Corremos como qual um só? Parabéns, Fórmula 1, pelo novo punhado de dólares alcançado

Ao aceitar os dólares do GP da Arábia Saudita, a Fórmula 1 força o esporte a motor a retomar a discussão sobre o que significa ir para o país, que tenta forçar a narrativa redentora oferecendo muito pouco

Era maio de 2018, dois anos e meio, portanto, antes da Fórmula 1, quando a Fórmula E confirmou que aceitara os dólares e correria na Arábia Saudita. Parte de iniciativa dita progressista chamada Vision 2030, uma estratégia traçada para diminuir a dependência do país no petróleo e, a bem da verdade, vender-se ao mundo como uma sociedade em desenvolvimento e que não merece o repúdio internacional e pode, sim, representar opção de turismo. Dias depois, o GRANDE PRÊMIO trouxe um texto sobre a decisão da categoria dos carros elétricos de explorar as ruas sauditas no ano em que trazia sua nova geração de carros.

‘FE ignora violações dos direitos humanos e mostra verdade inconveniente ao se render à Arábia Saudita: revolução é inumana’

O texto, assinado por este mesmo escriba, tratava de diferentes pontos pelos quais a etapa era um desrespeito. Convido todos a lerem a análise, mas reproduzimos alguns trechos abaixo.

Por baixo dos panos do petróleo, a Arábia Saudita abuso a torto e à direita dos direitos civis mais básicos. Um dos disparates mais famosos é o impedimento das mulheres dirigirem. Embora tal lei tenha data marcada para cair, o próximo mês de junho, o fato disso estar sendo discutido em 2018 é um absurdo com poucos precedentes.

Mas não é apenas isso. Para ocupar qualquer cargo público, casar, obter passaporte e até ter acesso a serviços de saúde básicos, mulheres sauditas precisam ser tuteladas por um homem – normalmente um marido ou parente sanguíneo de primeira geração. Além disso, há um código de indumentária restrito: mulheres precisam usar uma abaya, espécie de vestido longo que cobre o corpo do pescoço até os pés, e véu.

Embora grave, o tratamento de mulheres é apenas uma parte do problema. A homossexualidade e o ateísmo são proibidos e passíveis de penas que vão de multas até chicotadas ou a morte.

Tudo isso é parte de algo maior. A religião oficial da Arábia Saudita é o wahabismo, uma corrente extrema do islamismo. Como maior potência do Oriente Médio, a Arábia Saudita acredita em expandir e internacionalizar o wahabismo.

A questão mais exposta pela comunidade internacional é que o wahabismo é também a origem dos ideais compartilhados por organizações jihadistas como o Estado Islâmico e a Al-Qaeda. A internacionalização compulsória do wahabismo é vista como um problema sério e que facilita o recrutamento de organizações terroristas com visão análoga.

Como não tem um código penal escrito, aplica a Xaria como lei nacional e, desta forma, faz a junção mais agressiva entre estado e religião. Como as regulações não estão escritas, tornam-se subjetivas e deixam qualquer cidadão a perigo de ser enquadrado numa acusação vaga. Um jornalista que critique a família real pode ser encarcerado por “distorcer a reputação do reino”, por exemplo.

Imprensa e ativistas também sofrem sérias censuras na Arábia Saudita. Em janeiro deste ano, a organização Reporters Without Borders condenou a prisão de 15 jornalistas e ativistas sociais nos últimos meses do ano passado, quase todas elas feitas na surdina e sem informações oficiais divulgadas.

Há que se contar ainda os bombardeios, tidos pela Organização das Nações Unidas como ilegais, de uma guerra com o Iêmen que causa o maior surto de cólera já registrado no mundo. Segundo o Human Rights Watch, até setembro do ano passado mais de 2.000 pessoas haviam morrido e mais de 700.000 estavam infectadas pela doença no país vizinho, que tinha ainda cerca de 17 milhões de pessoas em situação de fome. Além da crise humanitária, a aniquilação militar que a Arábia Saudita tem imposto ao Iêmen está abrindo espaço para os grupos jihadistas já citados, sobretudo a Al-Qaeda, historicamente forte na área, ocupar a região.

A largada da Fórmula E na Arábia Saudita (Foto: Fórmula E)

Depois, em fevereiro deste ano, quando o Rali Dakar partiu para sua própria aventura saudita, a brilhante Juliana Tesser apresentou matéria especial sobre o país. Também rememoramos a excelente matéria publicada em GRANDE PREMIUM.

