Retrospectiva 2025: FIA ratifica democracia ilusória ao manter Ben Sulayem no poder

Mesmo com mandato marcado por acusações de manipulações, centralização de poder e caça aos opositores, Mohammed Ben Sulayem foi reeleito por aclamação como presidente de uma FIA cada vez menos confiável e mais distante da verdadeira democracia

A permanência de Mohammed Ben Sulayem na presidência da Federação Internacional de Automobilismo (FIA) não representa somente a continuidade de um nome no cargo máximo da entidade. A reeleição do emiradense, consumada por aclamação e sem concorrência, consolida um ciclo de poder marcado por polêmicas recorrentes, embates públicos com pilotos, mudanças profundas no estatuto da FIA e uma crescente desconfiança sobre os rumos da governança no automobilismo mundial.

Desde que assumiu o comando da federação, no fim de 2021, Ben Sulayem construiu um mandato que jamais passou incólume. Pelo contrário: a gestão foi atravessada por investigações internas, denúncias de interferência direta em decisões esportivas da Fórmula 1 e relação cada vez mais desgastada com pilotos e figuras de oposição. Ainda assim, não apenas resistiu às crises como conseguiu sair politicamente fortalecido, neutralizando adversários e ampliando a influência sobre mecanismos internos da entidade.

Um dos episódios mais sensíveis do mandato ocorreu em 2023, quando foi acusado de tentar interferir no resultado do GP da Arábia Saudita ao pressionar pela reversão de uma punição aplicada a Fernando Alonso. O caso chegou aos comitês de ética e compliance da própria FIA e, embora as acusações tenham sido posteriormente rejeitadas, abriu um precedente grave: pela primeira vez, o presidente da federação era publicamente associado a uma tentativa de manipulação de resultado na principal categoria do esporte. Meses depois, nova denúncia indicaria uma suposta tentativa de barrar a homologação do circuito de rua de Las Vegas, reforçando a percepção de interferência direta em processos que deveriam ser técnicos e independentes.

Esses episódios ajudaram a tensionar ainda mais a relação entre FIA e F1, sobretudo em um momento em que federações nacionais passaram a questionar, de forma mais aberta, métodos de governança adotados pela entidade. Internamente, a resposta de Ben Sulayem foi clara: fortalecer o controle político e reduzir os espaços de contestação.

F1, FÓRMULA 1, FIA, Presidente da FIA, Mohammed Ben Sulayem, AFP
Ben Sulayem encarou até acusações de tentativa de manipulação de resultado, mas saiu ileso (Foto: AFP)

Ao longo de 2024 e 2025, a FIA promoveu uma série de mudanças estatutárias que ampliaram os poderes do presidente e do Senado, diminuindo a autonomia dos comitês de ética e auditoria e restringindo os mecanismos de responsabilização da própria presidência. Na prática, investigações passaram a depender da autorização do topo da entidade para avançar, enquanto denúncias de vazamentos e “falta de lealdade” passaram a justificar demissões em cargos estratégicos, incluindo diretores de compliance, membros de auditoria e até o diretor de provas da F1.

O movimento foi interpretado por críticos como uma clara tentativa de centralização de poder. Federações tradicionais, como do Reino Unido e da Áustria, chegaram a emitir cartas públicas alertando para um retrocesso democrático e a erosão da credibilidade institucional da FIA. Ainda assim, as mudanças foram aprovadas em assembleia geral com ampla maioria, evidenciando a força política construída por Ben Sulayem junto aos clubes membros, especialmente fora da Europa.

Paralelamente, o presidente travou um dos embates mais simbólicos do mandato: a cruzada contra palavrões e manifestações consideradas inadequadas por parte dos pilotos. O endurecimento do Código Esportivo Internacional, com multas pesadas, possibilidade de suspensão e até dedução de pontos, provocou reação imediata. Max Verstappen, Charles Leclerc, George Russell e Lewis Hamilton criticaram publicamente a medida, enquanto pilotos do Mundial de Rali (WRC) chegaram a adotar voto de silêncio em protesto contra as punições.

