Cinismo mais grotesco possível é aposta da F1 para defender GP da Arábia Saudita
Stefano Domenicali encampou a falta de vergonha da Fórmula 1 defendida e dobrada por Toto Wolff com relação à Arábia Saudita. Talvez achem que o público é burro
A Fórmula 1 é uma fábrica de fazer dinheiro. A capacidade financeira, de arrecadar, gastar e render vem de longe, desde os idos dos anos 1970, quando Bernie Ecclestone passou a tocar o negócio com a ideia de que era possível ser um esporte mais profissional que apenas a brincadeira de playboys com tempo a matar. Durante estes últimos 50 anos, olhou para as possibilidades financeiras e se negou a falar de moral e ética. Era um traço constante, ainda que altamente criticável. Em 2022, porém, a F1 mostrou que há uma fronteira apenas para destruí-la sem qualquer critério semanas depois. Na conclusão de um fim de semana desastroso na Arábia Saudita, o homem encarregado de tomar as decisões, Stefano Domenicali, não quis conversar de fato sobre o que aconteceu. Quis apenas dar uma ordem: não discutam a nossa moralidade. Interditar o debate é sempre um refúgio confortável dos mais cínicos.
Vamos a algo que foi falado em outros programas da casa. Se historicamente a Fórmula 1 se negou a ter qualquer face voltada ao ponto de vista moral, vide, por exemplo, as visitas à África do Sul do apartheid, nos últimos anos as coisas têm ficado diferentes. A criação da iniciativa ‘We Race as One’ veio para mostrar certo interesse, assim como a defesa das medidas ambientais que pretende tomar nos próximos anos, como, por exemplo, terminar a atual década como organização carbono-zero – embora seja plenamente possível argumentar que isso é um artifício de sobrevivência. Teve ainda a dita campanha antirracista ‘End Racism’, essa encerrada na primeira oportunidade, aliás, sem chances de novas manifestações organizadas.
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Culminou neste ano. Correr na Rússia foi rapidamente rechaçado, uma vez que se meter num país em guerra não é aceitável e pega muito mal. O conteúdo geral da decisão foi nesse sentido. Assim, a Fórmula 1 traçou uma linha, uma fronteira, de onde não poderia passar: um país em guerra.
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A ida à Arábia Saudita sempre foi plenamente discutível por fatores diversos que vão desde os abusos dos direitos humanos mais graves – um apartheid contra as mulheres, por exemplo – trabalho na internacionalização de uma linha extremada dentro do islamismo e assassinatos de jornalistas em território internacional – ainda que dentro do consulado saudita. Há um monte de razões para questionar a corrida, mas a fronteira traçada em 2021 dá mais uma.
A Arábia Saudita é, afinal, um país em guerra. Não é um conflito de ocupação, com tanques cruzando os limites do país, mas uma guerra de fato, com bombardeios e um cerco internacional no vizinho Iêmen. É um conflito complexo: a Arábia Saudita organizou uma coalizão e se juntou às forças armadas do país para defender o governo do presidente Abd-Rabbu Mansour Al-Hadi contra os rebeldes Houthis. O conflito começou a arder em 2012, quando o presidente anterior, Ali Abdullah Saleh, que ficou no poder por mais de 20 anos, renunciou ao cargo em meio às pressões populares a governos na região que ficaram conhecidas como Primavera Árabe.

Os números para retratar o desastre do conflito iemenita são muitos. De acordo com a ONU (Organização das Nações Unidas), o conflito no Iêmen já causou 377 mil mortes, 60% causadas por fome, falta de saúde básica e falta de água potável. A estimativa da ONU é que, nos próximos meses, o número de iemenitas em situação de fome passe de 19 milhões – mais da metade da população do país. Segundo a emissora britânica BBC, foram 700 ataques aéreos apenas no mês de fevereiro de 2022. Mais de 10 mil crianças já morreram em consequência dos combates.
