Parceiros de rejeição precoce, Petrucci e Álex Márquez vão à desforra em Le Mans

Rejeitados por suas equipes antes mesmo do início da temporada, o italiano e o espanhol aproveitaram a chuva na França para encontrar o caminho da competitividade na MotoGP

O roteirista da MotoGP ― quem quer que seja ele ― não poderia ter pensando em uma história melhor para o GP da França deste domingo (11). Em uma única corrida, Danilo Petrucci e Álex Márquez tiveram a chance da revanche. Vencedor e segundo colocado em Le Mans, os dois têm uma história parecida na temporada 2020: ambos perderam as vagas nas atuais equipes antes mesmo do início do campeonato.

Ainda no início de junho, justamente na véspera do aniversário da primeira vitória com a Ducati, Danilo confirmou que não teria o contrato com a casa de Borgo Panigale. Sem chances de mostrar reação depois de um fim de 2019 um pouco opaco, o italiano de Terni acabou substituído por Jack Miller.

A história do caçula dos Márquez não é muito diferente. Campeão da Moto2 em 2019, Álex foi escalado pela Honda para substituir Jorge Lorenzo neste ano, mas, em meados de julho, dias antes do GP da Espanha, abertura do campeonato, foi rebaixado para a LCR em 2021, com Pol Espargaró contratado para formar par com Marc.

Danilo Petrucci e a bandeirada em Le Mans (Foto: Divulgação/MotoGP)

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Diferente de Danilo, porém, Álex não teve os laços rompidos com a Honda. Ao contrário. O contrato do espanhol foi renovado até 2022, assegurando a vaga na escuderia satélite. Petrucci, então, encontrou um porto seguro com a KTM, que o acolheu para formar par com Iker Lecuona na Tech3.

O golpe, assim, foi mais duro com Petrucci, que além de perder motivação, também sofreu com a mudança no pneu traseiro. Uma dificuldade, aliás, também sentida por Andrea Dovizioso.

“Foi um ano muito, muito louco, pois a temporada não tinha nem começado e eu perdi a minha vaga”, lembrou Danilo após conquistar a segunda vitória da carreira na MotoGP. “Parecia que, naquele momento, ninguém confiava em mim, mas teve algum movimento de outros pilotos e outras pessoas confiaram em mim”, continuou.

“Mas no fim, a temporada começou e as mudanças no pneu traseiro me fizeram ter muitas dificuldades. Comecei primeiro a trabalhar com a eletrônica, mas não era o caminho certo e, no fim, encontramos algo no teste de Misano e aí em Barcelona eu senti a moto como eu queria outra vez. Aí eu soube que tinha uma grande oportunidade e consegui outra vez. Foi um período muito, muito longo, mas estou muito, muito feliz por ter vencido outra vez”, comemorou.

No piso molhado de Le Mans, Petrucci foi dominante e permaneceu na liderança por quase todos os 27 giros. A melhora, aliás, foi notória desde os primeiros treinos no circuito Bugatti.

Álex Márquez estreou no pódio da MotoGP (Foto: Red Bull Content Pool)

Ao fim da corrida, porém, Petrucci foi claro ao mostrar a insatisfação com a postura da Ducati e deixou claro que a motivação foi abalada pela perda da vaga.

“Acho que, no fim, todo mundo precisa fazer suas coisas. Com certeza, eu entendi que era um ano estranho, pois não corremos, mas com certeza não foi tão legal perder a vaga antes de a temporada começar. Certamente, isso não te dá a motivação certa para correr nesta equipe neste ano”, avaliou. “Já no fim do ano passado, senti que já não estava na lista, mas felizmente, outras pessoas confiaram em mim. Tenho de agradecer ao meu time e as pessoas em casa, que sempre confiaram em mim e acreditaram que eu era bom pilotando a moto. Esta é a prova de que eu posso vencer uma corrida da MotoGP”, defendeu.

Foi o próprio Petrucci, aliás, que lembrou a semelhança da trajetória de Álex em 2020. O italiano contou, ainda, que o telão instalado para atender aos poucos fãs presentes no circuito também ajudou.

“Foi uma grande ajuda ter alguns fãs aqui, pois tínhamos um telão na volta e eu pude ver que Álex estava vindo muito, muito rápido. Eu vi que Pol estava bem próximo primeiro acho que de Rins, então, consegui controlar, mas eu estava muito assustado de Álex vindo na última volta, pois sabia que ele é um piloto muito bom no molhado e, como eu, ele perdeu a vaga de fábrica antes do início da temporada. Ele é um campeão mundial e queria provar que também é muito rápido na MotoGP, então, acho que no fim, foi mais uma questão de quem quer mais vencer”, ponderou. “Felizmente, ele começou muito atrás e eu na primeira fila, então, liderei a corrida toda. Talvez Dovi também tenha me ajudado no final, parando-o. Mesmo que não tenha sido de propósito, me ajudou a criar 1s de vantagem para chegar na linha de chegada”, apontou.

Por fim, Petrucci ressaltou que sempre teve de lutar muito pela vaga na Ducati e sinalizou a insatisfação com a cúpula do time.

