SRT: a equipe vencedora do GP da Espanha tem o quê de diferente da Yamaha principal?

Caçula entre as equipes da MotoGP, a SRT faz parte da operação do circuito de Sepang, na Malásia. Escuderia comandada por Razlan Razali conta com duas YZR-M1 na especificação A

A SRT começou a temporada 2020 como protagonista. Caçula entre as equipes do grid, a estrutura comandada por Razlan Razali conquistou no GP da Espanha a primeira vitória de um time satélite da Yamaha na era da MotoGP. E isso apenas na 20ª corrida na classe rainha.

Parte da operação do circuito de Sepang, a equipe desembarcou no Mundial de Motovelocidade em 2015 pela Moto3. Depois, ainda com o nome de SIC, as iniciais do nome em inglês do traçado malaio, estreou na Moto2, em 2017.

Mantendo a linha crescente, a SIC assumiu as vagas da Ángel Nieto (e/ou Aspar) na classe rainha no ano passado e mudou o nome para SRT para estrear na elite do esporte. A equipe, então, se aliou à Yamaha, que tinha perdido a clientela da Tech3 para KTM depois de uma parceria de quase duas décadas.

As YZR-M1 de SRT e Yamaha (Foto: Divulgação)
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Inicialmente, a fábrica nipônica fez mistério de quais motos daria ao time, mas, pouco depois, confirmou que mudaria a tradição de repassar os modelos do ano anterior e que daria a Franco Morbidelli a M1 do ano. Último a chegar à equipe, já que a SRT tentou contratar Dani Pedrosa, Fabio Quartararo foi anunciado com uma moto na especificação B, um passo atrás em relação ao equipamento do ítalo-brasileiro e de Maverick Viñales e Valentino Rossi, mas acabou ganhando um motor melhor após impressionar na pré-temporada. Ao longo do ano, o francês também recebeu algumas atualizações, inclusive as 500 rpm que tinham sido bloqueadas no início do ano para preservar a vida útil do motor.

A performance de Quartararo no ano passado, porém, mudou o cenário. A Yamaha decidiu repassar duas motos do ano em 2020 para a SRT, ainda que a de Franco esteja ligeiramente atrás da de Fabio.

“Estamos felizes em confirmar que chegamos a um acordo aqui em Sepang para que a SRT alinhe duas YZR-M1 na especificação A na temporada 2020”, anunciou Lin Jarvis, diretor da Yamaha, em novembro passado. “A performance de Franco e Fabio foi excelente neste ano, e isso é evidenciado pelos vários resultados que eles alcançaram individualmente e como equipe até aqui”, seguiu.

Na apresentação do time em fevereiro, porém, a SRT revelou que Fabio, que vai para a Yamaha de fábrica em 2021, teria uma moto como a do time oficial, enquanto Morbidelli alinharia uma especificação A.

A diferença exata entre as motos, porém, não foi detalhada, embora a equipe tenha sublinhado que a moto do ítalo-brasileiro é um passo à frente em relação ao ano passado. Mas uma coisa é certa: Morbidelli não conta com o dispositivo chamado ‘holeshot’.

O dispositivo, que foi trazido do motocross pela Ducati, baixa o centro de gravidade da moto e auxilia na largada, já que mantém a dianteira da moto grudada ao chão.

“Só as pessoas na Yamaha sabem o quanto estou pressionando por isso. Acho até que já os irritei com isso”, contou Morbidelli depois da corrida de Jerez. “Lamento, mas, com certeza, é uma peça chave. Perco, pelo menos, dois décimos por largada, e isso é uma desvantagem. Se você quer lutar por bons resultados, precisa largar bem”, afirmou o piloto.

“Então é mais uma arma que posso ter e, de fato, as pessoas da Yamaha estão sendo muito legais comigo, trabalhando nisso, e vão me dar o mais cedo possível”, completou.

Apesar da falta do ‘holeshot’, Morbidelli também vem tirando proveito da melhora da M1 em relação ao ano passado. Franco tem apresentado um melhor desempenho desde a fase da pré-temporada.

Além de duas boas motos, a SRT também se beneficia com uma boa gestão. Razlan Razali costumava acumular o comando dos times nas classes menores com a gestão do circuito de Sepang, função que deixou no início do ano. Foi dele também a ideia de subir para a MotoGP.

