Retrospectiva 2023: Frio, Piastri ignora pressão e é melhor novato desde Hamilton
Em uma categoria que massacra seus novatos com pressão e expectativas além do normal, Oscar Piastri ignorou tudo isso e mostrou qualidades que indicam o nascimento de uma grande estrela da Fórmula 1
Veloz, confiável e frio. Na Fórmula 1, tais características costumam ser motivos de elogio e comumente são destacadas em pilotos mais experientes no esporte, como Fernando Alonso, Lewis Hamilton e Max Verstappen. Em grau menor, é claro, já que não estamos falando de um campeão do mundo, os atributos também podem ser aplicados a um novato — quem nem parece tão novato assim — do grid. Falamos, evidentemente, de Oscar Piastri.
Talvez o nono lugar do Mundial de Pilotos não chame tanta atenção, mas o desempenho de Piastri ao longo do ano é algo a se destacar — e muito. Em um esporte que divide em prateleiras tão distantes o último nível de formação, na Fórmula 2, com o ápice, que é estar na Fórmula 1, Oscar ignorou o histórico recente de anos decepcionantes dos novatos e atraiu o rótulo de protagonista.
A única vitória da McLaren em 2023, ainda que tenha sido em uma corrida sprint, veio com ele. Naquele fim de semana do Catar, um dos mais exigentes fisicamente da história da Fórmula 1, o novato colocou a exaustão no bolso e levou a corrida sprint antes de terminar em segundo na prova principal.
Após o triunfo, sorrisos, claro, mas nenhuma comemoração efusiva. A frieza de Piastri chama ainda mais atenção do que sua velocidade. Parece saber até onde pode ir e, por isso, não se deixa levar pelos momentos bons e também não se abate nos ruins. É, certamente, uma joia especial.

E a pressão de se estar na Fórmula 1 pela primeira vez, tão comum e óbvia a todos os novatos, foi diferente para o australiano. Depois de um ano que envolveu uma batalha judicial para se desvincular da Alpine e ir para a McLaren, Piastri precisava mostrar que a empreitada da equipe de Woking valeu a pena. E o início da temporada não mostrava exatamente isso.
Talvez seja impensável falar isso para quem olha o Mundial de Construtores apenas no fim do ano, mas o fato é que a McLaren começou a temporada com um carro horrível. No Bahrein, o abandono de Piastri e o 17º lugar de Lando Norris — que repetiria o resultado na segunda prova, na Arábia Saudita — deram o tom do que viria a seguir na primeira metade de temporada dos ingleses.
Com pouca competitividade, a equipe sofria para ir ao Q3 e precisava se recuperar ao longo das provas. Os primeiros pontos só vieram na Austrália, casa de Oscar, com um sexto lugar de Norris e um oitavo para Piastri. Ainda assim, o carro passava longe de indicar momentos felizes a seus pilotos.

A partir da Áustria, tudo mudou. Com uma atualização robusta, a McLaren ensaiou a entrada em uma nova realidade, algo que se consolidaria até o fim do ano. E Piastri aproveitou. Passou perto do primeiro pódio em Silverstone, mas a estratégia da equipe não ajudou e os pneus duros não aguentaram a pressão de Hamilton. Mesmo assim, Oscar segurou George Russell até o fim na outra Mercedes e comprovou que o ritmo estava lá.
Depois de mais uma boa corrida, partindo para cima de Hamilton na largada do GP da Hungria, Piastri executou uma ótima prova na sprint chuvosa do GP da Bélgica — em que chegou a liderar — e subiu ao pódio pela primeira vez, só atrás de Verstappen. Na corrida, uma espremida de Carlos Sainz encerrou suas chances logo na primeira curva, e a sensação foi de que daria para fazer muito mais novamente.
É claro que o ano também apresentou seus altos e baixos. Mas foi impressionante ver o quanto Piastri se aproximou de Norris — a joia da McLaren — ao longo de toda a temporada, a ponto de incomodar o britânico várias vezes. Não foi incomum que Lando recorresse ao rádio para pedir passagem ao australiano, que se equiparou ao companheiro de equipe em muitos momentos — mesmo com uma distância considerável de experiência entre ambos.

No Japão, veio o primeiro pódio, emendado com outros dois no Catar — vitória na sprint e segundo lugar na corrida principal. A pressão de desempenhar na equipe que mais evoluiu durante o ano estava lá, e Oscar entregou. A cobrança de ter saído da Alpine de forma litigiosa ainda sem nenhuma corrida na F1 também pesou, e Oscar também entregou.
Em uma categoria que se acostumou a ‘pegar leve’ com novatos, principalmente pela disparidade entre seus dois principais degraus, a Fórmula 1 viu o surgimento de algo que não se via desde 2007, com a estreia de Hamilton. É claro que nunca se esperou que Piastri brigasse pelo título, mas o australiano deixou claro que é especial. Fez menos pontos e subiu a menos pódios que o mais experiente Norris, mas venceu — algo que Lando ainda não conseguiu fazer.
Exalando atributos que não se encontram em novatos atualmente, Piastri atraiu os olhares do mundo em 2023. E, com a mentalidade de quem parece não se deslumbrar, quem pode dizer até onde o australiano vai chegar no futuro?
Com a temporada encerrada, a Fórmula 1 retorna apenas no ano que vem, no dia 2 de março, com a estreia do campeonato no GP do Bahrein.
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