Dia divertido de treinos na Europa é ofuscado por polêmica de motores da Yamaha

Apesar de os treinos terem sido movimentados em Valência, a confusão da Yamaha foi o grande destaque no início das atividades de pista para o GP da Europa

A temporada 2020 não precisa de mais isso. Depois do início adiado, do calendário remendado e ausência do campeão vigente, o campeonato deste ano agora vai carregar um asterisco: o da infração cometida pela Yamaha com os motores, revelada antes do GP da Europa.

Na quinta-feira (5), no início dos trabalhos em Valência deste fim de semana, a FIM (Federação Internacional de Motociclismo) anunciou uma punição à fábrica japonesa, que perdeu pontos nos Mundiais de Construtores e Equipes ― mesma pena aplicada a satélite SRT. O comunicado enviado pela entidade à imprensa não é o que se possa chamar de claro, já que não explica de fato o que aconteceu.

A única pista dada pela FIM é de que a Yamaha não respeitou o trecho do regulamento que exige aprovação unânime da MSMA (Associação das Fábricas de Motocicletas Esportivas) para fazer modificações no motor selado. Pelas circunstâncias, é possível entender que a montadora dos três diapasões usou no GP da Espanha, abertura da temporada, um motor incompatível com aquele que tinha homologado no início do ano. Ou seja, a modificação aconteceu entre a homologação e a abertura do campeonato, possivelmente aproveitando o tempo extra relacionado ao adiamento resultante da pandemia.

Para piorar o fim de semana da Yamaha na MotoGP, Viñales vai ter de largar do pit-lane (Foto: Yamaha)

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A Yamaha garante que não burlou o regulamento da MotoGP de má fé, mas interpretou erroneamente o texto. Os japoneses alegam que não sabiam que o protocolo exigia aprovação unânime prévia da MSMA para utilizar válvulas de dois fabricantes diferentes nos motores, sendo que elas foram fabricadas seguindo uma especificação de projeto comum.

Com ou sem intenção, o fato é que a Yamaha alinhou quatro motos fora do regulamento na primeira corrida de Jerez de la Frontera. Assim, natural que exista uma punição. O tamanho da pena, porém, é o que causa polêmica. É justo que os pilotos tenham escapado ilesos? A FIM deveria ter estendido a pena a Fabio Quartararo, Maverick Viñales e Franco Morbidelli?

A perda de 50 pontos alterou a posição da Yamaha no Mundial de Construtores. A casa de Iwata chegou em Valência podendo fechar a conta da disputa, mas agora é apenas a terceira na classificação, atrás de Ducati e Yamaha. No Mundial de Equipes, apesar da perda de pontos, a posição na tabela segue a mesma.

Mas, no caso do Mundial de Pilotos, a alteração seria sensível. Se a punição fosse aplicada aos competidores, a classificação do campeonato teria Joan Mir na liderança com 28 pontos de vantagem para Andrea Dovizioso. Alex Rins saltaria de sexto para terceiro, enquanto Fabio Quartararo cairia de segundo para quarto. Franco Morbidelli perderia uma posição, com Maverick Viñales despencando de terceiro para sexto.

Isso, porém, não foi o que aconteceu. A classificação segue intocada e, portanto, Mir lidera, com Quartararo, Viñales e Morbidelli formando um top-4 coberto por 25 pontos.

A punição da FIM era passível de recurso, mas a Yamaha acolheu a sanção sem protestar. As fábricas rivais também optaram por aceitar a decisão do Painel de Comissários. Mas não em silêncio.

Paolo Ciabatti, diretor-esportivo da Ducati, falou que a questão abre um “precedente perigoso” no Mundial. Chefe da Suzuki, Davide Brivio foi compreensivo com a decisão do Painel de Comissários, mas lembrou que a ação da Yamaha joga uma sombra em cima do resultado da equipe na temporada 2020.

De fato, Brivio tem razão. Em um ano em que o eventual campeão já tem sido diminuído antes mesmo de ser conhecido em virtude da ausência de Marc Márquez, ver vencedor Quartararo, Viñales ou Morbidelli vai resultar em um asterisco. Mir, por exemplo, não precisa se preocupar com isso. Se sair de Portimão com a taça, capaz até de ser aquele que venceu apesar da irregularidade da Yamaha.