Transformação que sai com água

Tudo isso faz parte do chamado ‘Visão 2030’, um plano apresentado em 2016 pelo príncipe Mohammed Bin Salman que tem como meta reduzir a dependência da Arábia Saudita do petróleo, diversificar a economia e desenvolver setores como saúde, educação, infraestrutura, recreação e turismo.

Para isso, porém, a Arábia Saudita precisa mudar a imagem que tem no mundo. Um panorama que, por sinal, piorou em 2018, após a morte do jornalista Jamal Khashoggi ― torturado, assassinado e desmembrado em outubro do ano passado no consulado saudita em Istambul, na Turquia.

O que diferencia a Arábia Saudita de outros países islâmicos está na interpretação do islamismo. Os sauditas seguem o wahabismo ― de fato, a origem desta vertente está atrelada à formação da própria Arábia Saudita ―, a forma mais rígida e conservadora do Islã.

Conhecido popularmente como a mãe de todos os movimentos fundamentalistas, o wahabismo é, também, o ‘pai ideológico’ do Estado Islâmico. A Arábia Saudita, inclusive, é acusada de ajudar voluntariamente a conseguir recrutas para o grupo terrorista.

Mestre em Ciência pela USP (Universidade de São Paulo) e doutorando em Geografia pela Unicamp (Universidade de Campinas), Edilson Adão Cândido da Silva explicou ao GRANDE PREMIUM que a “corrente wahabista diferencia bastante” a Arábia Saudita dos demais países islâmicos.

“A Arábia Saudita é uma ditadura monárquica teocrática, com forte peso do wahabismo. É o maior representante dessa vertente islâmica, que se pauta por forte conservadorismo dos valores do Islã e é a religião oficial do país”, aponta Edilson. “Realiza uma leitura literal dos tempos de Maomé, tenta aplicá-la aos dias atuais e persegue quem a contraria. Os xiitas, por exemplo, são duramente perseguidos, quando não, executados”, explica o pesquisador.

“A origem dessa corrente reside no século XIX, quando do encontro de duas famílias importantes (Wahab e Saud). Ali nasceu uma aliança indissociável entre os patriarcas dos dois clãs tribais. O ápice se deu nos anos 20 do século passado com a fundação da Arábia dos Saud, ou Arábia Saudita, pelo patriarca, Abdul Aziz ibn Saud, pai do rei atual. O salafismo wahabita dita a conduta comportamental da sociedade por lá”, detalha.

Autor de ‘Oriente Médio: a gênese das fronteiras’ e coautor de ‘Geografia em Rede’, Silva acredita que a Arábia Saudita vai manter sua importância ainda por um longo período de tempo.

“[É] uma potência regional aliada dos Estados Unidos e peça imprescindível no tabuleiro de xadrez geopolítico do Oriente Médio”, fala. “As riquezas petrolíferas do país (atualmente a segunda maior reserva, mas com qualidade do óleo bem superior às venezuelanas, que detém o primeiro lugar) comporão, ainda, por muitas décadas a importância energética mundial, já que o petróleo terá vida longa”, segue.

Estes são apenas trechos de uma matéria extremamente bem conduzida. De fato, uma das melhores que você vai encontrar – na imprensa mundial – entre política e esporte na Arábia Saudita. Recomendamos fortemente a leitura.

O Rali Dakar de 2020 foi na Arábia Saudita. Fórmula 1 é a próxima (Foto: Marcelo Maragni/Red Bull Content Pool)

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De maneira que deixaremos a Arábia Saudita para o fim deste texto. A primeira discussão é sobre a Fórmula 1, a FIA e, francamente, a falta de vergonha na cara. Porque ambas abriram o ano promovendo a iniciativa ‘We Race as One’ ou ‘Corremos Como Um Só’, prometendo mostrar engajamento social, uma vocação adormecida em qualquer corporação de alcance global, mas, no caso da Fórmula 1, uma que foi amplamente desprezada ao longo dos tempos.

A medida foi elogiada, porque se apresentava como uma declaração de interesses para o futuro. Aí, na terceira corrida do ano, a primeira em que encarou uma sede de governo de extrema-direita e pouco afeito a permitir demonstrações sociais, tentou esconder a manifestação dos pilotos, liderada por Lewis Hamilton, que ajoelharam em protesto antirracista e contra a violência policial e racismo endêmico.

