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GRAZIE,
DOTTORE!

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O amor do italiano pelo Mundial de Motovelocidade é uma marca indelével de uma das trajetórias mais impactantes do esporte mundial

// Análises

// Rossi, um amor sem fim pela MotoGP Por Juliana Tesser

Ninguém amou mais a MotoGP do que Valentino Rossi. Pode até ser que alguém tenha amado tanto quanto, mas o amor do italiano pelo Mundial de Motovelocidade é uma marca indelével de uma das trajetórias mais impactantes do esporte mundial.

Nas 26 temporadas em que esteve no campeonato principal do motociclismo, Rossi escreveu uma história de vitórias e recordes, mas também de derrotas, momentos difíceis e até de tragédia. Foi na pista que conquistou nove títulos mundiais, mas também foi ali que ele próprio testemunhou a morte de um dos amigos, o italiano Marco Simoncelli.

Rossi viveu a transição de 500cc para MotoGP, teve duelos memoráveis com Max Biaggi e Sete Gibernau, acompanhou de perto a chegada e até a aposentadoria dos talentosíssimos Dani Pedrosa, Casey Stoner e Jorge Lorenzo e ficou por tempo o bastante para ver surgir aquele que ainda hoje é a maior ameaça aos seus recordes e números: o espanhol Marc Márquez.

Valentino guiou motos de 125cc, 250cc, 500cc, 990cc, 800cc e 1000cc. Passou por 29 circuitos, venceu em 23 deles e só não conheceu os pódios do Red Bull Ring, de Portimão e de Buriram.

O #46 ganhou mais corridas do que qualquer outro ― superando com folga o lendário Giacomo Agostini ― e também foi mais vezes ao pódio do que qualquer um, com 199 top-3, contra os 114 de Lorenzo, o rival mais próximo. Rossi tem a incrível marca de 375 GPs disputados na elite do esporte, 127 a mais que Alex Barros, o segundo na lista de largadas na classe rainha.

O ‘Doutor’ defendeu três das principais marcas da MotoGP, fez história com Honda e, principalmente, com Yamaha, e marcou um ponto de virada na trajetória da Ducati com uma passagem desastrosa por Borgo Panigale.

Rossi perseguiu com unhas e dentes o sonho do décimo título, mas deixa as pistas mantendo vivo o recorde de títulos de Agostini, que faturou oito vezes a taça das 500cc. De certa forma, uma justiça até meio poética com um dos desbravadores deste esporte.

O italiano de Tavullia inspirou toda uma geração de pilotos, mas também ajudou a criar herdeiros. À espera do primeiro filho ― uma menina com a modelo Francesca Sofia Novello ―, Vale vai parar deixando seguidores como Franco Morbidelli, Francesco Bagnaia e Luca Marini. Com a Academia de Pilotos VR46, o filho de Graziano Rossi e Stefania Palma fomentou o esporte da Itália e criou oportunidades para uma talentosa geração de italianos, dando um impulso extra para que seus conterrâneos desafiem o poderio espanhol da atualidade.

Rossi foi longe no esporte, mas foi também quem levou a MotoGP mais longe. Há quem diga que o heptacampeão da classe rainha é mais do que um filho da Itália e é verdadeiramente um cidadão do mundo. Onde quer que o Mundial vá, Valentino está sempre em casa, já que conta com um apoio maciço de uma multidão vestida com um inconfundível amarelo.

Com um jeito brincalhão e sorridente, o italiano cativou mais e mais fãs ao redor do mundo e permitiu que as corridas de moto alcançassem pessoas que talvez não as conhecessem de outra maneira. Rossi criou herdeiros dentro, mas fora das pistas também.

Rossi amou como ninguém. E foi esse amor desmedido que o levou a desafiar a história e as probabilidades. Conhecedor profundo do esporte que pratica, o piloto correu conscientemente contra os recordes e tomou para si muitos deles. Mas, mais do que isso, buscou desafios para manter acesa também a chama da paixão.