Jack Miller foi o mais rápido nesta sexta (Foto: Red Bull Content Pool)

É bom ressaltar que a modificação no motor da YZR-M1 foi um bocado desastrosa Yamaha. Viñales teve um problema com o propulsor nos treinos em Jerez, teve de abrir três unidades ainda no primeiro fim de semana do ano, perdeu uma peça para o restante da temporada e ainda vai precisar largar do pit-lane neste fim de semana por usar o sexto propulsor. Valentino Rossi abandonou a primeira corrida também após uma quebra e também perdeu uma unidade por todo o ano. E agora o título de Construtores está ameaçado por causa disso.

Em um ano em que conseguiu melhorar a performance da M1 e voltou à briga pelo título, a Yamaha, definitivamente, não precisava de uma polêmica como essas. Ainda mais nesta altura do campeonato.

Enquanto isso na MotoGP…

Mas se a polêmica da Yamaha tira um pouco do brilho dessa reta final da temporada, os trabalhos na pista foram bastante interessantes. Com uma sessão em pista molhada e outra onde foi possível usar os pneus slicks, Jack Miller fechou a sexta-feira (6) no topo da tabela, com 1min32s528, 0s092 melhor que Aleix Espargaró. No top-10, foram duas Ducati, duas Yamaha, duas KTM, duas Suzuki, uma Aprilia e uma Honda.

“Estou feliz com a maneira como começamos nesta manhã e com a melhora da tarde”, disse Miller. “Ainda temos de trabalhar em algumas coisas, mas estamos no caminho certo e a sensação com a moto é perfeita. Até aqui, não encontramos problemas de aderência, então vamos tentar continuar assim”, ressaltou.

A surpresa, certamente, foi ter Aleix Espargaró na segunda colocação. O piloto da Aprilia comentou que a equipe fez grandes mudanças no acerto da RS-GP, especialmente por ele não ter se sentido confortável na moto na chuva em Le Mans.

“No geral, foi um dia estranho. Esta manhã nós rodamos no molhado e foi a primeira boa notícia para mim. De fato, nós mudamos a RS-GP em comparação com Le Mans, onde não me senti bem na chuva, e devo dizer que me senti melhor logo de cara. A moto ganhou estabilidade e eu curti pilotar”, contou o catalão. “A primeira parte do TL2 foi bem arriscada, com condições exigente. A pista melhorou progressivamente, então, perto do fim estava quase perfeito e os tempos refletem isso. Estou satisfeito”, comentou.

Franco Morbidelli foi o melhor dos pilotos Yamaha (Foto: SRT)

Vindo de vitória, Morbidelli também fez um balanço positivo do primeiro dia de trabalhos para o GP da Europa, mesmo que as condições de pista não tenham sido as ideais. O campeão de 2017 da Moto2 foi a melhor Yamaha no dia.

“As condições hoje não foram as melhores: estava molhado nesta manhã e esta tarde a pista estava meio seca e meio molhada. Foi um bom dia, já que fomos rápidos em ambas as condições”, avaliou Franco. “Esta tarde, comecei com calma até saber como estava a pista, e aí fiz um tempo de ataque para entra no top-10. Conseguimos entrar no top-3, o que é ótimo, então, estou muito feliz”, destacou.

“Foi bom ver que podemos ser rápidos no seco e no molhado. Sabemos que temos de esperar e ver como será o clima amanhã. Se for na chuva, podemos coletar mais informações. Se for no seco, podemos forçar para sermos mais rápidos”, garantiu.

Companheiro do ítalo-brasileiro na SRT, Fabio Quartararo teve uma manhã bastante ruim, mas conseguiu melhorar na sessão da tarde e fechou a sexta-feira com a nona colocação, 0s809 atrás de Miller.

“O TL1 não foi bom para nós hoje: tentamos muitas coisas para melhorar a sensação com a moto durante a sessão, mas não conseguimos encontrar o que precisávamos. Nós planejamos um acerto muito diferente para o TL2, mas aí tivemos condições mistas, então, não conseguimos testar. Se chover, poderemos testar amanhã”, relatou. “Embora tenha tido dificuldades com a sensação hoje, estou de fato bem feliz, pois entramos no top-10. Isso foi importante, porque parece que amanhã de manhã vai ser com chuva e queríamos estar nas posições no Q2. Usei o pneu macio hoje e acho que os médios talvez fossem melhores para nós, mas são só treinos livres. Estou feliz com o trabalho que fizemos e agora focamos em amanhã”, completou.

