Opinião GP: Red Bull ganha sabendo que podia mais e Mercedes se vê no poço em Baku

O GP do Azerbaijão trouxe sentimentos muito semelhantes e, ao mesmo tempo, diferentes para as duas equipes que dividem o protagonismo em 2021. A Red Bull venceu, mas deixou Baku com um sabor agridoce na boca, enquanto o saldo para a Mercedes é muito negativo, embora o resultado em si não tenha sido tão ruim

Acidente do líder, erro do campeão e vitória de Pérez: os melhores momentos do GP do Azerbaijão (GRANDE PRÊMIO com Reuters)

AS RUAS DE BAKU não só proporcionaram o resultado mais surpreendente da temporada até aqui, como também injetaram uma dose providencial de drama à disputa do título. Tudo o que aconteceu no Azerbaijão neste domingo (6) ainda vai repercutir por alguns dias, talvez meses, porque há muito o que se falar sobre os protagonistas e do que pode acontecer daqui para frente, em um campeonato tão equilibrado quanto o de 2021. E a primeira grande sensação é a de que Red Bull e Mercedes deixaram a corrida azeri com sentimentos muito parecidos, mas, ao mesmo tempo, muito sombrios também.

A equipe austríaca fez um trabalho belíssimo durante o fim de semana. Ainda que não tenha tido a classificação que imaginava, diante do carro bem acertado e versátil possui, Max Verstappen e, especialmente, Sergio Pérez tiveram uma atuação primorosa logo depois que as luzes no grid se apagaram. Largando do sexto lugar, o mexicano pulou para quarto, depois terceiro e alcançou Verstappen, que já havia superado o pole Charles Leclerc, que caía para o quinto posto. A dupla taurina vinha comboiando pacientemente o líder Lewis Hamilton. Isso foi até a janela única de pit-stop, entre as voltas 12 e 13. A operação dos energéticos nos boxes foi precisa e devolveu ambos à frente do heptacampeão, até com alguma folga.

Daí em diante, Verstappen controlou a corrida, com Pérez mantendo Hamilton atrás – enfim, a Red Bull sorriu pela contratação do mexicano. Tudo caminhava muito bem até o acidente com Max, com cinco voltas para o fim. O estouro do pneu traseiro esquerdo, em plena reta, jogou o holandês no muro e lhe tirou a chance de ampliar a vantagem no Mundial. A desolação invadiu as garagens da Red Bull. Nem tudo estava perdido, porém. A direção de prova acionou a bandeira vermelha, e isso acertou o curso da história.

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Max Verstappen perdeu a corrida ganha em Baku após estouro de pneu (Vídeo: F1)

Ainda que restassem dois giros para o fim, os pilotos foram para uma relargada parada. Segundo colocado, Hamilton saltou bem, mas um erro ao acionar um comando da configuração de freio colocou tudo a perder. O inglês passou reto na primeira curva e abriu caminho para o triunfo de Pérez – o primeiro com a Red Bull e o segundo da carreira.

De fato, a vitória foi um alento e um ótimo sinal para Sergio. No entanto, é um triunfo agridoce. A verdade é que os taurinos viram pontos importantes desaparecem no furo de pneu do carro de Verstappen. O traçado ardiloso do Azerbaijão havia se revelado uma enorme oportunidade para a Red Bull. Antes da batida, os austríacos possuíam 44 pontos na mão – 25 + 18 + 1 ponto da melhor volta –, mas ficaram com pouco mais da metade apenas. E além e talvez o mais doloroso, a esquadra das latinhas sabia que poderia alugar um apartamento na cabeça da Mercedes com uma diferença considerável nos dois campeonatos.

Deste ponto de vista, a esquadra chefiada por Toto Wolff respira aliviada. Pode não parecer, principalmente diante do equívoco de Hamilton e da falta de ritmo de Valtteri Bottas, mas o time alemão até saiu no lucro, apesar da conquista da adversária, que, no fim das contas, deixou escapar pontos importantes.

A boa notícia é que Pérez se mostrou muito mais confortável no carro. O mexicano pediu cinco corridas para se adaptar e parece ter cumprido a promessa. Se seguir com o mesmo rendimento que apresentou em Baku, será presença constante na ponta da tabela, e isso é uma dor de cabeça para a Mercedes. Afinal, os heptacampeões não estão acostumados a derrotas seguidas.  

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Sergio Pérez festeja sua segunda vitória na F1, a primeira com a Red Bull (Foto: Getty Images/Red Bull Content Pool)

E o problema é que a Red Bull desperdiçou pontos não por problemas com seus pilotos, como aconteceu com a Mercedes. Portanto, um olhar em profundidade revela elementos mais sombrios. O primeiro ponto é o carro. O W12 segue uma ‘pequena diva’. A equipe enfrentou dificuldades para acertar a mão em Baku. O aquecimento dos pneus foi uma questão, assim como a configuração aerodinâmica. Ainda que tenha conseguido tirar performance ao longo da corrida, especialmente nos trechos de maior velocidade, Hamilton não foi páreo para o RB16B. Bottas, por sua vez, desapareceu. O finlandês foi muito mal na classificação e, na prova, perdeu rendimento e não foi capaz de se recuperar. Sequer entendeu o que tinha de errado. E esse cenário se fez presente desde a sexta-feira, quando o chefão Wolff disse que havia algo “fundamentalmente errado”.

O sábado até amenizou a tragédia que se anunciava na véspera, mas o resultado foi pior que o de Mônaco. Tanto é verdade que o dirigente disse mais tarde que os erros e a má performance da Mercedes são “simplesmente inaceitáveis”.

Há outros aspectos que também são inaceitáveis. O próprio nórdico. Bottas não tem como alegar que o carro não ia a lugar nenhum. Com um carro que não vai a lugar nenhum, tinha de ao menos pontuar. Só que jamais esteve perto dos pontos. A questão é que Valtteri só apareceu no campeonato no Principado – e, mesmo assim, na visão da chefia, foi sua a culpa pela porca presa por 97 horas.

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Lewis Hamilton errou na relargada e ajudou Sergio Pérez a vencer o GP do Azerbaijão (Foto: Getty Images/Red Bull Content Pool)

Wolff não precisa de tanto tempo assim para decidir se vai manter o finlandês em seu carro no ano que vem, mas é possível que gaste este tempo analisando se vale a pena continuar com ele ainda nesta temporada. Além disso, a discrepância de rendimento entre Bottas e Hamilton pode também custar o campeonato, principalmente em um momento em que a dupla rival parece mais coesa.

Por fim, o erro de Hamilton foi bobo, mas ele não pode se equivocar dessa maneira. E sabe disso. A longa conversa que teve com os engenheiros, ainda dentro do carro, logo depois de parar no parque fechado, é uma prova. O inglês falou em “maratona”, mas sabe da importância de não jogar fora chances como as deste domingo.

Ainda assim, o fator positivo é que Mônaco e Azerbaijão, em que pese a diferença de traçado, são pistas de rua, com particularidades que se adaptaram melhor com a Red Bull, mas que acentuaram os defeitos da Mercedes. A temporada parte agora para circuitos mais normais, como Paul Ricard, Red Bull Ring e Silverstone. Então, é a chance de o time alemão sair do poço e retomar das rédeas de seu destino. Ou corre o risco de sucumbir.

A Fórmula 1 volta em duas semanas, com o GP da França, em Paul Ricard.

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