“Um dia, em Jerez, nós ouvimos um rumor de que uma equipe da MotoGP estava com problemas. Eu estava sentado com Stiggy [Johan Stigfelt, diretor da SRT] e disse: ‘Quer saber, se for verdade, vamos convencer a Petronas a entrar e montar um time de MotoGP’, já que é o que eles queriam fazer. Eles estavam indo atrás de equipes na MotoGP, tentando patrociná-las, mas, acredite ou não, ninguém os queria, já que tinham um patrocínio. O mais cedo que poderiam entrar era em 2021. Então, enquanto estávamos conversando, eu vi Carlos [Ezpeleta, diretor-geral da Dorna] andando, então corri até ele e disse: ‘Carlos, ouvi sobre esse time, tem algum jeito de fazer algo conosco e a Petronas?’”, contou Razali ao podcast da MotoGP.

“Cinco minutos depois, Carmelo me ligou e disse: ‘Vamos conversar’. Nós conversamos, ele apoiou totalmente e foi isso. Se não estou enganado, depois da corrida em Jerez, eu estava indo para algum lugar e Lin Jarvis estava no mesmo voo! Estávamos andando em direção às nossas conexões, conversando e foi a nossa primeira conversa sobre montar nossa própria equipe. E foi isso. Foi coisa de estar no lugar certo, na hora certa, ver uma oportunidade, trabalhar duro para fazer funcionar e nós fizemos. Acho que levou quatro meses”, revelou o dirigente.

Além disso, o time conta com a experiência de Wilco Zeelenberg como gerente da equipe. O holandês tinha comandado a equipe da Yamaha no Mundial de Supersport na conquista do título de 2009 e, no ano seguinte, mudou para a MotoGP para chefiar a equipe de Jorge Lorenzo. Antes de ir para a SRT, trabalhou ao lado de Viñales.

Outro acerto da SRT veio com os chefes de equipe: Ramón Forcada, que trabalhou com Lorenzo, está desde o ano passado com Morbidelli, enquanto Diego Gubellini comanda os mecânicos e técnicos de Fabio. Diego, aliás, tinha trabalhado com Franco na Marc VDS na estreia na MotoGP.

Em síntese, o segredo da SRT é simples: boas motos, bons pilotos e boa gestão.

A relação entre ambas é similar às outras equipes satélites com suas marcas?

Na MotoGP, não é incomum que as fábricas tenham uma grande proximidade com as equipes satélites. A Ducati talvez seja quem melhor explorou essa relação ao longo dos anos, especialmente quando mais precisava avançar no projeto da Desmosedici. Hoje, por exemplo, Jack Miller e Francesco Bagnaia, titulares da Pramac, são contratados direto pela casa de Bolonha. O mesmo acontece com Johann Zarco, que corre na Avintia, equipe que estreitou os laços com a fábrica vermelha neste ano. O francês, porém, corre com uma moto defasada.

No ano passado, inclusive, Miller testou pela primeira vez na Tailândia o dispositivo ‘holeshot’, que só depois chamou a atenção na equipe de fábrica.

No caso da LCR, a Honda usa Cal Crutchlow também para desenvolver a moto. O britânico costuma atuar ao lado de Marc Márquez no processo de evolução da RC213V. O inglês e Takaaki Nakagami são contratados direto pela HRC.

A Tech3, por sua vez, tem uma relação quase umbilical com a KTM. Recentemente, Hervé Poncharal, chefe do time de Miguel Oliveira e Iker Lecuona, deu uma entrevista ao site britânico Crash.net para falar sobre a chegada de Danilo Petrucci e contou que foi proibido por Pit Beirer, chefe da divisão esportiva da KTM, de diminuir a importância da escuderia francesa.

“Há dois anos que ele me diz para não chamar a minha equipe de equipe Junior. Eu sei que eles querem comunicar isso mais e mais, e a verdade é que as quatro motos de 2020 são completamente idênticas. Os quatro pilotos vão ter a mesma especificação, o mesmo apoio e as mesmas evoluções juntos”, disse Poncharal.

Satélite x fábrica

No caso da Yamaha, essa relação próxima é relativamente uma novidade. Nos anos da Tech3, não era praxe dar motos do ano ao time privado, ainda que Pol Espargaró tenha subido para a MotoGP com um contrato direito com o time dos três diapasões.

E essa mudança foi, também, uma pressão dos pilotos, especialmente de Rossi, que entendia ser útil para a evolução do protótipo ter diferentes pilotos com o mesmo equipamento.

E, a julgar pela evolução conseguida com a YZR-M1 para 2020, é justo dizer que a tática funcionou.

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