A mudança de Honda para Yamaha representa um dos capítulos mais bonitos do esporte. Ao trocar uma moto vitoriosa por um projeto que tentava renascer, Valentino traçou novas bases para o motociclismo. Ele provou por A + B que a moto não faz tudo sozinha, mas o piloto também não. Valentino mostrou que o motociclismo, mesmo sendo individual, é um dos mais coletivos dos esportes, já que quem trabalha nos bastidores é tão decisivo quanto quem está montado em cima da moto.

Rossi venceu. E muito. Mas não venceu sozinho. Venceu com Jeremy Burgess, Alex Briggs, Brent Stephens, Matteo Flamigni, Masao Furusawa, Davide Brivio, Lin Jarvis e tantos outros. Venceu com cada um daqueles que o acompanham pelos circuitos do mundo, mas também com aqueles que ficavam nas fábricas buscando maneiras de afiar as motos que ele conduzia ao limite.

Vale se reinventou uma porção de vezes e se recusou a dar-se por vencido outras tantas. Quando a Ducati parecia tê-lo aniquilado, o italiano buscou o caminho de volta para a Yamaha e, mesmo em menor número do que na fase anterior da carreira, venceu de novo.
Rossi transformou o estilo de pilotagem quando jovem e aceitou o desafio de mudar uma e outra vez para acompanhar a força das novas gerações. O Rossi de 2021 não foi, nem de longe, o mesmo competidor que todos nós conhecemos, mas é alguém que luta contra a fúria imbatível do tempo para viver um pouco mais de um amor absolutamente arrebatador.

Valentino fez pela MotoGP algo que poucos fizeram por suas modalidades. Ele pode até não se autoproclamar, mas certamente desempenhou um papel similar ao de Michael Jordan no basquete, de Pelé no futebol, de Kelly Slater no surfe, de Tony Hawk no skate, de Michael Phelps na natação, de Usain Bolt no atletismo, de Simone Biles na ginástica, de Teddy Riner no judô e de Muhammad Ali no boxe.

Além de grandes campeões, esses são exemplos de atletas que romperam barreiras, que saíram do nicho e alcançaram horizontes mais amplos. E esse é um dos legados mais importantes da trajetória de Valentino Rossi no Mundial de Motovelocidade.

O amor dele pela MotoGP sempre foi visível aos olhos do espectador. E foi assim que cativou a todos. Rossi forneceu nutrientes e sementes, e a MotoGP passará anos a fio colhendo os frutos que ele ajudou a semear.

Rossi brilhou, mas também fez a MotoGP brilhar. A aposentadoria de um dos maiores certamente vai mexer com o Mundial, mas só o tempo vai poder dizer em que medida. O certo é que o próprio piloto ajudou a facilitar essa transição. Afinal, um pouquinho dele segue em cada fã, em cada piloto e em cada profissional que ajudou a atrair para o esporte.

Valentino sonhou e nos fez sonhar. Valentino amou e nos fez amar. O amor é o maior dos legados de um gigante da MotoGP.

// Não vi Pelé. Mas vi Messi.Por Rodrigo Mattar

Não vi Pelé. Mas vi Messi.

A frase pode parecer ― e é ― lugar comum quando se fala do maior esporte do planeta. E comparar dois dos maiores jogadores de futebol da história ― há quem diga que são exatamente os dois melhores ― não é o que faremos. Mas é boa a analogia entre o Rei do Futebol e o fenomenal argentino, hoje do Paris Saint-Germain, quando o assunto é Valentino Rossi e Giacomo Agostini.

Pois é: em 14 de novembro, uma página em duas rodas terminou de ser escrita. Foi o dia em que o ‘Doutor’ deixou definitivamente o guidão de uma motocicleta de competição. O maior fenômeno da MotoGP nos tempos modernos se aposentou aos 42 anos de idade, deixando lembranças maravilhosas na memória de todos nós.

Esqueçam o Rossi dos últimos campeonatos. Talvez ele não tenha percebido que já era o momento de deixar o esporte ―, mas nem eu, muito menos você, leitora ou leitor desse artigo, pode mensurar o que se passava na cabeça da lenda italiana. A decisão, tornada pública na véspera de uma das corridas disputadas no circuito austríaco do Red Bull Ring, estava na cabeça de Vale desde o inverno europeu.

