ficar muitos anos fora, e toda a boa energia dos fãs realmente ajudou”, contou.

“Eu me senti muito bem em ver tantos fãs, especialmente crianças, que estavam usando camisetas da Danica na pista. Quando elas me dizem que querem ser como eu, sempre digo a elas: ‘Seja melhor do que eu ― e seja VOCÊ!”, declarou.
 
Apesar do carinho pela categoria de fórmula, Danica partiu para a Nascar em busca de uma nova aventura.
 
“Eu estava pronta para um novo desafio, e a Nascar era, definitivamente, um novo desafio em um estágio cada vez maior”, apontou ao GP. “Ajudou que o meu patrocinador, a GoDaddy, estava lá para me ajudar na transição para stock car ― eles me patrocinaram tanto na Indy quanto na Nascar, antes de eu fazer a mudança definitiva para a Nascar”, continuou.
O sorriso estampado no rosto de Danica Patrick após vitória no Japão (Foto: IndyCar)
A categoria, porém, reservou lá suas dificuldades, especialmente quando a pilota se dividia entre as duas classes.
 
“Turismo e monoposto são duas coisas diferentes ― muito diferentes”, indicou. “Foi um ajuste, e eu estava essencialmente aprendendo na marra ― como eu estava guiando os dois tipos de carro na mesma temporada, eu não tinha muito tempo de treino”, relatou. 
 
“Mas eu não trocaria a experiência. Eu sou do tipo que gosta de desafios, e, na minha transição da Indy para a Nascar, acho que surpreendi muita gente. Inclusive eu mesma”, admitiu.
 
Questionada pelo GRANDE PRÊMIO se tem algo que gostaria de ter feito de forma diferente na carreira, Danica foi clara: “Não tenho arrependimentos”. 
 
“Eu teria gostado de vencer minha última corrida, mas nós tínhamos muita velocidade e tivemos um ótimo mês, então estou em paz com isso”, falou. “Na minha vida após as corridas, estou tão ocupada como sempre estive e estou fazendo coisas que eu amo ― são apenas coisas diferentes. Eu mudei algumas das minhas paixões, coisas que ficaram para escanteio enquanto eu estava correndo e que agora são o meu negócio em tempo integral”, afirmou. 

“Eu amo ser uma empreendedora, aprender coisas novas e liberar mais o meu lado criativo ― estou expandindo a minha vinícola Somnium, em Napa Valley, na Califórnia, estou desenvolvendo minha linha de roupas athleisure [fusão das palavras atlético e lazer, em inglês], a Warrior by Danica Patrick, e eu estou ocupada guiando pessoas por meio do livro de nutrição e exercícios, chamado ‘Pretty Intense’, que foi publicado em janeiro de 2018”, listou.
 
Bastante atarefada, Danica contou que tampouco sente falta das corridas, já que nunca foi do tipo de piloto que gostava de ficar na pista em tempo integral.
 
“Eu não era um daqueles pilotos que gostavam de ir para a pista nos meus dias de folga ou ficar nos boxes”, falou. “Eu gostava de pilotar o carro de corridas. Gostava de competir, mas devo dizer que não estou sentindo falta, pelo menos não ainda. Eu amo a minha vida. Amo poder viajar e ter fins de semana de folga, tirar férias espontâneas”, seguiu.
Danica Patrick foi a primeira mulher pole na Nascar (Foto: Nascar Media)
Patrick, porém, tem ciência de seu impacto no esporte, mas espera ter deixado lições não apenas para meninas que queiram trilhar os mesmos passos, mas também para os meninos.
 
“Eu espero que eu tenha inspirado algumas garotas, e garotos também, a perseguirem o que eles querem da vida e não deixarem os obstáculos ficarem no caminho, seja correndo, tendo seu próprio negócio ou indo atrás de qualquer que seja a meta que elas tenham”, disse ao GP. “É importante seguir sua paixão e fazer o que você ama ― quando você é apaixonado por alguma coisa, as chances são de que isso aconteça e você seja bom no que quer que seja”, defendeu.
 
Perguntada se sua jornada no esporte ajudou a abrir portas para outras mulheres, a ex-pilota respondeu: “Espero ter tido um impacto positivo ― se não abrindo portas, gosto de pensar que mostrei para as garotas, e garotos também, que quando você ama alguma coisa, e quando você coloca na cabeça que quer alcançar alguma coisa, você pode conseguir, não importa o que os outros vejam como normal e não importa o que os céticos dizem”.
 
Apesar de ser uma pioneira em um mundo dominado por homens, Patrick nunca voltou sua atenção àqueles que a viam como diferente. 
 
“Não pensei muito a respeito. Eu simplesmente continuei aparecendo para correr”, comentou. “Tiveram alguns momentos ao longo dos anos em que notei que eu era diferente? Absolutamente, mas eu aprendi que encontrar o que te diferencia e se apoiar nessa diferença pode ser a sua maior força”, salientou.
 
No meio do esporte, não é incomum que atletas mulheres sejam usadas em campanhas de marketing com um apelo mais sensual. Patrick, no entanto, garante que nunca fez nada com que não se sentisse a vontade, mas avaliou que o mundo de hoje é um pouco diferente.
 
“Nunca fiz nada na minha carreira com que não se sentisse bem”, assegurou. “Mas acho que, mais e mais, as mulheres estão controlando seus próprios destinos, e é assim que deveria ser”, concluiu.