Péssimo sinal que seria confirmado na sequência, quando a FIA deixou público o cerceamento de liberdades de Hamilton ao se colocar contra a camiseta que pedia a prisão dos assassinos de Breonna Taylor, nos Estados Unidos – algo que, aliás, não aconteceu ainda. Completou o Carnaval convidando Vitaly Petrov para ser comissário, um prêmio por declarações preconceituosas sem lugar não apenas em qualquer iniciativa social séria que pudesse ser o We Race as One, mas no século 21. No mundo.

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Mais confirmado ainda quando o presidente da Fórmula 1 designado pelo Liberty Media, Chase Carey, agiu como lobista pelo historicamente vergonhoso projeto de autódromo de Deodoro. Mandou carta para o governador em exercício e tudo, recordam? Um projeto que não apenas prevê “cortar árvores”, mas arrisca liquidar diversas espécies de flora e fauna, dificultar imensamente a vida comum de algumas outras, enquanto devasta o único reduto de mata atlântica na cidade do Rio de Janeiro. Ah, e há o perigo real de crescimento de enchentes na região, já que o Camboatá e seus trechos alagados funcionam como grande esponja em períodos de chuvas. Aí, o diálogo é com vidas humanas.

Enfim, Carey, que deixará a presidência, mas continuará honrado com o título de presidente não-executivo da F1 a partir do ano que vem, criou um cenário simples de entender: a Fórmula 1, a irresponsável Fórmula 1, tem sangue nas mãos.

Chamemos a iniciativa social da Fórmula 1 e da FIA do que ela é: uma piada.

A Fórmula 1 está falindo? Não. É evidente que um novo dinheiro cai bem, sobretudo em tempos de crise financeira como este 2020, por conta da pandemia do novo coronavírus. É claro que a situação financeira neste ano não é a mais confortável. Segundo dados publicados pelo Liberty Media, a F1 teve queda do equivalente a R$ 200 milhões de receita no 3/4 de 2020 – julho a setembro – na comparação com o mesmo período do ano passado. O prejuízo foi de R$ 578 milhões. E os dois primeiros quartos do ano foram muito piores em termos de receita, por causa da falta de eventos.

Então, tudo bem, justo, a situação não é um mar de rosas, mas importante ponderar outras coisas. Como a F1 lucrara R$ 244 milhões no 3/4 de 2019 e sofreu um prejuízo de R$ 578 milhões, apesar da receita cair em ‘apenas’ R$ 200 milhões aponta que os débitos também foram empurrados para que fossem pagos quando o mundo competitivo voltasse a girar. Neste cenário, então, a pancada forte no balanço financeiro é momentâneo, fruto de uma concentração incomum de débitos em curto espaço de tempo. É possível que isso se mantenha por algum tempo, mas não para sempre.

E, sim, importante parte do impacto financeiro da Fórmula 1 nos últimos meses está na ausência de público nos eventos. É algo que dificilmente mudará no primeiro semestre de 2021, é verdade, mas conforme as receitas se equilibrarem, ainda que com tal impacto, as dívidas de curto prazo tendem a se assentar. Os gastos gerais serão menores. A Fórmula 1 tem caixa para aguentar o impacto por algum tempo mesmo que as receitas não sejam as ideais pela falta de público e a cadeia que se sucede: diminuição da taxa de algumas sedes.

O calendário para 2021, entretanto, já espera o retorno a certos locais e uma situação normalizada, o que certamente aumentaria a receita tanto pelo pagamento das praças – ainda não em sua totalidade – quanto pelo público que estará presente em ao menos algumas delas e o aceno a locais que pagam os maiores hosting fees – taxas de cidades-sedes. Apesar dos números não serem oficiais, o que se acredita é que o Azerbaijão pague atualmente o equivalente a R$ 333 milhões à F1, maior valor entre todas as praças.

Alguém pode argumentar que o Azerbaijão sedia corrida de rua, ora, então as chances de não realizá-la novamente são pequenas. Bem, a Arábia Saudita também prepara uma pista de rua. Francamente, imaginar que o Azerbaijão não realizará a corrida de 2021 é muito menos provável do que uma manobra para encaixar Baku no calendário.

