Asa traseira flexível é novo embate entre Red Bull e Mercedes nos bastidores da Fórmula 1

A polêmica deflagrada pelas imagens que mostraram a asa traseira da Red Bull de Max Verstappen flexionando durante a passagem pela reta do circuito de Barcelona abriu uma nova fenda na relação já bastante corroída entre a equipe chefiada por Christian Horner e a Mercedes

Verstappen assume liderança da F1 após vitória: assista aos melhores momentos do GP de Mônaco (GRANDE PRÊMIO com Reuters)

Max Verstappen liderou 54 das 66 voltas do GP da Espanha, disputado em 9 de maio no circuito de Barcelona. Em boa parte da prova, o holandês teve Lewis Hamilton no seu encalço. Ao fim da corrida, o heptacampeão contou que havia aprendido “muito sobre Max e a Red Bull”, sobretudo quanto à pilotagem do seu maior adversário neste ano e também sobre o comportamento do RB16B. Com ‘olhos de lince’, o heptacampeão conseguiu notar uma pequena flexão da asa traseira do carro guiado por Verstappen — vista também pelos fãs mais atentos em imagens veiculadas ao longo da prova — durante as passagens pela reta dos boxes. Nascia, então, mais uma polêmica na Fórmula 1.

Depois do motor da Ferrari em 2019, visto como suspeito e até irregular, do carro-clone da Racing Point, apelidado de ‘Mercedes rosa’ pela clara inspiração da equipe de Silverstone no W10 e do DAS, sistema de direção de eixo-duplo, apresentado como grande novidade pela Mercedes em 2020, a asa flexível traseira do carro da Red Bull é o centro das discussões técnicas sobre eventuais irregularidades na Fórmula 1 em 2021. E serve, acima de tudo, como mais uma peça do pano de fundo da batalha que travam taurinos e a Mercedes nos bastidores.

MAX VERSTAPPEN; GP DA ESPANHA; BARCELONA; F1;
A asa traseira do Red Bull RB16B é a polêmica da vez na Fórmula 1 (Foto: Getty Images/Red Bull Content Pool)

A guerra fria entre Red Bull e Mercedes já não é de hoje, embora tenha se intensificado muito neste ano em razão de as duas equipes serem as grandes protagonistas na luta pelo título. O filme ainda está na retina de muitos e remete a julho do ano passado, no fim de semana de abertura da temporada 2020, quando a Red Bull acionou a FIA para protestar contra o engenhoso DAS da Mercedes. O episódio foi retratado também na terceira temporada da série ‘Drive to Survive’, da Netflix. A entidade rejeitou os argumentos do time liderado por Christian Horner e liberou o sistema, acionado pelo volante, mas o barrou para 2021.

A chiadeira nos bastidores da Fórmula 1, principalmente por meio da Mercedes, traz como base o artigo 3.8 do regulamento técnico. Diz o dispositivo que todos os componentes que influenciam o desempenho aerodinâmico de um carro, como asas dianteiras e traseiras, devem ser rigidamente fixados à peça inteira suspensa do carro e permanecer imóveis em relação à peça saltada do carro.

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Mudanças? Só na França. E dá-lhe mais chiadeira

A Red Bull alega estar totalmente em conformidade com as regras, até mesmo porque as peças foram todas aprovadas nos testes de deflexão, promovidos pelos delegados técnicos da FIA (Federação Internacional de Automobilismo), no começo da temporada. Entretanto, sem fazer qualquer acusação ou ilação, a entidade emitiu uma diretriz técnica para informar sobre a mudança nos testes para torná-los mais rígidos.

Polêmica sobre a asa traseira flexível da Red Bull foi deflagrada em Barcelona (Vídeo: Reprodução)

Essa diretiva vai valer a partir do GP da França, em Paul Ricard, a ser realizado entre 18 e 20 de junho. Ou seja, o GP do Azerbaijão, neste próximo fim de semana, em teoria a Red Bull vai poder usar a tal asa. Mas o período de mais de um mês para que as peças sejam submetidas a uma nova avaliação revoltou a Mercedes e a McLaren, cliente de motores da fábrica alemã, que também reagiu de forma negativa e igualmente veemente.

“É incompreensível que dentro de quatro semanas você ainda não consiga tornar rígida uma asa traseira para a pista que provavelmente é a mais afetada em caso de uma asa traseira flexível. Isso nos deixa em terra de ninguém porque a diretriz técnica diz que o movimento de algumas asas traseiras foi julgado excessivo”, bradou Wolff. O chefe da Mercedes fez menção ao trecho de quase 2 km de pé embaixo do circuito urbano de Baku, em que uma asa flexível pode fazer grande diferença.

Wolff, inclusive, ameaçou ir até os tribunais para questionar a legalidade da peça usada pela rival. “Atrasar a introdução, por qualquer motivo, nos deixa em um vácuo jurídico e deixa a porta aberta para protestos. Não somos nós, apenas, mas provavelmente duas equipes que são mais afetadas, talvez mais. Provavelmente, um protesto poderia terminar no Tribunal Internacional de Apelação da FIA, e essa é uma situação complicada, que pode levar semanas antes de termos um resultado. Não deveríamos ter deixado terminar nessa situação”.

Andreas Seidl, chefe da McLaren, fez coro ao discurso de Wolff sobre o hiato antes da nova diretriz técnica sobre os novos testes de flexão.