A postura da FIA foi vista como autoritária e desconectada da realidade do esporte, sobretudo pelo peso financeiro das multas e pela tentativa de controlar a linguagem em momentos de forte carga emocional. Mesmo após recuos parciais e revisões no regulamento, o episódio reforçou a imagem de uma presidência disposta a impor decisões de cima para baixo, mesmo ao custo de desgaste com pilotos, associações e público.

Max Verstappen foi bem vocal contra “caça aos palavrões” de Ben Sulayem (Foto: Red Bull Content Pool)

Esse padrão se repetiu no processo eleitoral que culminou na reeleição de Ben Sulayem. Diante da sinalização de possíveis candidaturas de oposição, como Carlos Sainz, Tim Mayer e Laura Villars, a FIA reforçou regras estatutárias que exigem chapas com representantes de todas as regiões do mundo — mesmo na ausência de figuras elegíveis. A inexistência de nomes na América do Sul fora da atual gestão acabou se tornando ponto-chave para inviabilizar qualquer concorrência.

Com Sainz desistindo antes mesmo de se lançar oficialmente como opositor, Mayer retirando a candidatura e Villars recorrendo à Justiça francesa sem efeito imediato, Ben Sulayem chegou ao pleito como único nome elegível. A reeleição por aclamação, longe de representar unanimidade de ideias, expôs um sistema eleitoral incapaz de absorver oposição real e debate democrático. O próprio Mayer classificou o processo como uma “ilusão de democracia”, enquanto ações judiciais seguem pendentes, mas somente para depois da confirmação do novo mandato.

O cenário que se desenha, portanto, é de continuísmo. Nada indica que o segundo mandato de Mohammed Ben Sulayem será menos turbulento que o primeiro. Pelo contrário: a consolidação do poder, a fragilização dos mecanismos de fiscalização interna e a relação conflituosa com pilotos e partes interessadas sugerem que a FIA seguirá sob uma gestão marcada por controvérsias, decisões centralizadoras e um nível elevado de desconfiança institucional.

Se o primeiro ciclo foi de choque, o segundo tende a ser de aprofundamento. Com menos freios internos e oposição praticamente neutralizada, Ben Sulayem inicia mais quatro anos no comando da FIA não como um presidente sob contestação, mas como um dirigente fortalecido politicamente, praticamente um déspota, e cada vez mais distante da promessa de transparência, diálogo e governança que o levou ao cargo em 2021.

Fórmula 1 está de férias. Os carros voltam a acelerar de 26 a 30 de janeiro em testes privados em Barcelona. Depois, seguem para o Bahrein para mais duas sessões da pré-temporada: de 11 a 13 de fevereiro e de 18 a 20 de fevereiro. O GRANDE PRÊMIO acompanha todas as atividades da temporada 2026.

▶️ Inscreva-se nos dois canais do GRANDE PRÊMIO no YouTube: GP | GP2

F1 hoje: saiba aqui as notícias mais importantes do dia da Fórmula 1

A redação do GRANDE PRÊMIO selecionou as notícias mais importantes das últimas horas para você ficar por dentro de tudo que acontece na F1.

▶️ Retrospectiva 2025: F1 encerra ciclo em baixa e com problemas a resolver para 2026
▶️ Retrospectiva 2025: Alpine chega ao fundo do poço e espera milagre para renascer na F1
▶️ Retrospectiva 2025: Haas reafirma ‘método Komatsu’ e acaba premiada em ano de 8 ou 80
▶️ Schumacher ainda tem vida repleta de incertezas e mistério 12 anos após acidente

Chamada Chefão GP Chamada Chefão GP 🏁 O GRANDE PRÊMIO agora está no Comunidades WhatsApp. Clique aqui para participar e receber as notícias da Fórmula 1 direto no seu celular! Acesse as versões em espanhol e português-PT do GRANDE PRÊMIO, além dos parceiros Nosso Palestra e Teleguiado.

📩 NEWSLETTER GP

Assine e receba notícias exclusivas e bastidores das pistas diretamente no seu e-mail!