Na Garagem: Rossi chuta, derruba Marc Márquez no GP da Malásia e acaba punido

Em 2015, a amizade entre Valentino Rossi e Marc Márquez chegou ao fim após o italiano acusar o piloto da Honda de atuar em favor de Jorge Lorenzo na briga pelo título da MotoGP

HÁ CINCO ANOS, A MOTOGP VIVEU UM DOS DIAS MAIS INFAMES DA HISTÓRIA. No GP da Malásia de 2015, Valentino Rossi e Marc Márquez levaram a inimizade a um outro nível, culminando com um acidente que teve consequências reais na disputa pelo título daquele ano.

Para entender o que aconteceu naquele 25 de outubro, é preciso voltar alguns dias, mais precisamente no GP da Austrália. Phillip Island foi palco de uma corrida espetacular, no maior estilo Moto3, e teve o vencedor definido apenas nos metros finais depois de pelo menos 52 ultrapassagens entre o quarteto líder, com Marc Márquez batendo Jorge Lorenzo. Então no comando do Mundial, Rossi acabou fora do pódio, superado por Andrea Iannone.

Quatro dias depois, na coletiva de imprensa prévia à corrida de Sepang, Rossi surpreendeu ao acusar Márquez de atuar em favor de Lorenzo na disputa do título. Bicampeão da MotoGP àquela altura, Marc não vinha em um grande ano e o protagonismo era dividido entre a dupla da Yamaha, com o italiano liderando a disputa na maior parte da temporada.

Marc Márquez e Valentino Rossi travaram um duro duelo na Malásia (Foto: Repsol)

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“Se tivermos outra corrida como Phillip Island, teremos de falar com ele, com Márquez, porque durante a corrida foi mais difícil de entender, mas depois que assisti a corrida, ficou claro que ele brincou bastante com a gente”, disse Rossi, sentado justamente ao lado do piloto da Honda. “Pois, especialmente, acho que a meta dele não era só vencer a corrida, mas também ajudar Lorenzo a escapar e somar mais pontos do que eu. Então acho que desde Phillip Island, ficou claro que Jorge tem um novo apoiador. Que é Marc”, seguiu o italiano.

“Isso muda muita coisa, pois com certeza Marc tem potencial para escapar sozinho [na ponta] e certamente seria outro tipo de corrida”, ponderou.

Sentado à direita de Rossi, Lorenzo parecia um tanto incrédulo, coçando o queixo. Questionado se achava que estava sendo ajudado por Marc, o espanhol ironizou: “Sim, especialmente na última volta”.

Iannone, por outro lado, concordou com Rossi, e entendeu que o piloto da Honda brincou com os rivais na corrida australiana.

“Foi uma corrida incrível, claro. Mas também acho que Marc brincou com a gente! Depois de 15 voltas, após a curva 5, mesmo muito lento, eu o passei com facilidade. Mas não sei o motivo. Ele tem um ótimo ritmo e aquilo foi estranho, mas não sei”, comentou Andrea na época.

Márquez, que chegou a rir enquanto Rossi fazia a surpreendente declaração, negou que estivesse apoiando Jorge na disputa entre os dois.

“É claro que não. Eu fiz a minha corrida e, se quisesse ajudar Lorenzo, não teria ultrapassado na última volta, não teria forçado ao limite e nem corrido o risco. Não sei do que eles estão falando”, respondeu. “Eu já disse, e também vemos pelos dados, que a Honda força muito o pneu dianteiro e, naquela corrida, era o pneu mais macio que tínhamos. Tive muita dificuldade ao longo de 27 voltas seguidas. É verdade que tentei controlar bem o pneu e que na metade da corrida tentei forçar e abrir vantagem, mas não foi possível”, continuou.

“Mas vocês já sabem que a minha corrida nunca vai ser forçando do início ao fim na primeira posição. Fiz o meu melhor. Fiz a melhor corrida pelo meu time e, para mim, o mais importante é que vencemos”, declarou. “É claro que às vezes você tenta controlar a corrida, mas só vou ajudar se for o meu companheiro de equipe. Se não for, vou lutar pela vitória”, garantiu.

Rossi, claro, não engoliu a explicação e seguiu firme na teoria do chamado ‘biscottone’. A corrida de domingo, contudo, elevou a tensão à máxima potência.

Dono da pole, Dani Pedrosa saiu bem e manteve a ponta, à frente de Márquez e Rossi. Lorenzo chegou a cair para sexto, mas logo reagiu a Iannone e Andrea Dovizioso e se instalou atrás do companheiro de Yamaha.

Jorge Lorenzo falou em ajuda de Marc Márquez e Dani Pedrosa (Foto: Repsol)

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Jorge chegou em Valentino sem demora e tomou a terceira posição, passando a buscar Márquez. O piloto da Honda, então, errou na curva 4, permitindo a passagem de Jorge e facilitando a aproximação de Rossi. Estava armado o caos.