Max Verstappen é o líder da temporada 2021 do Mundial de Pilotos da F1 (Foto: Red Bull Pool Content/ Getty Images)

“Discordamos veementemente do momento da introdução. Para nós, não há motivo para atrasar mais duas corridas [Mônaco e Azerbaijão] e dar aos caras que projetaram seus carros para que essas asas flexíveis tenham mais duas corridas tirarem proveito disso. Do nosso ponto de vista, o que esses caras estão usando é claramente contra a regra”, criticou.

“Estamos em diálogo com a FIA no momento e é uma boa oportunidade para ela mostrar uma mão forte aqui e não aceitar mais isso de hoje em diante”, declarou o alemão.

Troca de farpas, fofoca e trucada

Se já havia um desconforto nos bastidores depois de a Red Bull contratar vários funcionários da Mercedes para reforçar sua nova divisão de motores, as cutucadas dos dois lados só colocam ainda mais lenha na fogueira. Logo depois do GP da Espanha, Hamilton provocou a rival e apontou. “Os carros da Red Bull são muito rápidos nas retas. Eles têm essa asa flexível na parte traseira do carro e assim ganham 0s3”, explicou Lewis em entrevista à Sky Sports britânica.

Helmut Marko, que não leva desaforo pra casa, rebateu. “Toto Wolff disse isso a Lewis para definir o tom. Mas estamos tranquilos. Passamos em todos os testes anteriores e vamos continuar passando nos próximos. Isso mostra o quão sério a Mercedes encara o nosso trabalho. Se voltarmos para o lado psicológico, esperaria um pouco mais de nível do lado de lá”, disparou o austríaco em entrevista ao site alemão F1-Insider.

Christian Horner, chefe da Red Bull, reforçou que o carro taurino está totalmente de acordo com as regras. “Claro que os carros são vistoriados minuciosamente e há testes de flexão, há todos os tipos de testes diferentes que ele precisa passar. A FIA está completamente satisfeita com o carro depois de ter passado em todos os testes, que são bastante rigorosos”, defendeu.

MAX VERSTAPPEN; LEWIS HAMILTON; MÔNACO; FÓRMULA 1;
Polêmica sobre asa traseira da Red Bull é novo capítulo do embate entre Verstappen e Hamilton na F1 (Foto: Mark Thompson/Getty Images)

Para azedar ainda mais o clima, Horner acusou Toto Wolff de fofoqueiro, colocando o chamado ‘fogo no parquinho’ no paddock da Fórmula 1.

“Creio que Toto está mais focado em nossa asa traseira que no ano que vem. Não consigo medir o que ele falou, não sei o que acontece no negócio dele, mas Toto sabe o que está acontecendo nos negócios de todo mundo”, disse.

“Todo mundo projeta e constrói o carro pensando nas regras: e o carro passa nos testes da FIA, mas agora ele está sob avaliações detalhadas. É o fator determinante [que seja aprovado]. Creio que há também o desejo de fazer barulho. Sabemos que outras equipes têm os mesmos problemas que nós, e estão focando num único componente do carro. Acredito que, se as câmeras focassem de outra maneira em nossos rivais, a mesma discussão estaria sendo aplicada para eles”, afirmou.

Horner retrucou a insinuação de Wolff sobre a irregularidade da Red Bull e apontou para a flexibilidade da asa dianteira da Mercedes. Após analisar as imagens da TV, veiculadas também pela Sky Sports, o chefe taurino apontou. “Dá para ver o movimento do contorno da asa dianteira e o flap: começa a desaparecer da imagem e, depois, aparece novamente. Qual é a diferença entre isso e nossa traseira?”, indagou. Helmut Marko endossou o questionamento do comandante.

A Red Bull chamou truco contra a Mercedes e a desafiou para um protesto que envolveria também as outras equipes que lançaram mão de asas traseiras flexíveis: Ferrari, Alfa Romeo e Alpine. Se for para cima contra uma, terá então de ir contra as demais, lembrou o consultor.

É bem provável que toda essa balbúrdia não dê em nada na prática, opinião compartilhada, por exemplo, por Ross Brawn, diretor-esportivo da Fórmula 1.

“Não acho teria sucesso. A FIA tem sido bem consistente com a abordagem dela: eu ficaria surpreso se os comissários fossem contra a opinião da FIA. Acredito que é a versão #27 de asas flexíveis [na história da F1]. Em 40 anos de automobilismo, passei por isso muitas vezes”, afirmou à ESPN da Inglaterra.

O engenheiro britânico considerou que, se a Red Bull teve o carro aprovado antes nos testes de flexão da FIA, então não há muito mais a protestar.

“Tem uma sequência de testes da FIA, e essa é a única forma de determinar os limites do que você pode fazer. Se você passar dos testes e alguns rivais não gostarem, a FIA pode avaliar e dizer ‘é justo’ e dificultar os testes e fazer testes diferentes. Honestamente, não creio que há qualquer motivo para seguir uma rota diferente dessa para resolver o problema, porque não dá para quantificar flexibilidade. O que uma pessoa vê como flexível demais, outra enxerga como OK. Por isso é que existem os testes”, seguiu.

“Se você adicionar um mecanismo qualquer ou alguma outra traquitana, concordo que não é correto. Mas dentro do compliance normal da estrutura de uma asa, não vejo problema”, finalizou.

De qualquer forma, a polêmica da vez serviu para acirrar os ânimos entre as duas grandes protagonistas de 2021. No fim das contas, tudo faz parte do script: claro que o que mais interessa é o que acontece na pista, mas Fórmula 1 sem vaidade e guerrinha nos bastidores é algo que jamais vai existir.

Que venham as cenas dos próximos capítulos.

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