Opinião GP: Mercedes constrói dique que tem furo único: quem substitui Hamilton e Wolff

Numa Mercedes que passou por quase tudo e venceu como besta enjaulada nos últimos sete anos, apenas as saídas de Toto Wolff e Lewis Hamilton e a falta de um plano de sucessão parecem ser capazes de criar a oportunidade que as rivais esperam

Era impossível dizer isso em 2014, quando os tempos do híbrido permitiram que a ordem de forças fosse alterada e a chave do domínio na Fórmula 1 fosse atirado para as mãos da Mercedes – especialmente porque era uma Mercedes que perdia Ross Brawn e passava a ter Toto Wolff como o cabeça de toda a operação. Mas a Fórmula 1 passou a ver o desenrolar de uma nova história: a equipe mais forte de todos os tempos. Com o passar dos anos, o domínio seguiu estabelecido, mas a luz começa a raiar no fim do túnel e obriga a questionar os planos de sucessão.

O trio de chefia da Mercedes que, inicialmente, dividia a frente era formada pelo diretor-esportivo Toto Wolff, o presidente não-executivo Niki Lauda e o diretor-técnico Paddy Lowe. Na pista, Lewis Hamilton e Nico Rosberg tinham permissão para batalhar e assim faziam. Incontáveis e perigosas vezes. Hamilton levou as duas primeiras, Rosberg ficou com a terceira e aposentou. Veio Valtteri Bottas.

Com a vinda de Bottas, Lowe tomou o rumo da Williams, um tanto insatisfeito por não ser o número 1. Wolff assumiu a chefia e tocava as coisas ao lado de Lauda, agora com Hamilton reinando solitária sem ser incomodado. Com problemas de saúde, Lauda também se afastou – morreu quase um ano depois. Wolff passou a ser a figura executiva da Mercedes, ainda que, todos saibam, o diretor-técnico James Allison tem enorme papel. Não é o único, mas é figura de qualidade profissional ilibada.

Fato é que, conforme outros nomes foram deixando o barco, a Mercedes se manteve no topo. Em alguns momentos mais dominantes, como atualmente, mas em outros pontos da longa estrada, teve desafios. A Ferrari e Sebastian Vettel em 2017 e 2018, sobretudo. Por melhor que sejam as outras operações, por mais incômodo que a Red Bull possa oferecer, a Mercedes consegue alinhar as qualidades, aparar as arestas e continuar. Em Ímola, confirmou o inédito heptacampeonato seguido de Construtores.

Toda a festa de Hamilton com Wolff e a equipe Mercedes, a campeã do dia (Foto: Mercedes)

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Em grande parte porque tem um Toto Wolff que conhece a Fórmula 1 por dentro e toma decisões com a tranquilidade e capacidade como talvez nenhum outro consiga fazer. Puxe pela memória quais os grandes erros de Wolff você consegue lembrar. Momentos aqui e ali em alguns fins de semana, talvez, mas no trabalho de temporadas completas e preparação para os anos que vêm a sequência, praticamente nunca.

Em gigantesca parte, porque tem Hamilton. O maior piloto de todos os tempos já se aproxima do recorde de sete títulos mundiais individuais, que pode conquistar daqui duas semanas, na Turquia, e superou as 91 vitórias de Michael Schumacher. Um piloto que aprendeu a não ser apenas o mais agressivo de todos, o mais arrojado, mas também aquele que toma decisões estratégicas como ninguém – como no último domingo, em Ímola, ao estender a presença na pista durante o primeiro stint e, assim, cortar Max Verstappen e Bottas para vencer a corrida.

A Mercedes é a Mercedes porque tem Wolff e Hamilton. Só que até os maiores deixam a cena algum dia.

Wolff tem sido bastante claro quanto a isso. Perto de completar 49 anos de idade, o austríaco tem dois filhos em idade universitária e um pequeno, mais novo, três anos e fruto do relacionamento com a ex-pilota e atual chefe de equipe na Fórmula E Susie Wolff. Quer ficar mais tempo em casa, parar de viajar tanto pelo mundo. Já fala abertamente em preparar um substituto para a chefia da equipe. Vai seguir com a Mercedes, mas como diretor-geral, menos atribuições e menos tempo de estrada. Implica parar de comandar a equipe do pit-wall.

Tudo bem que quer treinar alguém, mas treino não ensina categoria. Por mais bem preparado que sejam os substitutos vistos e escolhidos pelas figuras de mais destaque, não se sabe se, na hora em que o calo apertar, terão a frieza das decisões certas. Lembrem de Martin Whitmarsh após ter as rédeas da McLaren entregues por Ron Dennis, em 2009.

