Retrospectiva 2023: Norris desfila rumo ao topo, mas precisa entender onde mora a magia
Lando Norris foi o grande dínamo do que acabou sendo a grande temporada da McLaren ao menos desde a virada para os anos 2010. Mas ainda precisa captar um pouco do lugar onde está a magia
Lando Norris mostrou, uma vez mais, que é um dos melhores pilotos do mundo. Quanto a isso, não haverá qualquer dúvida jogada ao vento para o restante deste texto. A Fórmula 1 2023 do piloto inglês reforçou a sensação de que o crescimento é constante. O campeonato teve momentos de absoluto brilhantismo de Norris, embora ele ainda tenha algo a aprender sobre de onde nasce a magia.
Mas vamos ao campeonato, inicialmente. A McLaren anunciou ao mundo, pouco antes de tomar a pista no Bahrein, que tinha se enrolado na preparação do projeto para 2023. Com isso, criou-se um atraso feroz que obrigou o time da cidade inglesa de Woking a entrar na temporada com uma adaptação no carro do ano anterior. O MCL60 de verdade começaria a aparecer em ação somente no GP do Azerbaijão, quarta etapa.
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Ficou imediatamente claro que a situação era desesperadora naquele início. O carro estava entre os três piores do grid. Pontos eram quase um sonho de uma noite de verão, distantes, e a sensação era de que o viés de crescimento apresentado pela McLaren desde 2019 ficava pelo caminho. Como seria possível se recuperar de maneira satisfatória daquele começo vexatório, sobretudo num cenário em que a Aston Martin disparara da maneira como fazia.
“Não posso dizer que estou feliz. Foi o melhor que poderíamos ter feito, mas não fomos rápidos o suficiente”, dizia Norris.

Mas defendia. “Não acho que seja diferente do ano passado. De certa forma, é até um pouco melhor que o ano passado, mas o grid está mais apertado. Não está tão ruim quanto parece, diria isso com certeza. Não somos rápidos, essa é a resposta honesta. Tudo está muito próximo, então as coisas acabam punindo de verdade quando não acontecem a nosso favor”.
Quando a versão original do MCL60 aportou, no Azerbaijão, o restante das equipes já lançava as primeiras atualizações e melhorava. Enquanto isso, a McLaren precisava entender como resolver a principal fraqueza do carro: a velocidade de retas. E Lando começava a mostrar incômodo.
“A trajetória em 2021 foi muito boa. E a progressão até 2022 foi bastante razoável. A evolução para este ano está abaixo da expectativa que todos tínhamos em mente no final da temporada passada. Este é o ano que esperava um pouco mais”, admitiu.
O grande salto veio com um pacote de atualizações apresentado na Áustria. Até aquele momento, Norris tinha temporada opaca e com esforços grandes que levavam a poucos pontos, mas também mostrava erros como o da Arábia Saudita, quando se enrolou com Pierre Gasly na largada.
Foi naquele instante que as coisas mudaram. A velocidade de reta deixou de ser problema, o carro ganhou novos componentes e outra cara. Norris foi ao quarto lugar e ao primeiro pódio do ano na prova seguinte, na Inglaterra. A Hungria viria depois com novo momento de mudança de percepção. Com Red Bull Ring e Silverstone, pistas velozes, a impressão era de que as características ajudavam o carro. A Hungria, com altíssimo arrasto aerodinâmico e curvas lentas, quase sem retas, seria uma história diferente. Mas não foi. Norris voltou ao pódio e mudou os rumos do campeonato.
A partir deste ponto, a McLaren estava oficialmente na mesma briga de Mercedes, Ferrari e da Aston Martin, essa em queda, pelo posto de segunda força do campeonato. Dependendo da pista, iria para uma ou para outra.
No fim das contas, mesmo tendo começado tão atrás e fora da briga, Lando foi a sete pódios na temporada. Aliás, façamos uma conta mais justa: foram sete pódios em 13 corridas entre Áustria e Abu Dhabi: mais da metade. Ao todo, 205 pontos e o sexto lugar do Mundial de Pilotos, superando Carlos Sainz, George Russell e Lance Stroll, com Ferrari, Mercedes e Aston Martin, respectivamente, e somente 1 ponto atrás de Charles Leclerc e Fernando Alonso.
