Opinião GP: F1 tem recompensa com início na Áustria e ensaia fase estelar de 2019

Levou quatro meses até que a F1 pudesse colocar seus carros na pista, mas quando o fez, não poderia ter sido melhor. Em um circuito de verdade como o da Áustria, o GP que abriu a temporada teve de um tudo: drama, disputas acirradas, ânimos exaltados e aquilo que a gente mais gosta: a interferência do acaso. Bem-vinda de volta, F1

QUANDO DESEMBARCOU na Áustria no ano passado, a Fórmula 1 tentava de se defender de uma enxurrada de críticas que vinha de todos os lados. O campeonato vivia um novo domínio da Mercedes, mas também sofria com as incoerências dos comissários de pista, com os erros bizarros da Ferrari, com a falta de performance da Red Bull, uma vergonhosa Williams e um abismo entre a F1 A e B. Tudo isso ainda coroado com uma das corridas mais enfadonhas da história: aquele GP da França… Mas aí veio a etapa austríaca, em Spielberg. E talvez inspirada em um bom roteiro, daqueles que entendem o momento exato da virada, a F1 ganhou vida. Em um circuito de verdade, o espetáculo se fez presente quase que sozinho. Há um ano, foi lá que a Ferrari deu sinais de que ainda tinha um coração batendo e foi lá que Max Verstappen e Charles Leclerc assumiram seus papeis neste enredo. A Mercedes foi apenas coadjuvante. A partir dali o Mundial atravessou uma das fases mais fantásticas dos últimos anos. Agora a F1 ensaia beber dessa mesma água.

Depois de quatro meses de paralisação pela crise do coronavírus no mundo, a maior das categorias perdeu praças importantes e precisou revisar todo seu longo calendário. Mas também deu sorte. O Red Bull Ring é particular e está em um lugar onde as medidas sanitárias contra a doença surtiram efeito. Bastava apenas criar protocolos de segurança. E tudo saiu muito direitinho. A F1 abriu a temporada em um traçado tão pequeno quanto ardiloso. E a princípio, como nas boas histórias, parecia que que a coisa andava para um desfecho convencional. Há quem tenha procurado as palavras cruzadas ou um joguinho qualquer no celular em um dado momento. Só que isso não é do feitio de uma pista como essa dos taurinos.

Há sempre uma interferência. E das boas.

A Mercedes segue na frente, mas não é tão imbatível assim (Foto: Mercedes)

Apesar do início, de fato, apontar para uma liderança inatingível dos carros pretos, o calorão, o asfalto quente e as artimanhas do traçado foram decisivos. A Mercedes ainda é superior a suas rivais, tanto que dominou treinos, classificação e corrida, que foi vencida por Valtteri Bottas. Mas há, sim, uma preocupação dentro daquela garagem: a confiabilidade dos motores. As parceiras tiveram problemas e a própria equipe também teve lá seus perrengues. Precisou tirar potência dos dois carros para mantê-los seguros. Quer dizer, os fantasmas do passado ainda assombram os atuais campeões. Talvez em outro circuito essa falha não seria tão evidente. A questão também é que as altas temperaturas do verão europeu vão desempenhar um papel importante, e a Mercedes vai ter de reagir rápido.

Portanto, será interessante ver também como os alemães vão solucionar isso em um espaço tão curto de tempo e em uma corrida que acontece na mesma pista. Só uma temporada tão atípica quanto essa seria capaz de expor assim o calcanhar de Aquiles dos hexacampeões.

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Lewis Hamilton foi punido com 5s por incidente com Alex Albon (Foto: Reprodução)

A Áustria também desfez a imagem de que a Red Bull tem um conjunto para bater de frente com a Mercedes. Apesar de correr em casa e de ter duas vitórias nos últimos dois anos, os energéticos não foram capazes de tirar mais performance. É bem verdade que a estratégia de trocar os pneus do ótimo Alex Albon no momento certo é mais um indicativo da esperteza do time em situações adversas, só que é pouco dada a diferença que existe para os alemães. De toda a forma, Albon e Hamilton, uma vez mais, protagonizaram um curioso encontro. De novo, o inglês foi punido, mas culpa mesmo, não teve. Ainda assim, um dos lances mais interessantes da corrida.

Outro é a Ferrari. A pole e a velocidade de 2019 desapareceram. O novo modelo tem falhas sérias de acerto e aerodinâmica, e os dois pilotos tiveram dificuldades em freadas fortes, especialmente Sebastian Vettel. É incrível, mas o carro não vira. Tem de recomeçar a escuderia de Maranello. É certo que a confiabilidade é o ponto mais forte neste momento e a principal razão para o pódio, levando em conta a maluquice da prova. A corrida austríaca exigiu dos carros. De novo, talvez em outro circuito, isso seria minimizado.

Mas se os italianos estão em apuros, a McLaren é uma grande notícia. Além de colocar seus dois pilotos no top-10 e vê-los em ritmo consistente ao longo da prova, ainda comemorou um pódio de verdade. O do Brasil foi real, mas Carlos Sainz não pôde subir no momento certo. O excelente Lando Norris, ao contrário, pegou na marra. Mesmo com o carro em fim de corrida e pneus muito desgastados, foi capaz ainda de cravar a volta mais rápida para assegurar o lugar à frente do punido Hamilton. Onde mais isso aconteceria?

Pódio mais que importante para a McLaren (Foto: McLaren)

Bem, o circuito no meio de montanhas e colinas, com retas longas, freadas fortes e curvas traiçoeiras viu de um tudo neste domingo: drama, quebras e abandonos, acidentes e incidentes de corrida. E na semana que vem, já tem outra.

A jornada ainda é curta e incerta, o que coloca mais pimenta nesse caldo. O fato é que as respostas que a Áustria trouxe indicam não só o acerto da F1 ao escolher o país para abrir o campeonato, mas a chance de ter um campeonato só com as melhores corridas daquela fase sensacional do ano passado. E essa talvez tenha sido a grande recompensa da F1.  

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