Marc Márquez conclui ‘jornada do herói’ no Japão e iguala Rossi com 7º título na MotoGP

Marc Márquez colocou um ponto final em um jejum de títulos e não deixou passar o primeiro match-point para selar a conquista de 2025. O nono título mundial conclui a recuperação do #93 após a lesão de 2020

2184 DIAS DEPOIS DE FATURAR O OITAVO TÍTULO DO MUNDIAL DE MOTOVELOCIDADE, Marc Márquez recuperou a coroa da MotoGP. O #93 não deixou passar o primeiro match-point de 2025 e tratou de fechar a conta no GP do Japão deste domingo (28) para igualar Valentino Rossi com nove taças ― sete delas na classe rainha.

O desfecho em Motegi, ainda que amplamente esperado, completa a volta por cima do mais velho dos irmãos de Cervera. Uma das forças dominantes da MotoGP entre 2013 e 2019 ― período em que conquistou seis títulos, 56 vitórias, 95 pódios e 62 poles ―, Marc enfrentou uma gigantesca crise por conta de uma lesão e desperdiçou praticamente três anos da carreira.

A temporada 2020 foi marcada por um legítimo tumulto. Dentro e fora da pista. Distante dos circuitos, a pandemia de Covid-19 se alastrou pelo mundo, forçando mudanças no calendário do Mundial, que só pôde começar em meados de julho para uma campanha 100% focada na Europa.

Naquele 19 de julho, Marc vivia um dia de Marc. Depois de uma salvada espetacular na curva 4, o espanhol fazia uma alucinante prova de recuperação. Mas, com quatro voltas para o fim, rodando em terceiro, caiu forte na curva 3 e acabou atingido no braço pela roda da RC213V.

Marc Márquez fez uma temporada dominante com a Ducati (Foto: MotoGP)

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Marc foi diagnosticado com uma fratura no úmero direito. Dois dias depois, o espanhol foi operado em Barcelona pelo Dr. Xavier Mir, mas, ainda no hospital, começou a fazer flexões mirando um retorno imediato às pistas, uma vez que Jerez receberia o GP da Andaluzia no fim de semana seguinte.

Com a moto já acertada para o traçado andaluz, Marc pulou as atividades de sexta-feira e foi para a pista apenas para o treino livre 3, onde fez 18 voltas. O #93 fez mais dez giros na sessão seguinte, mas jogou a toalha e desistiu de seguir na etapa.

“Apesar de ter ouvido os médicos e o meu corpo, hoje de manhã eu estava me sentindo bem e estávamos felizes com o nosso progresso, mas, quando chegou a hora de fazer um tempo de ataque, quando é menos sobre ser consistente e mais sobre ser agressivo, o braço não tinha força”, explicou Marc na época. “Não sei se foi do inchaço ou do calor, mas sabia que precisaria ouvir o meu corpo”, acrescentou.

Marc, contudo, não ouviu tão atentamente. 13 dias depois da primeira cirurgia, o piloto precisou passar por uma segunda intervenção, já que danificou a placa de titânio colocada para estabilizar a fratura inicial pelo estresse de tentar recuperar a forma física. Curiosamente, o momento em que o piloto sentiu o dano foi quando abria uma janela para levar o cachorro passear.

Mas os problemas não pararam por aí. No início de dezembro, Márquez foi submetido a uma terceira cirurgia, desta vez em Madri, com o Dr. Samuel Antuña. No procedimento de 8h, os médicos fizeram um enxerto ósseo para tentar enfim calcificar o osso, além de substituir a fixação metálica.

Marc Márquez reencontrou competitividade correndo com a Gresini (Foto: Gold & Goose/Red Bull Content Pool)

Dias depois, a Honda anunciou que os médicos tinham detectado uma infecção no osso no local da fratura, o que retardou o processo de calcificação e manteve o #93 com antibióticos por um longo período. A volta aos treinos de moto aconteceu apenas em meados de janeiro, mas a liberação para correr veio só em 10 de abril, para o GP de Portugal. No dia 16, Marc subiu na RC213V pela primeira vez, nove meses após a lesão.

336 dias depois da fratura, Marc provou o gosto da vitória com um triunfo no GP da Alemanha. Mas o caos ainda estava longe de acabar.

No fim de outubro, o filho mais velho de Roser e Julià sofreu uma concussão em um acidente em um treino de enduro. Dias depois, a Honda anunciou a ausência no GP do Algarve e, mais tarde, o diagnóstico de diplopia, um problema de visão que já tinha acometido Marc na Moto2, e que o manteve fora também da corrida de Valência.