Cenário da nova corrida da F1 (Foto: Reprodução/Twitter)

Vamos supor, aliás, que a Arábia Saudita tenha oferecido valores semelhantes, então, o que é provável. E também que a Fórmula 1, de alguma forma, não tenha reservas financeiras para aguentar dois anos de tormenta, ainda que o segundo ano seja mais brando que o primeiro – essa parte é extremamente improvável. Sim, é verdade que nos três anos de Liberty Media, a F1 somou prejuízo de R$ 490 milhões, mas com lucro em 2019. Isso tudo apesar do crescimento da receita, algo que o conglomerado estadunidense jogou nas costas de uma atualização grande nas questões digitais. Com isso em mente, 2020 era o ano a começar a lucrar forte. Não vai acontecer.

É verdade que o impacto financeiro é grande, ninguém argumenta contra isso, mas se a Arábia Saudita é vital para a sobrevivência, Fórmula 1 e Liberty deveriam jogar limpo. Apresentar as informações financeiras completas de 2020 e qual realidade esperam para o ano que vem. Não precisariam dizer abertamente que se interessam pelo país somente pela grana forte e vital, mas teriam de parar de tratar as expectativas com alguma normalidade. Seria aceitável correr na Arábia Saudita nestas condições? Cada um poderia tomar as próprias decisões, mas ao menos os fatos estariam na mesa, abertos, e permitiriam as mais diversas conclusões.

Além disso, o anúncio da chegada à Arábia Saudita devia ser com garantias fortes que demonstrem que a Fórmula 1 é que vai submeter o país a exigências importantes, não o contrário. Como pediu a Anistia Internacional, com exigências para que “todos os contratos tenham padrões de trabalho rigorosos em toda a cadeia de abastecimento e que o evento seja aberto a todos, sem discriminação”. Exigências sociais também como, por exemplo, a soltura de presas políticas como a ativista dos direitos da mulher Loujain al-Hathloul. Não apenas presa por brigar pelos direitos de mulher a um governo que priva-as de questões básicas, mas que isolou-a dentro da cadeia e impediu até o contato com a família.

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Aí está maneira de se envolver em política nacional: costurar algum traço de ponte humanitária. Oferecer às presas sauditas plataforma de se manifestar seria um ato nobre.

Ao fim e ao cabo, porém, tudo isso é praticamente inimaginável, porque o endurecimento do núcleo fundamentalista da Arábia Saudita nos últimos anos está ligada intrinsecamente ao príncipe-herdeiro e todo-poderoso de fato Mohammed Bin Salman. Bin Salman acena ao ocidente com benesses climáticas e permissões festivas, como, vejam só, que as mulheres dirijam, mas endurece as questões do dia a dia na sociedade do país. Mais que isso, as mulheres podem dirigir, é verdade, mas precisam de autorização do pai, marido ou parente de sangue homem mais próximo para tanto. O poder de escolha é para inglês – e norte-americano – ver.

Bin Salman não dialoga. Seu Vision 2030 é o plano de abertura que oferece arregos climáticos e pequenas concessões sociais que podem ser tapeadas facilmente quando os gringos olham de lado. Como o dinheiro fala bastante, dólar, (clean) petrodólar ou rial, os gringos estão dispostos a olhar de lado e não olhar de volta não importa quantos massacres no Iêmen, ativistas torturadas ou jornalistas brutalmente massacrados Bin Salman apresente.

Em entrevista nos confins da Casa Branca ao jornalista Bob Woodward, tornado lenda por informar o caso ‘Watergate’ nos anos 1970, o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, afirmou o seguinte: “Eu salvei a pele dele (Bin Salman). Fui capaz de fazer o Congresso esquecê-lo. Eles mandaram US$ 400 bilhões (equivalente a R$ 2.2 Trilhões) para cá num período relativamente curto”.

Ok, vamos lá. Como a maioria das coisas que Trump diz, o valor é uma afirmação que não pode ser confirmada. Na realidade, não há uma definição exata de quanto a Arábia Saudita paga aos Estados Unidos por armas todos os anos. Não se sabe, ao certo, quais as cifras da relação fraternal entre os dois países. Mas esse não é o ponto mais importante dessa declaração. Veja bem: ainda que Trump nada tenha a ver com isso, o congresso dos Estados Unidos realmente deixou Bin Salman para lá, jogou a boia e seguiu a vida.