A vitória, é verdade, não veio. Se Daniel Ricciardo achou um triunfo durante a passagem desastrosa na McLaren, com Norris em segundo, Oscar Piastri também comemorou o primeiro lugar, ainda que numa sprint, no Catar, em 2023. Mas medir a vida e o talento em vitórias e derrotas é pobreza de espírito. Norris vai vencer, em algum momento, se tiver carro para brigar de maneira constante. O momento vai chegar, não há como não chegar. Se Norris continuar no nível de 2023, quando mostrou mais uma temporada de evolução e deixou aberto e claro tudo que pode ser, não há como evitar que tenha grandes momentos na carreira. Seja na McLaren ou fora dela.

Após ensejar insatisfação ao longo do ano e ver o nome jogado em especulações para a sequência de Sergio Pérez na Red Bull, em 2025, terminou berrando aos quatro ventos o quanto estava feliz com o resultado da recuperação e do desenvolvimento.
“Estou muito orgulhoso de toda a equipe, por eles terem conseguido uma evolução tão grande. Provavelmente foi uma das maiores dos últimos dez anos, em um período em que é mais difícil do que nunca evoluir o carro por causa do teto de gastos e do tempo limitado em túnel de vento”, comemorou ao fim da temporada.
“O começo foi difícil porque pensei que ia durar um ano inteiro [a vida de dificuldades com o carro]. Não sabíamos o quanto iríamos melhorar, principalmente no início. Dissemos: ‘Seremos um pouco pacientes e sabemos que temos algumas coisas decentes por vir’. Mas nos últimos anos, quando coisas decentes surgiram, elas nem sempre representaram uma grande melhoria”, seguiu.
“Esse ano foi exatamente o oposto e acabou sendo uma melhoria quase maior do que esperávamos. Mas foi difícil porque você nunca quer começar a temporada pensando “faltam 24 corridas e não consigo nem sair do Q1”, finalizou Norris.
A despeito de momentos como os do acidente em Las Vegas, Norris mostrou uma vez mais que está evidentemente entre aqueles que, dadas as condições certas, reúnem condições de buscar um título mundial em algum momento.
Conforme muita gente notou com o crescimento de Piastri, o companheiro novato, ao longo do ano, é verdade que Lando terá mesmo uma tarefa bastante grande em 2024: superar um prodígio que já terá conhecimento amplo do carro e das pistas. Mas se engana quem acha que a briga é mais temerária a Norris que a Piastri. É difícil entender o que Lando ainda precisa mostrar para aqueles que duvidam do status de estrela estabelecida.
E, sim, um ponto de partida está na falta de combatividade que mostrou nos duelos sobretudo contra Max Verstappen em 2023. Até quando largou na frente e com chances de começar uma prova com o comando das ações para, quem sabe, brigar por vitória. Norris aceitou a todo momento o mantra de que não deveria lutar contra Max, porque era uma briga perdida e que apenas atrapalharia o próprio equipamento a duelar contra rivais possíveis.
Numa temporada aparentemente interminável, com 22 corridas que deveriam ter sido 24, a verdade daquele campeonato vira verdade totalitária, claro, porque é difícil puxar pela memória qualquer resquício de lembrança de outros anos e situações.
É preciso contextualizar 2023 e colocar em confronto ao que foi visto antes. É o mesmo Norris que foi elogiado por Lewis Hamilton, ainda na era Mercedes, por duelos de pista mesmo que não tivesse qualquer chance aparente. É o mesmo Norris do GP da Rússia de 2021, quando ficou na pista com pneus macios na chuva e encarou os riscos aparentes para tentar vencer, quando sabia que as chances de vitória se esvairiam com um pit-stop. Norris, inclusive, foi altamente criticado pelo movimento, o que demonstra uma vez mais que o julgamento é sempre resultadista: se deu certo, a estratégia foi excelente; se deu errado, você está no limite da incapacidade humana de tomar as próprias decisões.
De alguma maneira, Norris parece ter internalizado isso e, num campeonato em que o maior domínio da história da F1 apareceu, resolveu que não mediria forças com o lobo mau. Em vez disso, era preferível manter o corpo sem ferimentos para evitar desvantagem quando apostasse corrida contra os outros dos três porquinhos.
Até dá para entender que se abra o caminho vez ou outra, mas há um problema grave em abrir sempre. Nisso, Norris perdeu a mão. É verdade que praticamente a totalidade dos duelos contra Verstappen não fariam sentido prático, mas não é apenas com pragmatismo que se corre. Duelar em situação de inferioridade dá o ar romântico. É nesses momentos em que mora a magia.
Norris é um grande piloto, mas será mágico apenas quando entender onde deve buscar a magia.
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