Retrospectiva 2023: Pérez vira peça nula em ano que apenas Verstappen bastou à Red Bull
A única justificativa para a permanência de Sergio Pérez na Red Bull em 2024 é que, definitivamente, a equipe austríaca não precisou dos pontos do mexicano para ser campeã este ano. A maior vitória de Checo, portanto, é sair de 2023 sem uma rescisão de contrato nas mãos
Vamos aos fatos: os 285 pontos conquistados por Sergio Pérez na temporada 2023 da Fórmula 1 não fariam a menor diferença na conquista da Red Bull entre os Construtores se o mexicano fosse desclassificado do Mundial por alguma razão, tal como Michael Schumacher em 1997, e isso interferisse na pontuação do time. Diferença de performance entre companheiros de equipe não é nenhuma novidade, claro, mas o que se viu este ano é algo que torna a permanência de Pérez em Milton Keynes inexplicável.
Aliás, há sim uma justificativa: a de que, definitivamente, a Red Bull não precisou de Checo em 2023 frente a um Max Verstappen sobrenatural ao volante de um dos carros mais incríveis que já desfilaram pela categoria. Os 575 pontos do holandês garantiriam o hexa para os taurinos, e com folga, já que o duo da Mercedes marcou apenas 409 — 166 de margem! E dificilmente, levando em conta que a F1 não passará por nenhuma mudança de regulamento em 2024, o cenário será outro.
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Isso significa que não apenas a Red Bull é franca favorita a mais um ano de excelência, como Pérez já pode começar a internalizar para 2024 a inglória batalha pelo vice, que é o que sobra aos demais. Só que no caso do mexicano, com o carro que teve nas mãos, beirou o absurdo a forma como o segundo lugar no Mundial realmente esteve ameaçado na reta final da competição.
Nem sempre foi assim, é verdade. Nas quatro primeiras etapas do calendário, Pérez realmente conseguiu acompanhar o ritmo de Verstappen e até superá-lo em duas ocasiões muito específicas. Na Arábia Saudita, a segunda do campeonato, contou com um problema do companheiro de equipe ainda no Q2 e alinhou na pole-position. Com Max praticamente fora de jogada, conseguiu fazer valer a posição de honra, cruzando a linha de chegada em primeiro. Era a segunda dobradinha da Red Bull no ano, e como o #1 venceu a primeira, ambos só não deixaram Jedá rigorosamente empatados porque o neerlandês cravou o tento extra da volta mais rápida.

Mesmo ainda com questões de confiabilidade a serem solucionadas, o RB19 era incomparavelmente melhor que os outros. Após nova vitória de Verstappen, agora na Austrália, Pérez desembarcou em seu tipo favorito de circuito: de rua. No Azerbaijão, ainda contaria com a sprint para não deixar Max escapar, e assim o fez. Foram duas vitórias contundentes e proporcionalmente enganosas, pois realmente se achou ali que haveria, de fato, uma briga pelo título.
Talvez o único que em momento algum acreditou nisso foi Verstappen. Mesmo assim, criou-se uma expectativa em torno de Pérez e da alcunha de ‘Rei das Ruas’ que colocavam ao menos as pistas urbanas como vitórias certas do mexicano. E Miami, montado em torno do Hard Rock Stadium, seria a próxima da rota da Fórmula 1.
Ironia do destino — e crueldade de Verstappen —, foi num circuito de rua que Pérez viu sua morte na temporada 2023 ser decretada. A bandeira vermelha na classificação impediu Max de tentar melhorar a volta no Q3 após erro na primeira tentativa. Largou apenas de nono, enquanto Checo mais uma vez foi o mais rápido. De nada adiantou: com uma estratégia ousada, partindo para um primeiro stint muito longo de pneus duros, o bicampeão impôs a Pérez uma derrota da qual ele nunca mais conseguiu se recuperar na temporada.
Veio Mônaco, nova pista de rua e onde o #11 vencera em 2022, mas em vez de ensaiar a recuperação, bateu ainda no Q1, dando início à pior sequência de um piloto Red Bull em classificações na história: cinco corridas sem conseguir avançar ao Q3. Ao final da quinta, no lendário circuito de Silverstone, descreveu o sentimento como “horrível“.
“Certamente, quando você não está totalmente confiante com o carro, as coisas são mais complicadas. Acho que o que aconteceu em Mônaco [a batida] provavelmente me deixou um passo atrás e levei algum tempo para confiar totalmente no carro do jeito que eu estava fazendo. E então você adiciona o fator externo com as condições mutáveis e há um pouco mais de discrepância”, admitiu o piloto da Red Bull.
Enquanto Verstappen dava conta do recado, anotando recordes e caminhando a passos largos rumo ao tri, os austríacos tentavam segurar o tom das declarações ao comentar a fase de Pérez. Por muitas vezes, Christian Horner, o chefe dos taurinos, argumentou que Checo “só precisava de um bom fim de semana“, pois todos em Milton Keynes sabiam “do que ele era capaz”.

A paciência se esgotou ao final do GP do Catar. A mesma corrida que selou o tri de Verstappen também fez Horner explodir em cobranças públicas muito mais diretas sobre a performance de Pérez, uma vez que Lewis Hamilton já começava a se aproximar perigosamente e ameaçar o vice-campeonato do mexicano.
“Acho que realmente precisamos conversar com Checo porque sabemos do que ele é capaz, e ele não está em boa forma no momento. Precisamos desesperadamente que ele recupere essa forma para manter o segundo lugar no campeonato. Foi frustrante vê-lo sair do fim de semana com apenas um ponto, e acho que ele poderia, mesmo largando no final do grid, ter tido a chance de pontuar decentemente hoje”, disparou Horner após a prova em Lusail.
Pérez entendeu o recado e terminou o GP dos Estados Unidos em quarto. E a corrida seguinte seria simplesmente o GP da Cidade do México. Empurrado por uma torcida aficionada, Checo partiu do quinto lugar no grid determinado a vencer a todo custo. E a largada realmente foi forte, só que Pérez tentou resolver tudo na primeira curva. Ao tentar dividir o mesmo espaço com outros dois carros (Charles Leclerc e Verstappen), levou a pior, sendo catapultado para a área de escape. Dessa vez, não conseguiu segurar as lágrimas.
Pérez conseguiu consolidar o vice-campeonato muito mais em função da derrocada de Hamilton do que de méritos próprios. Hoje, considerando também o carro, comparar qualquer piloto do grid atual com Verstappen é injusto. É por isso que o 2023 de Checo chega ao fim da forma mais melancólica possível, sendo a única vitória real a ser celebrada a não rescisão de contrato com a Red Bull.
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