O congresso norte-americano, recordem, passou de controle do Partido Republicano ao Partido Democrata em 2018. Ou seja, quando até os órgãos de inteligência norte-americanos concluíram que Bin Salman foi o responsável por assassinar Jamal Khashoggi no consulado saudita na Turquia, em 2017, republicanos e, pouco depois, democratas, fizeram esforço concreto para esfarelar a parceria ou forçar Bin Salman a ser escanteado.

Não é uma questão somente de Trump, também: sob Barack Obama os Estados Unidos já estavam mais que felizes vendendo armas para que o governo saudita causasse um caos humanitário no Iêmen. Obama, aliás, até teve seus desencontros com a Arábia Saudita, mas foi ao congresso, em 2016, chamar a família-real saudita de “aliada”. É uma ligação muito próxima e que sobreviveu a diversos presidentes em mais de meio século.

“A Fórmula 1 deveria perceber que o GP da Arábia Saudita de 2021 seria parte de um esforço em curso para limpar o histórico abismal do país no campo dos direitos humanos”, disse Félix Jakens, chefe de campanhas da Anistia Internacional do Reino Unido. “A tentativa frustrada de comprar o Newcastle United obviamente não dissuadiu as autoridades sauditas, que aparentemente ainda vêm o esporte de elite como uma maneira de mudar uma reputação severamente manchada”, seguiu.

O Newcastle United é um clube tradicional de futebol da Inglaterra que foi vítima do assédio saudita por meio de uma proposta do Fundo de Investimento Público da Arábia Saudita, que, obviamente, transformaria o clube numa ferramenta de promoção do governo de Bin Salman. Entendendo a realidade, a Premier League, liga que rege o futebol de clubes no país, criou barreiras intransponíveis para o negócio, que também tinha a ver com questões de pirataria e direitos de transmissão.

É compreensível que Bin Salman e a Arábia Saudita apostem no esporte, no turismo e em discussões climáticas. Transformar o país num reduto de importância verde é saída necessária para a Arábia Saudita, visto que o petróleo não dura para sempre e é a base da forte economia nacional. É a maneira mais simples de transformar a Arábia Saudita num player importante para discussões, digamos, progressistas, sem que tenha de mover suas próprias bases sociais e políticas de maneira desnecessária.

O príncipe-herdeiro da Arábia Saudita, Mohammed Bin Salman, responsável por atrair a Fórmula 1 (Foto: Pinterest)

Recorremos, então, ao livro e série de TV ‘The Handmaid’s Tale – O Conto da Aia’. Na história criada por Margaret Atwood, um grupo fundamentalista toma controle dos Estados Unidos por meio de violentos golpes militarizados. Daí em diante, implantam a sociedade mais medieval imaginável para tempos atuais no que diz respeito aos costumes, sobretudo no tratamento às mulheres e morte coletiva à imprensa. Mas o crivo internacional do tenebroso regime é, claro, o desenvolvimento ambiental. Um paraíso verde que esconde toda a sorte de abusos sociais.

É claro que se trata de história, mas o livro de Atwood lida com uma realidade em distopia que, em diferentes escalas, é buscada, sim, por aí.

Ainda existe, como aqui no Brasil, o fascismo antiquado, que deseja impor as maravilhas de um pútrido regime da maneira antiga, tocando fogo – literalmente, como Amazônia e Pantanal tristemente mostram. Mas há o neo-fascismo, o novo extremismo violento que cresce exponencialmente mundo afora: aquele que se entrega à necessidade ambiental, fundamental, mas apenas para esconder a maneira medieval de tratar costumes. Esses são mais perigosos, porque contam com um verniz de progressismo, como é a Arábia Saudita.

Desnecessário dizer que o cuidado com o meio-ambiente, as iniciativas verdes e a urgência a tratar de reverter as mudanças climáticas é algo central no mundo atual. É o que garantirá o planeta Terra das próximas gerações, e isso não é um erro. O imperdoável é usar disso para esconder seus crimes contra a humanidade.

Não, leitor, a Arábia Saudita não é o único país no calendário da Fórmula 1, da Fórmula E ou de qualquer outra categoria do esporte a motor internacional que comete abusos contra os direitos humanos. Infelizmente, a nojeira humana está divida e distribuída por toda parte. Sim, sabemos dos desrespeitos de vários outros países. Sim, sabemos do Bahrein. Sabemos dos campos de concentração na China e nos Estados Unidos. Já ouviu das milícias do Rio de Janeiro? Conhecemos. Mas a Arábia Saudita representa outro tipo de jogo perigoso.

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