Ferrari se perde (de novo) e vira bomba prestes a explodir na Fórmula 1 2023

A Ferrari tem uma percepção bastante peculiar do carro que colocou na pista em 2023, mas ainda não conseguiu entendê-lo por completo. Dessa forma, o fracasso se avizinha. A verdade é que, sem saber o que esperar da SF-23, como mudá-la? E mais: equipe vermelha atravessa um momento complicado, não só do ponto de vista técnico, mas também humano, na medida em que Frédéric Vasseur, Charles Leclerc e Carlos Sainz parecem falar línguas diferentes

Ao fim do GP de Miami de F1, a Ferrari parecia não compreender muito o que se passara nas 57 voltas da etapa americana. Uma vez mais, o desempenho confundiu pilotos e engenheiros. Ninguém soube explicar a razão pela qual os dois carros se comportaram de forma tão diferente e, ao mesmo tempo, tão semelhante, no sentido de que nenhum foi capaz de mostrar uma performance competitiva. Ao final, a única conclusão possível foi: a escuderia é realmente a quarta força do Mundial, atrás de uma astuta Aston Martin e de uma imprevisível Mercedes. E a impressão é que a esquadra vermelha se perdeu em algum ponto da história e agora não sabe mais como trilhar um caminho seguro em 2023.

É bem verdade que a Ferrari tentou um conceito diferente com a SF-23 e de início ficou claro que havia potencial nas ideias apresentadas pelos italianos. A meta para a nova temporada foi ganhar velocidade de reta, para encarar a Red Bull, sem deixar de atender ao equilíbrio e proporcionar maior eficiência aerodinâmica — característica que marcou o modelo do ano passado, principalmente na primeira parte do campeonato. Neste ano, de fato, foi possível notar uma melhor performance em linha reta — embora não compatível com aquilo que os taurinos fazem. Mesmo assim, um elemento importante e um passo à frente.

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Ainda, é verdadeiro que a SF-23 é um carro muito melhor do que parece, especialmente depois das intervenções feitas durante o GP da Austrália. Tudo bem que a equipe enfrentou problemas no Bahrein e na Arábia Saudita. A confiabilidade levantou dúvidas, mas os engenheiros foram capazes de acertar a configuração e conseguiram alguns avanços em Melbourne. Ali pareceu um momento de virada técnico — porque do ponto de visto da performance dos pilotos foi sofrível, com os erros de Charles Leclerc na largada e de Carlos Sainz na relargada na parte final da prova no Albert Park.

Quatro semanas depois a Ferrari exibiu sinais de que havia encontrado a fórmula para se aproximar da Red Bull. O Azerbaijão a colocou na segunda posição na ordem de forças, simplesmente porque foi capaz de fazer algo que ninguém havia conseguido em 2023: parar os taurinos — ao menos em classificação. Com uma asa traseira eficaz, Leclerc conquistou as duas poles disponíveis em Baku.

De novo, a sensação era de que os ferraristas estavam recomeçando a temporada. Mas aí, na corrida, a equipe austríaca engoliu a rival italiana — ainda assim, o monegasco garantiu o primeiro pódio do ano. Só que o desempenho geral na etapa azeri acabou por deixar mais perguntas do que respostas. Isso porque pareceu evidente que a escuderia só se apresentou melhor por causa da natureza do traçado urbano.

Então, a Fórmula 1 viajou aos Estados Unidos. Há algumas semanas, já se sabia que a equipe de Maranello havia planejado um grande pacote de atualizações e que as peças novas seriam implementadas por partes, entre as etapas de Miami e Espanha. Houve, claro, um questionamento sobre a escolha da Flórida. Sendo uma pista muito singular e, dado o asfalto novo, não se mostrou o melhor lugar para testes. Mas a Ferrari estava segura de que tinha tudo sob controle, só não contava que a corrida nos arredores do estádio do Miami Dolphins fosse expor tanto a fragilidade não só das decisões dentro das garagens, mas também com relação às peças novas e, novamente, sobre o desempenho dos dois pilotos.

O caso é que a Ferrari levou um assoalho revisado — muito diferente do que vinha sendo usado. Também introduziu nova dianteira, incluindo a asa, assim como difusor redesenhado e nova asa traseira. O objetivo era fortalecer a velocidade de reta, mas também gerar downforce para promover um maior equilíbrio geral, na tentativa de conter o crônico desgaste de pneus. É correto dizer que a SF-23 tem velocidade e parece não encontrar mais problemas em curvas de alta. Mas é muito real, por outro lado, entender que o carro ainda é arisco, imprevisível e degrada demais os compostos oferecidos pela Pirelli.

