Retrospectiva 2022: Do efeito-solo ao implacável Verstappen: F1 vive extremos
A Fórmula 1 foi tomada de vez pelo talento de Max Verstappen – o agora bicampeão pulou de patamar e foi responsável pelos pontos altos da temporada. Em contrapartida, o campeonato que prometia maior equilíbrio sucumbiu. Tendo Max como exceção, as principais histórias do ano se resumiram aos bastidores e às salas da FIA. Passado o fim da longa jornada, a partir desta segunda-feira (12), o GRANDE PRÊMIO relembra e análise o Mundial na Retrospectiva 2022
“Você que lute, 2022”. A frase que encerrou a Retrospectiva 2021 não poderia ser mais certeira – quase profética, diria. É verdade que, naquele momento, estava tudo à flor da pele. Havia sido uma das maiores temporadas da história, com uma decisão catártica na volta final da prova derradeira. De fato, não dava para imaginar um cenário que pudesse ofuscar esse roteiro. Mas existia, sim, uma considerável expectativa para uma nova era na Fórmula 1, impulsionada pelo retorno dos carros de efeito-solo. Imaginava-se uma revanche ou um maior equilíbrio de forças, com a prometida adição de outras peças ao tabuleiro. Nada disso aconteceu, porém. O campeonato que acabou em Abu Dhabi, no mês passado, sucumbiu diante de um regulamento imaturo e cheio de armadilhas, penou no protagonismo indesejado daqueles que sequer deveriam aparecer e falhou em muitos aspectos. Por outro lado, o Mundial pode agradecer a Max Verstappen – o bicampeão não deu brechas e foi o ponto alto de 2022. Para a sorte da F1.
E não dá também para dizer que 2022 não lutou – e isso é o mais doloroso. Quem acompanhou o primeiro embate entre Verstappen e Charles Leclerc logo nas primeiras etapas – Bahrein e Arábia Saudita – até vislumbrou uma reedição de 2021, mas com um novo e faminto protagonista. O monegasco parecia querer ocupar aquele lugar deixado por Lewis Hamilton, uma vez que a Mercedes enfrentava seus demônios, mas a Ferrari e ele próprio tiveram de encarar o fato de que ainda não estavam totalmente prontos para uma disputa dessa magnitude.
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A escuderia de Maranello, que passara quase 2021 inteiro focada no novo projeto, apresentou uma rápida F1-75. A performance estonteante na pré-temporada colocou a equipe então chefiada por Mattia Binotto sob os holofotes. E a vitória logo de cara, em uma contundente dobradinha, sacramentou a imagem de favorita e ainda jogou luz em Leclerc.
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Só que o desenrolar do campeonato revelou fragilidades demais do lado italiano. Então, o que seria um novo e intenso duelo, agora entre nomes de uma mesma geração, se afundou em equívocos e decisões atrapalhadas de um dos lados. Chega ser incrível pensar que Charles foi capaz de abrir quase 50 pontos para Verstappen após as etapas iniciais – a confiabilidade da Red Bull se mostrou um tempero interessante no começo e até um ponto de desequilíbrio. Mas os ferraristas não conseguiram tirar vantagem. Já os taurinos – Verstappen, na verdade – nunca deixaram passar uma chance.
Leclerc perdeu a liderança do campeonato após o GP da Espanha, o sexto da temporada. O monegasco comandava a prova quando o motor da Ferrari apresentou problemas e forçou o abandono – esse script se repetiria mais vezes. Max venceu e não saiu mais do primeiro lugar. Enquanto isso, na garagem vermelha, houve até um esboço de reação, nas vitórias na Inglaterra e na Áustria, mas os erros de toda a sorte tomaram conta do time italiano: estratégia, confiabilidade, pilotagem e chefia. A saída de Binotto acabou sendo inevitável.