Lembremos do Valentino que arrebatou fãs pelo planeta inteiro, com seu carisma inexcedível, sua excelência ao pilotar motocicletas de diferentes fabricantes, cilindradas e potências, passando das 125cc com que estreou ainda imberbe em 1996, com dezesseis anos apenas e que tinham no máximo 70 cavalos de potência, até os monstruosos protótipos da MotoGP de hoje, que alcançam velocidades espantosas, por vezes superiores a 350 km/h.

Sentiremos saudade daquele piloto que redefiniu até o conceito de guiada de uma motocicleta, freando e contornando curvas tirando um pé da pedaleira ― estilo que todos os outros seguiram. Que comemorava suas vitórias com homenagens e alusões muito bem-humoradas, por vezes bizarras, e até com boneca inflável ‘Claudia Schiffer’. Que tirou Max Biaggi e Sete Gibernau do sério. Que protagonizou duelos fantásticos não só com esses dois, mas também com Alex Barros, Casey Stoner, Loris Capirossi, Dani Pedrosa, Jorge Lorenzo e, por fim, Marc Márquez ― e este tirou Valentino do sério.

A Dorna tem muito a agradecer pelo que Rossi fez pela MotoGP. Não só pelas conquistas, pelos títulos em todas as categorias que disputou ― 125cc e 250cc, hoje extintas, 500cc e sua sucessora, a MotoGP ―, mas principalmente pelo fenômeno, pelo esportista que sempre foi e pela idolatria que fazia até a torcida rival reconhecer quando Valentino era superior aos ‘da casa’.

A batalha no GP da Catalunha contra Lorenzo em 2009 é uma das mais belas páginas da história do esporte, bem como o embate contra Gibernau em Jerez de la Frontera alguns anos antes, na mesma Espanha: na época eu trabalhava no SporTV e estava na ‘retaguarda’ da transmissão. Pois eu jamais esqueci a narração épica de Sergio Mauricio naquela última volta em que Rossi, sutilmente, tirou o então piloto da Honda no caminho.

E como esquecer de Laguna Seca, do que Rossi fizera com Casey Stoner, no lendário trecho da curva Crockscrew, a famosa ‘Saca-Rolha’? Pensam que é só Alex Zanardi que fez misérias com Bryan Herta? Nada disso: Valentino fez uma ultrapassagem cinematográfica sobre o australiano na corrida realizada em 2008 na pista da Califórnia, de se aplaudir de pé.

É difícil também não recordar da 100ª vitória, alcançada em 2009 no GP da Holanda, na catedral da Motovelocidade, o circuito TT Assen: na época, foram 12 anos e 313 dias desde o primeiro triunfo na pista de Brno, na Tchéquia, até aquela conquista histórica ― e que fez muitos apostarem que Valentino alcançaria a marca recorde de vitórias na história do Mundial de Motovelocidade.

Porém, o piloto fez a única aposta errada de sua carreira: entre 2011 e 2012, guiou para a Ducati e nunca se adaptou às exigências da Desmosedici. Pior ― ainda sofreu uma grave fratura num acidente em Mugello e só foi ao pódio três vezes, sem nenhum triunfo, portanto. No retorno à Yamaha, desde 2013, foram três vice-campeonatos (poderia ter elevado seu total de títulos para doze) e mais 10 vitórias. Chegou ao total de 115 triunfos ― só que o último foi em 2017 e lá se vão quatro anos.

Faltaram só sete conquistas para Valentino igualar outra lenda viva da Motovelocidade em todos os tempos. Também italiano e hoje com 79 anos, além de um herói da modalidade, Giacomo Agostini foi um sobrevivente numa época de muitos riscos e altíssimo perigo na condução de motocicletas de competição, já que a segurança era precária.