“A minha história com a Ducati é muito longa. Eu tive de lutar muito e com muitos pilotos, também com grandes nomes da MotoGP para conseguir essa vaga, mas talvez as pessoas na Ducati tenham outras ideias”, sugeriu. “No fim, é melhor assim. Estou feliz por ter vencido outra vez, recuperei a boa sensação na moto, o que pode me ajudar a terminar no pódio nas corridas restantes deste ano”, encerrou.

Estreante no pódio da MotoGP, Álex Márquez tratou de controlar a animação. O espanhol reconheceu que não esperava a briga pela ponta, mas ressaltou que é preciso melhorar no seco e, mais ainda, classificar melhor, já que o ritmo de corrida não têm sido um problema tão grande.

“Foi uma corrida longa, difícil largando em 18º. Mas desde o início, acreditei que era possível fazer algo bom hoje. Sinceramente, não esperava o pódio, mas não fiz uma largada ruim, ataquei na primeira curva, o que foi um pouco arriscado. Aí nas primeiras três ou quatro voltas, eu pensei: ‘Precisamos aquecer bem os pneus, pois a dianteira era o médio’. Não foi fácil aquecer o traseiro do lado esquerdo, então, fui com calma no início, ganhando mais e mais confiança e pensei em ir mais longe”, detalhou Álex. “Vi que as três Ducati tinham uma grande vantagem, então, pensei que, como eram três, o pódio não seria possível. Mas quando estava atrás de Cal [Crutchlow] ― e levei alguns segundos para ultrapassá-lo ―, vi que as Ducati começaram a brincar um pouco e a diferença diminuía volta após volta. Pensei em fazer o meu melhor. Então, ultrapassei também Pol, que era rápido, e acho que a chave foi que perdi um pouco de tempo tentando ultrapassar Dovi. Isso foi chave. Ele era muito rápido na reta e nos pontos de frenagem. Eu estava tentando ultrapassá-lo em outro lugar, como no trecho entre as curvas 4 e 6, mas foi muito difícil. Tentei mesmo assim, era o único ponto em que eu tinha a chance de tentar ultrapassá-lo”, comentou.

“Aí fiquei só assistindo Petrucci um pouco longe demais e disse: ‘Ok, duas voltas para o final. Pega leve, Álex. Não vai cair agora, pois aí tudo vai desaparecer. Se você cair no final, ninguém vai lembrar da corrida’. Pol estava vindo, mas eu estava controlando bem. Fico muito feliz pelo time. Se formos realistas, temos de seguir a melhora do acerto de pista seca, mas estamos chegando e estou muito feliz por isso”, celebrou.

Confira as imagens do GP da França de MotoGP

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O GP da França da MotoGP (Foto: SRT)

Apesar da estreia no pódio da MotoGP, Márquez considerou que ficou mais satisfeito com o top-3 do GP da Malásia do ano passado, já que foi quando conquistou o título da Moto2.

“Meu último pódio foi na Malásia, então, aquela sensação foi muito boa. Quando você é campeão mundial, sinceramente, parece melhor do que um pódio na MotoGP”, revelou. “Também estou muito feliz com este pódio, mas agora precisamos repetir no seco. Essa é a chave para sermos rápidos, para estarmos na MotoGP. Estamos chegando passo a passo, mas precisamos colocar tudo no lugar, melhorar na classificação, pois, começando de 18º, é muito difícil. A sensação é ótima, especialmente pela equipe, que precisava muito disso”, reforçou.

Questionado se o resultado deste domingo chega como uma resposta aos críticos, Álex respondeu: “No fim, eu sei por que estou aqui e por que estou vestindo essas cores. Eu sou duas vezes campeão mundial, sei por que fui promovido à Repsol Honda”.

“Foi uma situação estranha, pois Lorenzo disse que se aposentaria na última corrida e foi difícil para o time tomar uma decisão. Eles confiaram em mim. Eu sei o motivo de estar aqui”, declarou. “As críticas às vezes são boas, pois você tem mais motivação, te dão combustível para seguir trabalhando e para sempre confiar em si mesmo. Eu concordo com muitas das críticas que recebi neste ano, pois a performance não é o que esperávamos, especialmente na classificação, onde não sou rápido como gostaria, mas não me importo. Sei por que estou aqui”, assegurou.

Por fim, o piloto de Cervera contou os conselhos que recebeu do irmão às vésperas do GP da França e revelou que já tinha conversado com o hexacampeão após a estreia no pódio.

“Ele me aconselhou ao longo do fim de semana sobre como controlar os pneus no frio e tudo mais, mas não em relação à chuva, pois ninguém, ou quase ninguém, esperava chuva na corrida. Ele sempre me diz para tentar curtir, diz que essa é a chave para ser rápido. Eu curti hoje, curti muito a corrida e cada ultrapassagem que fiz”, afirmou. “Já falei com ele, liguei quando estava falando com as TVs e ele também estava muito feliz. Foi um bom dia para a equipe Repsol Honda. Ele certamente também está muito feliz pela equipe, pois sabe que a HRC precisava deste tipo de resultado. Como eu disse, é só um pódio no molhado. Precisamos construir, melhorar a cada dia para fazer isso no seco, o que é mais difícil, já que todo mundo é muito rápido”, encerrou.

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