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Charles Leclerc bateu durante o Q3 e perdeu a chance de disputar a pole em Miami (Foto: Reprodução/F1)

Ao fim da corrida, Vasseur sequer soube explicar os resultados. Sainz terminou a disputa em quinto, 40s atrás do vencedor Max Verstappen e pouco mais de 10s depois de George Russell. O espanhol largara da terceira posição e, de início, pareceu ter ritmo para defender a última posição do pódio. O desgaste dos pneus duros, porém, anulou qualquer possibilidade, além de erro próprio no excesso de velocidade nos pits. Porém, essencialmente, a Ferrari não teve ritmo. O mesmo — até pior, na verdade — aconteceu com Leclerc. Depois do acidente na classificação, que lhe tirou provavelmente a chance até de uma pole, o monegasco teve uma performance sofrível, ficou por muito tempo preso atrás de uma Haas e, no fim, ainda foi superado pela Mercedes de Lewis Hamilton.

“No geral, foi um fim de semana difícil e uma corrida complexa, porque no sábado nosso ritmo foi bom, mas ainda não conseguimos juntar tudo que é preciso e, na corrida, as coisas correram praticamente da mesma forma: o primeiro stint foi muito bom para Carlos, que perdeu alguns segundos para os líderes. Já nos dois trechos finais, perdeu muito em ritmo em relação a quem estava na frente. Fomos muito erráticos de carro para carro, volta a volta. Precisamos entender a razão disso”, reconheceu Vasseur aos jornalistas em Miami.

Houve uma clara diferente de performance entre Sainz e Leclerc, assim como a de ambos na comparação dos jogos de pneus. O espanhol sofreu menos com os médios, Charles não pode tirar mais dos amarelos e pareceu mais confortável com os duros. “É nesse ponto que temos de dar um passo à frente. Com Charles, tivemos mais desempenho com os pneus duros, com Carlos, fomos muito melhores com os pneus médios. E mesmo com os pneus iguais, de uma volta para a outra, não têm a mesma consistência e desempenho”, completou o dirigente.

Portanto, a Ferrari sofre de uma grave inconsistência em 2023, porque também enfrenta falhas recorrentes. A degradação excessiva dos pneus é um problema antigo, assim como o desequilíbrio do carro. De um lado, a escuderia não é capaz de entender seu próprio projeto e sequer as atualizações que introduziu. E isso é um problema, diante de uma concorrência forte. Não só dessa excelente Red Bull, da qual os ferraristas não se aproximam, mas principalmente de Aston Martin e Mercedes. A escuderia soma 78 pontos após cinco corridas, contra 102 da esquadra verde. Para os taurinos, a diferença é de enormes 146 tentos. Enquanto isso, Sainz segue em quinto, com Leclerc duas posições atrás.

F1 2023, GP DE MIAMI, CORRIDA, FRÉDÉRIC VASSEUR, FERRARI, AFP
Chefe da Ferrari, Frédéric Vasseur vem encontrando dificuldades no primeiro ano de comando da maior equipe do grid (Foto: AFP)

Há um trabalho grande a ser feito em Maranello, sem dúvida. A etapa americana foi decepcionante e deixou um sabor amargo. Porque, mais uma vez, mostrou que há uma questão ainda mais delicada: o elemento humano. Vasseur, no papel de líder, precisar tomar as rédeas, enquanto os pilotos também têm contas a acertar, sobretudo Leclerc.

O monegasco tem como grande característica o arrojo, especialmente em volta lançada, mas a impaciência com o carro que tem nas mãos também está fazendo com que isso se torne um ponto fraco. Charles bateu em Baku e duas vezes em Miami, além de outros incidentes neste começo de temporada. O comportamento arredio e os erros seguidos já o afastam de qualquer possibilidade maior em 2023 e podem ainda custar seu futuro.

Por outro lado, os pilotos também têm lá suas razões de reclamar e já não escondem a insatisfação com essa espécie de diva que virou a SF-23. Sainz se queixou de uma limitação estratégia da Ferrari, por causa dos pneus, e apontou também incômodo com a performance do carro, enquanto Leclerc falou em dificuldades “insanas” para compreender o desempenho. “É incrivelmente complicado”, disse.

Ao fim e ao cabo, a Ferrari vive nos holofotes e sob pressão. A cobrança pesa sobre todos os ombros. Portanto, sem performance, a equipe mais tradicional do grid está por um fio — a irritabilidade dos pilotos no rádio e as feições de chefes e engenheiros exibem com clareza que o momento é delicado e complexo. A escuderia corre contra o tempo, mas também contra si própria, e essa é uma batalha ainda mais árdua.

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