Não obstante, ‘Ago’ foi um fenômeno. Entre 1964 e 1977, ano em que deixou as duas rodas rumo a uma tentativa malsucedida de se tornar piloto de Fórmula 1 ― e o máximo que alcançou foi a série britânica Aurora AFX Series ― conquistou incríveis 15 títulos mundiais, levou um deles (o de 1968) de forma invicta na classe 500cc e registrou o recorde de 122 vitórias, sendo 68 com as motos 500cc e 54 na extinta 350cc. Na Fórmula 1, quando comecei a acompanhar a categoria máxima, achava incrível que houvesse um piloto com 27 vitórias ― era o recorde de Jackie Stewart, que vinha desde 1973. Mas os anos passaram e a marca caiu. Começou com Alain Prost, depois veio Michael Schumacher e agora, Lewis Hamilton, que atingiu 100 triunfos.

Talvez as circunstâncias tenham impedido que Valentino Rossi fizesse o mesmo, que fosse capaz de alcançar e superar Agostini.

Mas, pensando bem, e daí?

Quando a gente olhar para o retrospecto daquele quarentão nascido em Urbino, com seu 1,82 metro de estatura, considerado alto demais para guiar uma motocicleta, veremos que os números falam por si só da excelência dele como esportista. Cento e quinze vitórias (76 delas na MotoGP, mais que Agostini) em mais de 400 GPs disputados, 65 poles e 235 pódios.

Só podemos agradecer por testemunhar a história tendo sido escrita diante de nossas retinas.

E também pelo sucesso dele pós-MotoGP como piloto, sendo dono de equipe, mantendo a parceria com a Yamaha ― que entra na Moto2 em 2022 ― ou, dizem, passando às quatro rodas. De vez em quando, Rossi arrisca umas participações em provas longas de Grã-Turismo: por que não sonhar com a presença dele numa corrida lendária feito as 24h de Le Mans, por exemplo?

Não vi Giacomo Agostini. Mas vi Valentino Rossi.

Para mim, o maior piloto sobre duas rodas que eu conheci.

// Rossi, entre os imortais.por Thiago Arantes

A civilização humana é uma vitória dos comuns. Uma das premissas da vida social é o conceito de que todos somos iguais. Na história universal, há mais fatos e lugares do que nomes. É difícil, em meio a bilhões de semelhantes, ser diferente.

No esporte, o fenômeno se repete. Poucos chegam ao topo. Pior: à medida que o tempo passa, dizer que um atleta foi “grande”, “de alto nível” ou até mesmo “campeão mundial” começa a parecer pouca coisa.

Afinal, a menos que haja algum fato fora da curva — uma guerra ou uma pandemia, por exemplo — quase todos os esportes terão um campeão mundial, no mínimo, a cada ano. Daqui a 500 anos, haverá centenas de campeões mundiais, e as enciclopédias teriam de ocupar prédios inteiros. Isso se ainda existissem enciclopédias, papel e prédios (nunca se sabe), daqui a 500 anos.

Portanto, para destacar quem é verdadeiramente distinto, os títulos não bastam. Grandes atuações, também não. Para estar nos livros (?) de daqui a 500, 1.000 ou 10 mil anos, é preciso ter verdadeiramente feito algo diferente. Ter feito história, de verdade.

Não há uma receita que transforme um ídolo esportivo em imortal, mas é possível pensar em algumas características que colocam uns poucos muito acima dos demais. Tentemos fazer uma lista: 1) número impressionante de títulos; 2) sensação de invencibilidade; 3) longevidade; 4) caráter revolucionário; 5) aposentadoria digna.

Comecemos pelo primeiro ponto. As três Copas do Mundo de Pelé, por exemplo, continuam inigualáveis, assim como as 28 medalhas olímpicas de Michael Phelps. As 91 vitórias e 7 títulos mundiais de Michael Schumacher também pareciam destinados a durar um século, até que apareceu o fenômeno Lewis Hamilton.

Mas, se um dia Schumacher não fizer mais parte do item 1 (ele ainda faz), seria muito mais difícil não o enquadrar no item 2. No início dos anos 2000, a parceria entre o alemão e a Ferrari tornou a F1 tão monocromática que foi preciso mexer nas regras. Houve quem chamasse de monotonia e dissesse que as corridas estavam “chatas”. As dinastias são assim: de uma beleza de difícil apreciação.