Mas Wolff sabe que, embora não seja uma certeza, é necessidade. É parte da grandeza que tem como chefe de equipe: identificar os problemas e resolvê-los. Achar outra versão de si mesmo é mais difícil que parece e, para tanto, um sujeito como Toto precisar estar absolutamente seguro de si. Mas Wolff encontrou a rachadura pequena no dique gigantesco. Tal qual o menino Peter, do conto ‘O Pequeno Herói da Holanda’, vai passar frio tentando impedir que o mar revolto invada a proteção e destrua de uma vez por todas.

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E Hamilton? Após confirmar o hepta de Construtores, disse que não sabe se vai ficar para buscar o octa. Wolff não crê que a ameaça seja a valer.

“Creio que são só as emoções do momento. Estamos todos felizes, mas muito cansados. A mesma coisa para mim: consigo me relacionar completamente com o sentimento de se questionar sobre todas as outras coisas que importam e, quando você liga nas notícias pela manhã e desliga à noite, valem só as dificuldades que nós temos”, comentou o chefe em Ímola.

“Estamos aqui agora em nosso feliz pedacinho de chão onde tentamos trazer entretenimento para as casas dos espectadores, mas depois disso a gente volta à realidade difícil de todos os dias. É algo que afeta a todos nós. É normal alguém com tanta empatia ter sentimentos assim”, seguiu.

De qualquer forma, ainda que não seja em 2021, Hamilton está mais perto do fim que do começo. Tem 35 anos e todas as glórias possíveis, afinal. Como a Mercedes vai resistir uma vez que ele saia de cena?

O entendimento geral é de que a Mercedes quer contar com Max Verstappen para o futuro, mas o piloto tem contrato com a Red Bull até 2024. Sim, contratos podem ser desfeitos, mas depende de como estão constituídos. Caso esse contrato específico esteja bem amarrado, como nós, populares, questionamos nas esquinas do Rio de Janeiro, vai viver do quê? Não é de Bottas, que de maneira alguma é um sujeito no qual você confia suas mais profundas aspirações.

De seus pilotos jovens? Esteban Ocon parece carta fora do baralho prateado e vive um ano de retorno ao campeonato totalmente nas sombras de um Daniel Ricciardo que voa. George Russell, que dá impressão de ser o mais querido pela Mercedes, vai terminando o segundo ano na F1 atrás dos companheiros na tabela final e não consegue pontuar. Sim, o carro é ruim na Williams, mas as chances claras que pintaram em 2020 foram jogadas no lixo sem a menor parcimônia. Como em Ímola, onde vinha em décimo e bateu o carro sozinho e de maneira inexplicável. Se a perna pesa para pontuar, imagina para ser campeão.

Não quer dizer, é claro, que um dos dois não possa estar pronto em algum momento no futuro. Claro que podem. Mas as habilidades e a maturidade de um campeão mundial precisam ser notadas, vistas antes que se realizem. Ninguém vai confiar uma tarefa dessas a um piloto que fica com a perna pesadinha na hora de decidir. Hamilton foi assim lá no começo, em 2007, mas para definir o título. A fibra ele mostrou ao vencer corridas, mostrar total regularidade e ganhar a briga interna da McLaren contra Fernando Alonso no interior das garagens. Em 2008, a perna já não pesou para decidir.

Ricciardo? Seria uma decisão mais fora da caixa, só que o australiano também está do lado errado dos 30 anos e acabou de fechar com a McLaren por duas temporadas.

Além de especular nomes, há uma outra pergunta que precisa ser feita: existe um plano de sucessão possível para Hamilton? O horizonte aponta uma resposta que pode até ser óbvia, mas mantém a Mercedes presa a jogos de tempo e necessidade, porque perde todo poder de barganha com o piloto e com a Red Bull, que sabe bem qual a situação que está posta: é Verstappen ou nada. Será Verstappen ou uma quebra de nível enorme que pode custar títulos e acabar com toda a camaradagem vitoriosa dos confins da Mercedes.

É Verstappen ou o dique pode rachar de vez.

Como Peter dizia, de volta a ‘O Pequeno Herói da Holanda’: “Que bom que eles [os diques] são tão fortes! Se quebrassem, o que seria de nós? Esses campos lindos ficariam inundados. Meu pai sempre diz que as águas estão zangadas. Parece que ele acha que elas estão zangadas por ficarem presas tanto tempo.”

Estão zangadas todas as equipes da Fórmula 1, presas atrás de uma Mercedes que é infalível até que o dique se arrebente.

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