Melhor entre os pilotos da Suzuki, Álex Rins fechou a sexta-feira com a sexta colocação, 0s629 mais lento do que Miller.

“As condições foram realmente difíceis. Parecia que a pista estava completamente molhada no TL1, mas não tinha de fato muita água, então, tivemos um pouco de dificuldade para encontrar aderência. No TL2, as condições também foram mistas, então foi bem duro forçar”, indicou. “Mas a minha meta era estar no top-10 e eu consegui isso com o sexto lugar, então, vamos ver o que acontece amanhã. Eu realmente gosto de pilotar aqui, então estou focado em um bom resultado”, assegurou.

Líder do Mundial, Joan Mir saiu satisfeito do primeiro dia em Valência (Foto: Suzuki)

Líder do Mundial, Joan Mir fez o décimo tempo neste primeiro dia de treinos para o GP da Europa e ficou a 0s877 do ponteiro. Assim como tem feito nas últimas semanas, o espanhol manteve a postura calma e celebrou ter assegurado provisoriamente uma vaga no Q2 da classificação.

“Venho para este fim de semana focado na minha meta e hoje conseguimos fazer muita coisa em preparação para a corrida. Foi bem complicado, pois as condições da pista não eram fáceis, então, foi bem difícil marcar tempo. Ao invés disso, trabalhamos no acerto”, explanou. “Já estou dentro do top-10, então se estiver chovendo ou frio amanhã de manhã, posso ir direto para o Q2. De qualquer forma, estou satisfeito com o décimo lugar. Vamos continuar o trabalho. Vou seguir com meu melhor”, garantiu.

Viñales ficou apenas em 11º no combinado dos treinos, mas a sexta-feira vai de mal a pior para o espanhol. Além da punição, a Yamaha precisou colocar o sexto motor do ano, excedendo o limite estabelecido pela MotoGP, e, assim, o piloto terá de largar do pit-lane. No entanto, existe ainda mais uma pendência. Um engenheiro do time do ‘Top Gun’ testou positivo para Covid-19 e a participação do próprio piloto na corrida virou dúvida.

“Temos controlado as corridas com os motores que tínhamos desde que perdemos um em Jerez, mas, antes de vir para cá, vimos que o último que eu tinha na minha alocação estava um pouco danificado e decidimos que não seria seguro utilizá-lo. Se fizesse isso, estaria arriscando jogar óleo na pista e outros pilotos poderiam sofrer uma forte queda por causa disso. Então decidimos colocar a segurança em primeiro lugar e colocar um novo motor”, explicou. “Sabemos que terei de começar a corrida do pit-lane, mas não há nada que possamos fazer. Com certeza, isso dificulta a briga pelo título, mas tudo pode acontecer na MotoGP”, continuou.

“Vou manter a mente aberta neste fim de semana. Não quero colocar um limite em mim mesmo. Vamos ver se conseguimos tirar algo de positivo deste GP”, completou.

Enquanto Valentino Rossi esperava um segundo teste negativo para Covid-19 ― o que só aconteceu no fim da tarde ―, Garrett Gerloff assumiu a YZR-M1. E não fez feio. O norte-americano foi 19º, 1s5 mais lento que Miller.

“Que experiência! Foi incrível pilotar a YZR-M1. Têm tantas coisas incríveis na moto. Ela me lembra a R1, mas ao mesmo tempo é diferente, é outro nível de moto. Foi genial”, comentou Gerloff. “A M1 é bem diferente da superbike. A M1 é basicamente a R1, mas em outro nível. Mas ainda é uma moto muito amigável de guiar. Não foi muito um animal, mas, definitivamente, super rápida. Os pneus foram incríveis, especialmente nesta manhã no molhado, mas mesmo depois, quando a pista estava mais meio a meio. Me senti super confiante passando nas partes molhadas com os slicks. No geral, foi uma experiência incrível”, resumiu.

“Foi surreal voltar depois da segunda sessão e ver o Valentino logo ali, dizendo: ‘Ei, cara, trabalho incrível!’. Sabe, sonhos são feitos disso. Estou super feliz por ter podido fazer isso, então um enorme obrigado à Yamaha por me dar a oportunidade”, encerrou.

Confira as imagens do primeiro dia de treinos da MotoGP para o GP da Europa

Bradl Binder (Foto: Red Bull Content Pool)

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