É a pior crise humanitária atualmente em curso no mundo e, ainda segundo a ONU, os crimes de guerra da coalizão saudita e dos rebeldes Houthis são diversos.
Para quem aceitou fazer parte do conhecido sportswashing empreendido pelo governo monárquico do país, o que é ignorar uma guerra que causa tamanho sofrimento a um povo árabe? Há uma diferença clara entre Iêmen e Ucrânia: o país da Europa está cheio de europeus.
Agora, mais de uma semana depois, o leitor sabe o que aconteceu. Vários ataques a míssil em instalações logísticas do país, uma delas a refinaria de petróleo da Aramco, patrocinadora da F1, a cerca de 10 km da pista durante o primeiro treino livre, na sexta-feira. Explosão, fumaça, susto e medo. Continuar ou não continuar? A F1 voltou para o TL2 após breve reunião e se reuniu novamente no fim da noite. Entre encontros de F1, FIA, equipes e pilotos, ou apenas dos pilotos, que foram recebendo visitas de tempos em tempos, as conversas foram até 3h da manhã do sábado, no horário local.
Sabe-se que gente como Lewis Hamilton, Fernando Alonso, George Russell, Pierre Gasly e Lance Stroll não queria correr, mas foi convencida de que era o melhor a se fazer porque, de acordo com F1 e equipes, as autoridades sauditas haviam garantido a segurança. Ademais, não dava para assegurar que conseguiriam sair do país antes do domingo mesmo sem a corrida.
Mas por que não? A falta de clareza é grosseira e, francamente, insulta nossa inteligência. O que o governo saudita e suas forças de segurança não sabiam na sexta-feira? O míssil que acertou o objetivo, ao lado da pista, causaria uma tragédia se fosse voltado ao traçado? É acreditar nisso ou que o governo era capaz de proteger a pista até suas bordas e não uma instalação importante logo ao lado. A F1 não estava protegida na sexta? Se era possível proteger aquela área com mais afinco no sábado e domingo, por que permitiram tamanha ameaça na sexta-feira? O ataque não pode ter sido tão surpreendente, visto que os mísseis endereçados ao território saudita apareceram durante toda a semana. Ao que parece, há, aí, um grau de incompetência que passou incólume. A F1 e as autoridades sauditas foram a um país que vem sofrendo ataque constantes colocando a segurança daquela estrutura no desinteresse de rebeldes extremados em atacar alvos civis. Na melhor das hipóteses, uma aposta arriscada.
Sobre não conseguir deixar o país, foi outra afirmação feita e que ficou sem resposta. Por que não poderiam sair? Não haveria malha aérea, não havia segurança ou aconteceu algum tipo de ameaça de retaliação – por exemplo, um atraso forçado na possibilidade de voar para fora dos limites da Arábia? Todas as conclusões da F1 na decisão de correr foram baseadas em informações passadas ao público pela metade.
“Não houve nenhuma tentativa de persuasão da nossa parte, foram apenas boas discussões. Quando os chefes de equipes falaram com os pilotos, acho que o que falamos foi sensato e de forma alguma com pressão, mas talvez as pessoas tenham ficado com outra impressão. No final, o show e o espetáculo foi sensacional, e o que entregamos como esporte foi ótimo. É isso que acho que os esportes devem fazer”, disse Toto Wolff, chefe da Mercedes.
“A Arábia Saudita e alguns países do Oriente Médio têm os mesmos valores que e a mesma cultura que nós na Europa? Não. Eles estão onde querem estar? Não. Será que nós, vindo para cá, podemos dar visibilidade para este lugar através da Fórmula 1 e dar visibilidade para esses temas e transformar em um lugar melhor? Ainda acho que sim. Eu prefiro vir para cá e dar a visibilidade necessária para ajudar a região a se tornar um lugar melhor do que dizer: ‘Não vou para lá, não quero saber disso’”, finalizou.
“Acho que desempenhamos um papel importante na modernização do país”, foi na mesma linha o chefão da F1, Stefano Domenicali.