Os treinos de moto só voltaram em meados de janeiro, e Marc conseguiu participar da pré-temporada. Mas, em março, durante o warm-up do GP da Indonésia, o #93 levou um tombo, sofreu uma nova concussão e mais um episódio de diplopia, o que fazia com que ele enxergasse em dobro.

A volta às pistas acontece em abril, mas, no fim do mês seguinte, durante o GP da Itália, Marc anunciou que faria uma quarta operação no braço direito, desta vez na Clinica Mayo, nos Estados Unidos, com o Dr. Joaquin Sánchez Sotelo.

684 dias depois da fratura inicial, Marc passou por uma osteotomia, que consiste no seccionamento cirúrgico do osso. Em um procedimento de 3h, os médicos removeram as placas e os parafusos colocados anteriormente, fizeram um corte transversal e uma rotação de 30° para reposicionar o úmero da maneira correta.

Queda na abertura da temporada 2020 custou três anos da carreira de Marc Márquez (Foto: Honda)

89 dias mais tarde, Marc voltou a pilotar motos, mas o reencontro com a RC213V só aconteceu em setembro, no teste de Misano. No dia 16 daquele mesmo mês, o filho mais famoso de Cervera voltou à MotoGP em Aragão. Mas o caos tampouco tinha acabado.

No início da temporada seguinte, o piloto precisou de uma cirurgia após fraturar o primeiro metacarpo da mão direita em um acidente em Portimão com Jorge Martín e Miguel Oliveira. Desta vez, a recuperação foi rápida, mas, quando o físico estava 100%, foi a moto que começou a abrir o bico.

Decidida a esperar a volta de Marc, a Honda parou o desenvolvimento da moto, mas acabou tão atrás que não se recuperou até hoje. Márquez tentou de todas as formas. Foi ao limite todas as vezes que subiu na RC213V ― na Alemanha, por exemplo, caiu tantas vezes que acabou desistindo de correr em Sachsenring após uma fratura. Mas, sem respostas da gigante japonesa, negociou uma saída antecipada e deixou a equipe que lhe abriu as portas da MotoGP no fim de 2023, dez anos após a estreia na categoria.

O abrigo veio por meio da Gresini, uma equipe pequena demais para alguém com o currículo dele, mas ideal para aquele momento. O time de Nadia Padovani sabe uma coisa ou outra sobre se reerguer. Afinal, foi justamente isso que teve de fazer após as mortes de Daijiro Kato e Marco Simonelli ― pilotos vítimas de acidente enquanto defendiam as cores da equipe de Faenza ― e do próprio Fausto Gresini, fundador da esquadra, que foi vítima da Covid-19.

Mas o clima familiar não foi a motivação por trás da transferência para a Gresini. Marc queria colocar as mãos em uma Ducati, a moto dominante do momento, justamente por querer entender se ainda era capaz de ser competitivo ou se teria de se aposentar.

A bordo da GP23, o #93 se reencontrou. A competitividade perdida com a lesão e todo caos que veio a seguir foi tão bem recuperada que garantiu a ele uma promoção para a equipe de fábrica, mesmo à custa de Jorge Martín, que embora campeão com a satélite Pramac, acabou descartado pela casa de Bolonha.

2025 mostra, contudo, que a Ducati fez a escolha certa. Ninguém nunca saberá qual seria o desfecho da história se Martín tivesse sido o escolhido para formar par com Francesco Bagnaia, mas os resultados da temporada impedem qualquer questionamento em torno da opção de Borgo Panigale.

Marc Márquez venceu 14 sprints e 11 corridas até o GP do Japão, que coroou título (Foto: Divulgação/MotoGP)

Mesmo com uma GP25 que está longe da perfeição da GP24, Marc dominou o campeonato. Álex foi o único a efetivamente se apresentar como adversário, mas não teve fôlego para acompanhar a força do irmão.

O título conquistado neste domingo em Motegi coloca Marc em pé de igualdade com Valentino Rossi, atrás apenas da lenda Giacomo Agostini, que soma 15 títulos mundiais, oito deles na elite. Mas, mais do que instalá-lo de vez no olimpo do esporte, este nono título é o desfecho da jornada do herói. Márquez visitou as profundezas do inferno, mas soube dar os passos certos para voltar ao céu.

MotoGP volta a acelerar entre os dias 3 a 5 de outubro, no GP da Indonésia, direto de Mandalika, 18ª etapa da temporada 2025. O GRANDE PRÊMIO faz a cobertura completa do evento, assim como das outras classes do Mundial de Motovelocidade durante todo o ano.

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