O multicampeão grudou em Márquez rapidamente e os dois começaram a trocar ultrapassagens de forma feroz, sempre tateando o limite. Marc conseguiu um respiro com um erro de Rossi na curva 9, mas, na volta 5, o italiano já estava de volta ao ataque.

Pouco depois, na volta 6, Rossi passou Márquez por dentro na curva 12 e, na tentativa de resposta, com as duas motos inclinadas, a perna de Rossi atingiu o guidão da Honda. Marc caiu e abandonou, enquanto Valentino terminou a corrida em terceiro.

O piloto da Yamaha foi acusado de chutar o rival, o que só fez aumentar ainda mais a polêmica. Rossi, porém, sempre negou que o lance tenha sido proposital para forçar o abandono do espanhol.

A FIM (Federação Internacional de Motociclismo), porém, investigou o incidente e aplicou três pontos de punição a Rossi por ter causado a queda de outro piloto. Como o italiano já tinha um ponto por conta de um incidente em Misano, Valentino teria de largar em último em Valência, a decisão do campeonato.

Na briga pelo título, o italiano famoso pelo número 46 recorreu em todas as instâncias, inclusive no Tribunal Arbitral do Esporte, que não suspendeu a pena provisoriamente a espera do julgamento do caso. Lorenzo, aliás, tentou se meter neste processo na corte de Lausanne, na Suíça, à revelia da Yamaha, mas teve o pedido negado, podendo apenas apresentar documentos.

O polêmico lance do GP da Malásia (Foto: Reprodução)

No Ricardo Tormo, Rossi largou mesmo no fundo do pelotão, enquanto Lorenzo saiu na pole. O multicampeão até conseguiu escalar na classificação, mas Jorge não só já tinha escapado na ponta, como também tinha Márquez e Pedrosa logo atrás.

No fim, Lorenzo levou o título de 2015 por uma vantagem de apenas cinco pontos para o companheiro de Yamaha. Mas até na hora da vitória colocou lenha na fogueira, já que disse à TV espanhola Movistar que a nacionalidade de Márquez e Pedrosa jogou a seu favor na decisão.

“Eles sabiam o que estava em jogo para mim. O fato de serem espanhóis como eu, me ajudou. Me ajudou, pois com certeza, em outro tipo de corrida, eles teriam tentado ultrapassar, o que não tentaram desta vez. Se Valentino estivesse na minha posição e com italianos atrás, eles teriam feito exatamente a mesma coisa. O título tinha de ser para a Espanha”, defendeu.

Valentino e Marc passaram um longo tempo sem se falar, inclusive com o italiano recusando apertos de mão sugeridos por jornalistas. Os dois só voltaram a ter algum tipo de contato no GP a Catalunha de 2016. No fim de semana marcado pela morte de Luis Salom, Rossi cumprimentou Marc após os dois travarem uma disputa na pista que terminou com vitória do italiano.

“A relação não voltará a ser como antes. É normal”, avaliou Rossi. “Mas entendi que era necessário tratar de normalizar as coisas. Depois do que aconteceu este fim de semana, era a coisa certa a se fazer”, completou.

Valentino Rossi e Marc Márquez selaram a paz na Catalunha em 2016 (Foto: Divulgação)

As coisas, então, ficaram relativamente normais até o GP da Argentina de 2018. Naquele dia em Termas de Río Hondo, Marc teve problemas no grid, chegou a rodar pela contramão em plena reta, mas ao invés de largar no pit-lane, como deveria, largou da pista, o que resultou em um ride-through. Como sempre faz, o espanhol começou a escalar o pelotão de maneira desembestada.

Depois de se enroscar com Aleix Espargaró e Franco Morbidelli, o irmão de Álex causou uma queda de Rossi na penúltima curva do traçado. O piloto da Honda acabou punido com o acréscimo de 30s ao tempo de prova, o que o derrubou para 18º.

Ao fim da corrida, o mais velho dos Márquez tentou se desculpar com Rossi, mas acabou barrado por Alessio Salucci, o Uccio, nos boxes da Yamaha.

Duro, Rossi acusou Márquez de estar “destruindo o nosso esporte”.

“Ele veio me atingir de propósito, na minha perna… Dou risada, porque é demais. Não tenho nenhuma relação com Márquez desde 2015, então nada muda. Se ele não me respeita, eu não o respeito, mas respeito é outra coisa. Isso é perigoso. Ele atingiu Aleix… Estamos na MotoGP e no topo do motociclismo. Se todo mundo começar a pilotar assim, seria uma competição de destruição. Talvez sobrasse apenas Márquez no final”, criticou.

Marc Márquez derrubou Valentino Rossi na Argentina em 2018 (Foto: Reprodução)

Márquez, por sua vez, se defendeu e alegou que cometeu um erro na pista molhada de Termas de Río Hondo.

“Cometi um erro involuntário. Atingi uma poça de água. Estava forçando 100%, a pista estava difícil e era difícil ultrapassar. Não fiz nada de propósito e certamente não tentei atingir ninguém”, garantiu.

Aos poucos, o clima ficou menos bélico, mas a relação nunca mais voltou a ser como era antes do GP da Malásia de 2015.

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