Hamilton nega conversa com governo do Rio sobre autódromo: “Só entregaram camisas”

Mais de dez meses após oficiais do governo do Rio afirmarem que apresentaram projeto ambiental para Hamilton, hexacampeão negou tudo

Em dezembro de 2019, a prefeitura do Rio de Janeiro anunciou que tinha apresentado o projeto de autódromo de Deodoro para Lewis Hamilton. Acontece que, nesta quinta-feira (8), na coletiva oficial de imprensa da FIA, em Nürburgring, o hexacampeão mundial garantiu que jamais participou de conversas neste sentido com oficiais do governo do Rio.

A história começou quando Hamilton mostrou preocupação com a ideia de uma nova pista no Rio de Janeiro, na semana do GP do Brasil do ano passado. Semanas depois, em Abu Dhabi, estiveram presentes o então secretário municipal de Ordem Pública, Gutemberg Fonseca, e o senador Flavio Bolsonaro (Republicanos-RJ) para uma reunião com Chase Carey, presidente da F1, acerca da situação do desejado autódromo. JR Pereira, diretor-executivo do consórcio Rio Motorsports, também esteve presente.

“Ao término do encontro, os representantes do Brasil foram recebidos pelo hexacampeão Hamilton, a quem apresentaram a parte ambiental do projeto do autódromo de Deodoro, que, além de sustentável, terá um grande cinturão ambiental para resgatar e preservar a vegetação e a fauna nativas”, afirmou a prefeitura em comunicado. Uma foto ao lado de Flavio Bolsonaro ainda rodou a imprensa brasileira.

Lewis Hamilton com o senador Flavio Bolsonaro durante o fim de semana do GP de Abu Dhabi de 2019 (Foto: Reprodução/Instagram)

Entretanto, quando questionado sobre o assunto em Nürburgring, mais de dez meses depois, Hamilton afirmou que não houve qualquer conversa sobre autódromo ou corrida. Desmentiu, pois.

“Não acho que eu me reuni com eles para falar da corrida”, afirmou. “O encontro que nós tivemos era para me darem algumas camisas, ou alguma coisa assim. Não houve discussão sobre qualquer GP”, garantiu.

Depois disso, reiterou ser contra o projeto. “Amo Interlagos e conheço o Rio, é um lugar lindo, lindo. Derrubar [árvores] – e não conheço todos os detalhes -, apenas ouvi que seria uma corrida sustentável, mas o mais sustentável que pode ser feito é não derrubar nenhuma árvore. Especialmente num momento que estamos lutando contra uma pandemia e uma crise global. Não acho, pessoalmente, que o desmatamento seja uma decisão inteligente. De novo: não tenho todos os detalhes, mas não é algo que eu, pessoalmente, sou a favor”, falou.

Importante destacar que o representante do prefeito Marcelo Crivella (Republicanos-RJ) neste encontro, Gutemberg Fonseca, deixou a secretaria na última semana para trabalhar na estratégia digital da campanha de Crivella à reeleição e de outros candidatos bolsonaristas pelo estado do Rio de Janeiro.

Na semana passada, o GRANDE PRÊMIO trouxe a informação sobre uma carta-lobby enviada por Carey ao governador em exercício do Rio de Janeiro, Cláudio Castro (PSC-RJ), afirmando que esperava apenas a liberação das licenças ambientais de Deodoro para confirmar o acordo com a Rio Motorsports para o evento no Rio. A carta mostra a intervenção direta do executivo de uma empresa estadunidense em assunto de interesse local.

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Entenda o caso


O processo de construção do autódromo na região militar é alvo de suspeitas pelo envolvimento da citada Rio Motorsports, de José Antonio Soares Pereira Júnior, que virou JR Pereira para evitar expor os problemas judiciais que enfrenta desde que uma de suas empresas, a Crown Processamento de Dados, acumulou dívidas superiores a R$ 25 milhões à União.

A Rio Motorsports, através do próprio JR Pereira e de uma das companhias vertentes da Crown, acabou participando da regulação do processo de licitação da obra, algo que qualquer ente público proíbe. Ainda, nunca houve comprovação, por parte da Rio Motorsports, da origem dos mais de R$ 800 milhões inicialmente previstos para a obra — na região da floresta do Camboatá, área de Mata Atlântica.

A promessa da Rio Motorsports era tirar o GP do Brasil de Interlagos já a partir de 2021. A proposta ganhou apoio do presidente Jair Bolsonaro, que, em 24 de junho do ano passado, disse que era “99% certo” que a corrida passaria a ser realizada no RJ. O projeto do novo autódromo de Deodoro segue parado.

Os últimos meses foram marcados por intensa batalha judicial envolvendo o licenciamento do autódromo. É que ainda em maio a juíza Neusa Regina Larsen de Alvarenga Leite, da 14ª Vara da Fazenda Pública, suspendeu a audiência pública para apresentação do EIA/RIMA [Relatório de Impacto do Meio Ambiente] referente à tentativa de construção da pista na região do Camboatá.

Meses e liminares depois, em meio a uma pandemia de coronavírus, o prefeito Marcelo Crivella pediu ao STF (Supremo Tribunal Federal) a realização da audiência pública virtual. O governante obteve êxito.

Em agosto, na audiência pública virtual que durou mais de dez horas e atravessou a madrugada, o Ministério Público Federal e o Ministério Público Estadual do Rio de Janeiro concluíram que o projeto de autódromo de Deodoro é ilegal por conta do impacto ambiental em área de mata atlântica, além do processo de licitação irregular.

A carta do lobby de Chase Carey

Carta enviada por Chase Carey ao governador do Rio de Janeiro pede liberação das licenças ambientais (Foto: Reprodução)

O calote da Rio Motorsports


O acerto entre Liberty Media e a Fórmula 1 aconteceu pouco menos de um mês depois de o GRANDE PRÊMIO noticiar o calote que a empresa, chefiada por JR Pereira, deu na Dorna, organização que promove e organiza a MotoGP, para os direitos de transmissão na televisão brasileira, repassados aos canais Fox Sports.

A exibição do Mundial de Motovelocidade ficou ameaçada por conta da falta de pagamento e só teve sequência depois de um acordo que envolveu a Dorna e o Grupo Disney, dono da Fox Sports e da ESPN no Brasil, por intermédio da ESPN da Argentina, com o pagamento da dívida contraída pela Rio Motorsports e com a assinatura direta de um acordo de seis anos, sem a participação da empresa chefiada por JR Pereira.

Direitos de transmissão no Brasil

A Fórmula 1 vai ter uma nova detentora dos direitos de transmissão no Brasil a partir de 2021: a Rio Motorsports, empresa que almeja levar a etapa brasileira do Mundial de volta ao Rio de Janeiro. O contrato firmado com o Liberty Media é de cinco anos de duração. O acerto engloba transmissão em canais abertos, por assinatura e também via streaming, além do lançamento da F1TV Pro, seriço on-demand da F1.

Apesar da negociação acertada, a Rio Motorsports tem de dar garantias financeiras até o início de novembro, pois o acordo inicial trata-se de uma carta de intenção. O caso é similar do que ocorreu meses atrás no Cade, quando o empresário JR Pereira apresentou-se como comprador do Fox Sports, mas não apresentou as garantias necessárias para sacrementar o negócio.

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