Mas se a Ferrari desistiu muito cedo e por conta própria, a Mercedes também teve seu papel ao ser incapaz de entrar na briga. Um regulamento novo é sempre a chance de brilho de um elemento diferente – desta vez, entretanto, as regras tiraram de combate a poderosa equipe alemã, que possivelmente teve uma das piores interpretações do regulamento do grid. O W13 se mostrou inconsistente e manhoso. Com um projeto extremo nas mãos, o time passou mais tempo promovendo experimentos do que realmente competindo na primeira parte do ano. É bem verdade que, sendo quem é, a octacampeã até venceu, mas ficou longe de convencer. George Russell, por outro lado, brilhou, enquanto Hamilton viveu um ano complicado, sem vitórias ou poles. E isso aqui foi um grande golpe para o campeonato, especialmente depois o Mundial gigante de 2021.

Os dramas vividos pelas duas rivais passaram ao largo de Verstappen. O holandês se tornou implacável e não pegou leve com ninguém, nem mesmo com a própria Red Bull. Ainda nas etapas iniciais, quando a confiabilidade era o calcanhar de Aquiles, Verstappen fez duras críticas e chegou a duvidar do título. Mais tarde, já campeão, enquadrou seu engenheiro após uma recusa em ceder posição ao colega de Sergio Pérez, que brigava pelo vice-campeonato.
Max colocou pressão e entregou o que prometeu. Teve atuações avassaladoras quase na totalidade do tempo – talvez somente em Singapura seu desempenho possa ser questionado. Ainda assim, sem grande dano à campanha do bicampeonato, que foi coroado no Japão, com quatro provas de antecedência. O rapaz de 25 anos venceu em 15 oportunidades, com sequências de vitórias impressionantes como entre as etapas da França e Itália. Na primeira parte do ano, o piloto #1 ganhou oito das 13 primeiras provas. Ninguém triunfou mais uma temporada que Verstappen. E isso diz muito sobre o holandês e, de certa forma, sobre seus rivais.
É claro que muito do sucesso da Red Bull, que voltou a conquistar o Mundial de Construtores neste ano, teve a ver com as novas regras. A equipe taurina entendeu como ninguém o efeito-solo e suas pequenas artimanhas. Essa compreensão certeira do grupo técnico comandado por Adrian Newey fez os energéticos abrirem vantagem, mas a ideia vendida com alarde pela F1 era de que o conceito tornaria a disputa mais equilibrada. E é aqui que residente um extremo do ano.
Se Verstappen foi impecável e seguiu em um patamar de desempenho muito acima de seus pares, a mudança no regulamento acabou não cumprindo o que prometeu. Ainda que a inspiração tenha vindo do passado, com suas imperfeições e experiencias, o custo do desenvolvimento foi um enorme entrave. A evolução dos carros se mostrou mais lenta e inconclusiva – a Mercedes que o diga. O resultado é que a F1 ainda vai precisar de alguns bons anos para entender completamente as nuances desse carro, e ainda terá de trabalhar sob gastos menores.

Um dos grandes problemas do conceito do efeito-solo foi o chamado porpoising, ou as oscilações verticais em função da diferença da pressão aerodinâmica entre a parte inferior e superior dos carros. Todo mundo sofreu em algum nível. A Red Bull foi quem melhor lidou com o fenômeno, enquanto a Mercedes enfrentou problemas sérios. A gritante falta de rendimento dos prateados pode ser colocada na conta dos quiques também.
E os saltos foram tão intensos que a equipe alemã pressionou firmemente por uma adequação geral, numa tentativa de se aproximar dos líderes. A imagem de Hamilton deixando o carro com dificuldade após o GP do Azerbaijão foi emblemática. As queixas ganharam outras vozes, como as de Carlos Sainz, Pierre Gasly e do chefão Toto Wolff. Foi aí que a FIA (Federação Internacional de Automobilismo) precisou intervir, mas a maneira que o fez também gerou críticas e chiadeira, especialmente daqueles que haviam controlado o efeito. Foi mais uma das muitas controversas protagonizadas pelos comissários – já chegaremos neles, inclusive.