Wolff defende que ninguém forçou os pilotos a correr e faz coro junto à F1 quando afirma que é importante dar visibilidade para que os países que buscam evolução cultural, seja lá o que isso signifique. Mas sobre isso: exatamente quais as exigências de ‘evolução’ a F1 faz deste regime que nada sofreu mesmo quando a aliada de primeira hora, a CIA, inteligência dos Estados Unidos, revelou que foi o príncipe-herdeiro Mohammad bin Salman o responsável direto por ordenar o assassinato brutal de Jamal Khashoggi dentro de um consulado na Turquia? Nem mesmo com os inúmeros relatórios da ONU sobre a prisão de ativistas pacíficos a favor de reformas políticas no país.
É o mesmo regime que, no início de março desde ano, o alto comissariado da ONU para os Direitos Humanos condenou pela “execução em massa” de 81 presos. “Entre os executados em 12 de março, 41 pertenciam à minoria xiita e haviam participado de manifestações contra o governo em 2011-2012 pedindo para participar mais do processo político, outros sete eram iemenitas e um sírio”, afirmou.
E mesmo com todo o resto. O que é isso que a Fórmula 1 vai fazer que a ONU, mesmo com tantas informações à mão, nunca conseguiu?
O chefão da Fórmula 1, Domenicali, garante que o Mundial não fechou os olhos a tudo que aconteceu no fim de semana – que ainda teve, no âmbito esportivo, mais comprovações de que a pista escolhida é uma armadilha mortal. Mas é o próprio Domenicali quem praticamente garante que a F1 retornará no ano que vem. “Dúvida [sobre o futuro do evento] não é a palavra certa. Precisamos investigar e entender a situação da melhor maneira que pudermos”, disse.
Mas a aspa mais impressionante de Domenicali é outra. “Um ataque terrorista significa que um país está em guerra? Não somos cegos, mas não acho que este seja o ponto de vista correto. Honestamente, ninguém pode julgar nossa moralidade. Onde está a linha, esta é a questão”, declarou, ainda que seja quase inacreditável.

E não dá para esquecer de falar ainda de mais uma parte da declaração do outro grande personagem desta papagaiada, que é Wolff. “É aceitável para nós correr a 10 km de um ataque de míssil? Claro que não. Mas aqui, na cultura deles, isso acontece com frequência. Podemos mudar a situação desse país para melhor? Ainda acho que sim”, comentou. Não há cultura de guerra. Há, sim, guerra. Há, sim, desgraça. E sempre há motivos para compreender os porquês quando é algo que insiste em acontecer. Afirmar que a guerra faz parte da cultura de um povo nada mais é que chamá-lo de animalesco. Daí nascem as declarações daqueles jornalistas brincalhões europeus e americanos que afirmam que a guerra na Ucrânia choca por se tratar de um país civilizado, diferente de outros, como Afeganistão e Iraque – não estranhamente alvos de Estados Unidos e Arábia Saudita num passado recente. A Ucrânia é loira demais para não ser civilizada, enquanto os países árabes têm Xuxa e Caco Antibes de menos para serem considerados como povos de primeira grandeza.
De volta à questão da moralidade: Domenicali está errado. Avaliar a questão saudita e de guerra não é ser moralista, mas moral. É entender onde estão postas fronteiras e sistemas de freios e os motivos. Lá atrás, quando Ecclestone se negava em fazer a F1 olhar para o mundo fora dos autódromos e dos bancos, as críticas eram justas e totalmente necessárias, mas havia clareza. A F1 era ao menos mais honesta e elencava os motivos para ser quem era, ainda que execráveis. Hoje, reina a hipocrisia absoluta e a mentira das meias palavras, porque não há como justificar o injustificável sem pisar na cabeça das práticas que diz valorizar.
O que aconteceu em Jedá foi impraticável, sim, mas é bom que você se acostume. É assim que a banda toca. A Fórmula 1 vai recorrer a esse cinismo grotesco de falar sem abrir a boca sempre que for necessário.
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