Ainda no item 2, há outros exemplos ainda mais impressionantes. Na luta greco-romana, o lutador russo Aleksandr Karelin passou 13 anos sem ser derrotado (1987-2000), tendo conquistado três medalhas de ouro olímpicas no período. Mais do que isso: entre 1994 e 2000, ninguém conseguiu marcar um ponto contra ele. O judoca francês Teddy Riner conseguiu feito parecido: 154 vitórias seguidas, em dez anos sem uma única derrota. No boxe, a lista de pugilistas que passaram a carreira invictos tem mais de uma dezena de nomes, com destaque para Floyd Mayweather, que venceu todas as suas 50 lutas em 19 anos de carreira.

As quase duas décadas de carreira de Mayweather nos levam ao item 3: longevidade. Estar no topo de algum esporte pode, em alguns poucos casos, ser fruto de circunstâncias. Há épocas em que algumas modalidades ficam carentes destes gênios —o que só aumenta a importância deles, quando eventualmente surgem.

Ficar por muitos anos no ponto mais alto é um desafio físico e psicológico brutal. Afinal, motivar-se para ser o maior é comum, mas continuar um caminho sem ninguém adiante é quase antinatural. Foi o que fez de Usain Bolt, recordista mundial dos 100 metros, um ícone: por quase uma década, ele dominou um esporte em que os campeões costumavam surgir e desaparecer a cada ciclo olímpico.

O sorriso de Bolt escondia algo muito maior, e aqui chegamos ao penúltimo item de nossa lista. Com 1,95m, uma largada ruim e uma amplitude de passadas muito diferente dos adversários, o jamaicano mudou os parâmetros da prova mais rápida do atletismo. Vencendo, gesticulando e dançando, Usain foi um revolucionário de um esporte em que as revoluções são cada vez mais raras — a mais conhecida delas havia acontecido na década de 1960, quando Dick Fosbury teve a ideia de saltar de costas em uma competição de salto em altura. Fosbury foi campeão olímpico em 1968, e a partir de então todos os campeões olímpicos e mundiais saltaram como ele.

A modalidade de Bolt e Fosbury também foi responsável pela revolução em outros esportes. A impulsão de Michael Jordan, a resistência de Pelé, o preparo físico de Ayrton Senna. Todos, impulsionados por muito treino, criaram novos padrões. Depois de Jordan, os jogadores de basquete passaram a saltar mais; o futebol pós-Pelé ganhou velocidade e quilômetros percorridos; os esforços físicos de Senna tiraram quaisquer dúvidas de que os pilotos de F1 eram, sim, atletas.

E, por fim, o fim. Encerrar uma carreira vitoriosa é quase tão difícil quanto todos os pontos anteriores. E aqui, retomemos alguns dos exemplos. Karelin se aposentou depois perder o ouro em Sydney-2000, porque não queria manchar a carreira com derrotas seguidas. Pelé poderia ter jogado a Copa de 1974, e talvez a 1978, mas preferiu dizer adeus à seleção e ao Santos. Bolt foi descansar e curtir a aposentadoria sem dar ao mundo uma imagem de derrota: ninguém jamais verá o jamaicano chegando em sexto numa final olímpica.

Esses cinco pontos, 13 parágrafos, 840 palavras e 5.054 caracteres nos fazem chegar a Valentino Rossi.

O italiano, agora um ex-atleta aos 42 anos, consegue preencher cada um dos cinco requisitos —arbitrariamente definidos por este escriba — para a imortalidade esportiva. Em um parágrafo, é possível resumir (em modo enciclopédia) a carreira de Rossi citando todos esses pontos que definimos como fundamentais para a gestação de um ídolo esportivo imortal.

Vejamos:

Valentino Rossi foi nove vezes campeão mundial, sete delas na principal categoria da motovelocidade, e conquistou 115 vitórias. Entre 2001 e 2005, ganhou cinco Mundiais seguidos, dominando a fase inicial da MotoGP. Durante a carreira de 26 temporadas, o italiano se destacou, além das vitórias e títulos, por um estilo único, dentro de fora das pistas. Da maneira de frear e entrar nas curvas até as épicas comemorações, passando por toda uma vanguarda estética, “Il Dottore” mudou a técnica de pilotagem, a imagem dos pilotos e a relação da MotoGP com a mídia e o público. Aposentou-se aos 42 anos, competindo em alto nível contra rivais que cresceram vendo suas vitórias.

