Por que chefe da Ferrari desrespeita Sainz ao colocar Leclerc como “próximo campeão na F1”

Pode até fazer sentido Mattia Binotto cobrir de louros e elogios Charles Leclerc, visto pela Ferrari como o homem do presente e do futuro. Mas ao ver no monegasco o próximo campeão do mundo com a escuderia, o ítalo-suíço soa desrespeitoso ao menosprezar Carlos Sainz, ainda mais pela grande temporada que faz o espanhol

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É absolutamente normal na Fórmula 1 ou em qualquer outra categoria do esporte a motor que um determinado piloto tenha seu protagonismo dentro da equipe e que, por isso, tenha lá sua prioridade. Alguém em sã consciência questionaria a preferência que Lewis Hamilton tem dentro da Mercedes em relação a Valtteri Bottas ou Max Verstappen na Red Bull na comparação com Sergio Pérez? Entretanto, o grid desta incrível temporada 2021 da F1 tem na Ferrari a sua dupla mais equilibrada do campeonato. Carlos Sainz se encaixou bem à equipe no seu ano de debute em Maranello, muitas vezes até melhor que Charles Leclerc, e está a apenas 7,5 pontos de distância do monegasco com duas corridas para o fim do ano. Mas Mattia Binotto ignorou o espanhol ao afirmar que Leclerc será o “próximo campeão mundial” com a Ferrari na F1.

Já se vão quase 15 anos da última vez que a Ferrari viu um piloto ser campeão do mundo na F1. Desde o surpreendente título de Kimi Räikkönen em 2007, a equipe busca um novo redentor, mas Fernando Alonso e Sebastian Vettel não conseguiram o objetivo. O nome da vez, agora, parece ser mesmo o de Leclerc.

Quando se parte deste princípio, o discurso de Binotto demonstra o amplo prestígio que o monegasco tem dentro da equipe. Leclerc ascendeu à condição de titular por um desejo de Sergio Marchionne — antigo presidente da Ferrari —, que morreu em 2018. Depois de um bom ano de estreia com a Sauber, Charles chegou chegando em Maranello com a bênção da família Todt — o piloto é agenciado por Nicolas Todt, filho do atual presidente da FIA e ex-chefe da Ferrari, Jean Todt —, venceu a disputa interna com Sebastian Vettel e foi decisivo para a saída do tetracampeão da escuderia.

CHARLES LECLERC; MATTIA BINOTTO; FERRARI;
Charles Leclerc será o próximo piloto da Ferrari campeão do mundo, disse Mattia Binotto (Foto: Scuderia Ferrari)

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Talentoso e ainda muito jovem, com apenas 24 anos e margem para evoluir muito mais, Leclerc fez por merecer o posto de queridinho da Ferrari: no ano passado, conquistou grandes resultados com a fraquíssima SF1000, tendo ido ao pódio duas vezes. Tirou leite de pedra, como dizem. Ainda assim, viu a equipe contratar um piloto que ganhou grande destaque nos últimos anos com a McLaren: logo que foi anunciada a saída de Vettel, em maio do ano passado, Sainz foi oficializado como o futuro companheiro de equipe de Charles a partir de 2021.

Embora também jovem, Sainz chegou a Maranello com uma boa bagagem na Fórmula 1. Hoje com 27 anos, o piloto nascido em Madri passou antes por Toro Rosso e Renault antes de brilhar na McLaren. A campanha pela equipe de Woking, sobretudo com os pódios conquistados — GP do Brasil de 2019 e GP da Itália de 2020 — o credenciou a dar outro salto e partir para o cockpit mais sonhado pelos pilotos na Fórmula 1.

Diferente de outros tantos competidores que mudaram de equipe para 2021 — Sebastian Vettel para a Aston Martin; Daniel Ricciardo para a McLaren e Sergio Pérez para a Red Bull —, Sainz não mostrou os habituais problemas de adaptação a um novo carro, deixou sua marca com ritmo de corrida bastante consistente e, não poucas vezes, superou o companheiro de equipe.

Em que pese as poles conquistadas por Leclerc em Mônaco e no Azerbaijão, Sainz tem mais pódios que o monegasco (três — Mônaco, Hungria e Rússia), contra apenas um de Charles, que quase ganhou o GP da Inglaterra, onde terminou em segundo.

CARLOS SAINZ; PÓDIO; GP DA RÚSSIA;
Carlos Sainz conquistou três pódios em 2021 (Foto: Scuderia Ferrari)

Ainda que os números sejam frios e não reflitam totalmente a realidade, o placar apertado entre Leclerc e Sainz no Mundial de Pilotos revela o enorme equilíbrio entre os dois: o dono do carro #16 soma 152 pontos, contra 145,5 tentos de Sainz, do #55. Somente 7,5 pontos separam os dois nesta campanha prestes a se encerrar.

No começo da temporada, ainda durante os testes no Bahrein, Sainz revelou sua ambição com a equipe italiana. “Em cinco anos, quero ser campeão mundial e acredito que a Ferrari é o melhor lugar para isso. Acredito que estou no lugar certo e no momento certo, só precisamos um pouco de tempo para tentar fazer isso acontecer”.

O mesmo Carlos que reiterou o objetivo de ser campeão do mundo deve ter lido as declarações do chefe Mattia Binotto com alguma decepção. Principalmente depois da forte temporada que faz o espanhol, fundamental para que a Ferrari esteja à frente da McLaren e muito perto de se garantir em terceiro do Mundial de Construtores.

Ouvir de quem comanda a operação da escuderia na Fórmula 1 que Leclerc “será o próximo campeão do mundo” com a Ferrari pode significar um afago e tanto e sinal que o prestígio do monegasco lá dentro é inabalável. Afinal, tudo indica que Charles seja mesmo o número 1. Por outro lado, para quem enxerga a questão pela ótica de Sainz e principalmente pelo grande trabalho que faz o espanhol em 2021, tais declarações soam como tapa na cara e enorme desprezo. Um desrespeito desnecessário.

Contudo, as palavras do ítalo-suíço também tendem a impulsionar ainda mais a motivação de Sainz para provar que Binotto, na sua condição de chefe de equipe e de responsável também pela gestão de pessoas, está completamente errado.

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