De toda a forma, a impressão deixada após a primeira experiência dos carros de efeito-solo é que há um longo caminho pela frente até que a F1 consiga entregar aquilo tudo que ostentou no momento da apresentação desse regulamento – que chegou tardiamente em decorrência da pandemia. Algumas corridas foram realmente emocionantes e disputadas, sobretudo no pelotão intermediário, que seguiu compacto, embora o abismo para o grupo da frente tenha ampliado.
Silverstone e São Paulo se destacaram e foram as melhores provas de 2022 – pouco diante de um longo calendário de 22 etapas. Houve GPs interessantes, na combinação estratégia/condição adversa como no Bahrein, Arábia Saudita, Áustria, Canadá. De novo, as sprints não empolgaram, com a exceção de Interlagos – porque o traçado paulistano raramente decepciona.
Outro ponto dessa temporada de extremos é realmente a FIA. A entidade que rege o esporte seguiu atrapalhada – talvez até mais do que em 2021. Agora sob a liderança de Mohammed bin Sulayem, o órgão se envolveu em polêmicas e errou a mão. Seguir com a programação na Arábia Saudita, por exemplo, após um ataque a míssil, a poucos quilômetros do circuito de Jedá, durante um treino livre, foi apenas a cereja desse bolo sem gosto e seco que o Federação serviu.
A direção de prova confusa com dois líderes diferentes acabou por anular qualquer chance de imprevisibilidade. Do trator na pista de Suzuka, em meio a um aguaceiro, à imprecisão na hora de formar um grid com punições ou até mesmo declarar Verstappen campeão adicionaram um irritante capítulo à parte. E esse é outro ponto que precisa ser duramente revisado para o próximo ano.
Além das salas dos comissários, os bastidores foram quentes, mas isso não necessariamente tornou a F1 mais interessante, exceto por um episódio. Antes, porém, é preciso falar da violação cometida pela Red Bull com relação ao teto de gastos. Embora tenha sido mais clara no momento de divulgar as informações, a FIA levou quase o ano inteiro para verificar as contas das equipes. E a punição aos taurinos, ainda que menor do que se especulava, poderia ter sido mais, digamos, exemplar.

Em outro extremo, a troca de pilotos entre Alpine, McLaren, Aston Martin e AlphaTauri foi um daqueles alívios cômicos. Isso porque Oscar Piastri, insatisfeito com a demora dos franceses em tomar uma decisão, resolver cuidar da própria vida. Ao mesmo tempo, Fernando Alonso também optava por um caminho diferente. E quem deu o peteleco nesse dominó foi Sebastian Vettel.
Ao anunciar a aposentadoria, ainda em julho, o alemão desencadeou uma das mais divertidas histórias de 2022. Isso porque Alonso fechou com os ingleses para assumir a vaga do tetracampeão. Horas mais tarde, a Alpine, naturalmente, promoveu seu pupilo Piastri, mas aí a surpresa: o jovem foi às redes sociais desmentir os gauleses, porque, na real, já havia assinado com a McLaren.
Assim, a Alpine ficou sem ninguém numa fração de dias. Foi daí que surgiu a chance de Gasly enfim deixar o grupo energético. Mas até isso acontecer foram semanas de especulações e até um debate nos tribunais – a esquadra azul não aceitou bem a decisão de Oscar.
Por fim, a temporada foi obrigada a se despedir de Vettel. A corrida final em Abu Dhabi não foi estrondosa, mas foi respeitosa. O alemão ganhou até um jantar, organizado por Hamilton, e que contou com a presença de todos os pilotos. Seb merecia um campeonato melhor. Todos merecíamos.
A partir desta segunda-feira, o GRANDE PRÊMIO abre a Retrospectiva 2022 da Fórmula 1.
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