Quantos outros conseguiriam tanto, em tão alto nível, por tanto tempo? As respostas são poucas, e algumas delas estão nos parágrafos anteriores. Haverá alguma a mais, outra a menos, de acordo com os gostos e análises de cada um.

Em uma entrevista recente, Valentino explicou a origem de seu consagrado apelido: como o sobrenome Rossi é muito comum na Itália, muitas piadas começam com “Il dottore Rossi…”. Uma versão italiana de “O Joãozinho…”, ou na variante lusitana, “O senhor Manuel…”.

Não deixa de ser curioso. Um dos mais excepcionais atletas de nossos tempos se consagrou com um apelido que faz alusão a algo comum. A Itália está cheia de “dottori Rossi”. Gordos, magros, altos e baixos; com vidas mais ou menos interessantes, todos parte da engrenagem (necessária, diga-se) que faz a civilização funcionar.

Afinal, já sabemos, a civilização humana é a vitória dos comuns. Até que alguém prove o contrário, e faça com que nós, os normais, acreditemos que é possível —ainda que por pouco tempo— fazer algo diferente, especial. Inspirador.

Como fez um “dottore Rossi” em cima de uma moto.

// Valentino deu uma nova cara à MotoGPpor Ubiratan Leal

Nenhum atleta é maior que seu esporte. Nenhum. Mas alguns conseguem levar sua fama a pessoas fora do público tradicional de sua modalidade, a ponto de sua imagem se misturar com a imagem do esporte em si. Isso não é apenas resultado de um grande desempenho técnico ― ainda que resultados convincentes sejam importantes no processo ―, mas também de trazer elementos novos que atraiam novos olhares para aquelas competições. Foi o que fez Valentino Rossi na MotoGP.

Para o fã de motovelocidade, Rossi era o cara dos nove títulos mundiais, das 115 vitórias, dos mais de 6,3 mil pontos e dos 23 pódios seguidos. Para o público em geral, que muitas vezes nem sabe a diferença entre a MotoGP e o antigo Mundial de 500cc, Valentino era o sujeito que parecia, no visual extravagante e nas atitudes expansivas, um atleta de esportes radicais. O italiano esbanja carisma, comemora vitórias com seus seguidores, tem marra a ponto de vender-se como “Il Dottore” e, principalmente, passa a imagem de um jovem que quer curtir a vida como tantos outros (com a diferença de ser o melhor da história em sua profissão).

Isso vale ouro. Porque, como ouro, brilha e é raro.

Rossi apareceu e explodiu antes da era dos influenciadores em redes sociais, mas aparecia nas mais diferentes situações, e o fato de ele estar lá atraía mais atenção da mídia. Deu volta em Ferrari, ia em jogos da sua Internazionale e até virou personagem de histórias em quadrinhos. Ele se tornou um atleta capaz de fazer que sua modalidade fosse consumida e repercutisse mesmo entre quem mal viu uma corrida sequer.

Para o esporte a motor, que viveu um dilema da perda de relevância entre os jovens no final da década de 2000 e na década de 2010, Rossi era o garoto-propaganda perfeito. A MotoGP cresceu em um ambiente predominantemente de crise, e conseguiu construir a base sólida em que vive hoje, já com uma nova geração de estrelas jovens e carismáticas (algumas nem tanto, né, Joan Mir?). Algo que nem a poderosa F1 conseguiu, vivendo muito tempo na busca por uma redefinição de imagem diante do público, o que só conseguiu nos últimos anos.

Por isso, quando Jorge Lorenzo comentou o anúncio de aposentadoria de Rossi comparando o rival italiano a Michael Jordan, Muhammad Ali, Tiger Woods e Ayrton Senna, ele não estava errado. Mais que grandes campeões, essas figuras transcenderam os limites da popularidade de seus esportes. Il Dottore fez o mesmo.



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