Acordo Ferrari-FIA esconde espionagem com roubo de dados e abala credibilidade da F1

Jornal Corriere della Sera conta que a entidade só soube da irregularidade do motor italiano porque provas foram obtidas por uma equipe rival com ajuda de alguém que sabia da artimanha. Caso Racing Point ajuda a mostrar que FIA não tem capacidade de fiscalização

A história do acordo secreto entre FIA e Ferrari, que viu a equipe italiana perder desempenho em seu motor na temporada 2020 e mexer com os bastidores, envolve um caso de “cirúrgica operação de espionagem industrial” com possível roubo de dados e leva, na ponta final, a um risco de credibilidade da Fórmula 1 como um todo. É o que revela uma reportagem publicada nesta quarta-feira (22) pelo jornal italiano Corriere della Sera.

O jornalista Giorgio Terruzzi assina a matéria e teve como fonte um funcionário da entidade máxima do automobilismo. A história remonta à performance de Charles Leclerc no GP da Itália. O monegasco venceu a corrida, apesar de acossado o tempo todo por Lewis Hamilton. Chamou a atenção o fato de o inglês não conseguir se aproximar plenamente do carro da Ferrari, mesmo com o DRS ativado, ou seja, a asa aberta.

Segundo a fonte, uma equipe rival da Ferrari – Mercedes ou Red Bull, supõe-se – agiu e conseguiu provas de que o motor italiano estava adulterado no ano passado e, portanto, fora do regulamento. A reportagem indicou que as evidências foram obtidas de forma ilegal, com ajuda de alguém que conhecia os segredos, possivelmente da própria equipe.

A FIA, através de seus métodos, não havia conseguido descobrir a irregularidade. De posse dos dados – roubados, saliente-se –, a federação decidiu propor o acordo à Ferrari, basicamente impedindo que fossem feitos novos desenvolvimentos na unidade de potência e que o motor deveria estar ‘limpo’. A comprovação de que a Ferrari acatou o compromisso vê-se em pista: a potência é muito menor que a do ano passado, afeta diretamente as clientes Haas e Alfa Romeo e, mais do que isso, evidencia a falha aerodinâmica na SF1000.

Nesta quarta-feira, inclusive, a Ferrari anunciou uma restruturação interna que promoveu a atuação efetiva do projetista Rory Byrne, uma das cabeças atuantes da Scuderia nos tempos gloriosos de Michael Schumacher, já pensando em 2022.

Charles Leclerc venceu o polêmico GP da Itália de 2019 (Foto: Ferrari)

O fato é que o caso escancara, acima de tudo, que a FIA não tem condições técnicas de avaliar apropriadamente infrações que as equipes e as montadoras estejam cometendo se não houver denúncias ou delatores, ainda mais envolvendo hackers ou similares.

O motor ‘limpo’ da Ferrari levanta suspeitas de que os demais concorrentes não estejam ‘limpos’ – ou que, numa linguagem mais eufemística, os limites sejam explorados em demasia. E também tem o caso conhecido da Racing Point, que é uma cópia da Mercedes de 2019 e faz a Renault protestar desde o fim do GP da Estíria.

A Renault pediu esclarecimentos à FIA e alegou que os artigos 2.1 e 3.2 do regulamento técnico não são cumpridos pela ‘Mercedes Rosa’. Para tal, pegou um ponto do carro que é praticamente invisível a olho nu: o duto de freio. Se a equipe de Cyril Abiteboul o fez, conclui-se que pode ter, da mesma forma, informações obtidas de maneira escusa para apontar a artimanha.

Racing Point e Renault protagonizam nova rivalidade (Foto: AFP)

A Racing Point defendeu-se dizendo que tem “886 desenhos” que comprovam a legalidade de seu projeto. Por outro lado, a FIA e até mesmo Ross Brawn, chefe da categoria, indicaram que atestar uma irregularidade dos carros de Sergio Pérez e Lance Stroll é muito difícil.

Neste sentido, há um temor que Williams e McLaren, que será parceira da Mercedes em 2021, aproveitem-se de alguma forma do caminho aberto pela Racing Point.

Antes da largada do GP da Hungria, Helmut Marko, consultor da Red Bull, disse que tinha total interesse em saber do caso porque, se a FIA liberasse por completo o carro da Racing Point, sua escuderia faria o mesmo com a AlphaTauri.

Sebastian Vettel, na Ferrari desde 2015, deixa o time no fim do ano (Foto: Ferrari)

As mãos atadas da FIA, assim, deixariam a Fórmula 1 no limbo em um momento único na história — a pandemia — e justamente na transição de um modelo que impõe teto orçamentário e mudança de regulamento para 2022 com um Pacto da Concórdia a ser assinado. Punir qualquer equipe significa mudar o projeto e pôr em risco a permanência das equipes no grid. A categoria precisaria da atuação de ‘gola profonda’ para revelar quem age fora das regras.

Jornalista revelou que acordo “desgraçado” envolveu Leclerc e até família Todt

Em participação no programa Cadeira Cativa, do GRANDE PRÊMIO, o jornalista italiano Cesare Maria Mannucci comentou que o acordo envolveu o apoio da Ferrari em congelamento técnico, teto orçamentário e até a renovação de Charles Leclerc por cinco anos.

Assista ao trecho completo abaixo:

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