Moedor à italiana, Ducati tem má gestão escancarada com vitória de Petrucci

Danilo Petrucci foi chutado da Ducati antes mesmo de provar que poderia reagir após final de temporada discreta em 2019. Vitimando a confiança do italiano, a fábrica de Borgo Panigale mostrou mais uma vez a falta de paciência com nada que não seja minimamente perfeit

A temporada 2020 da MotoGP sequer tinha começado, mas Danilo Petrucci já sabia que estava demitido da Ducati. Mais nova vítima da impaciência da fábrica de Borgo Panigale, precisou encarar o início do campeonato não apenas com a pressão da demissão, mas também lidar com a confiança abalada. Mas a volta por cima veio e não bastou apenas vencer, ainda tratou de escancarar: o time está completamente perdido.

O italiano de 29 anos chegou à equipe compatriota em 2019 após ser promovido da Pramac para ocupar o espaço vago deixado por Jorge Lorenzo. A escolha caseira foi natural, pois estava envolvido com a marca de 2015, havia subido seis vezes seis pódios e estava habituado a difícil Desmosedici.

Os resultados no time principal demoraram, é verdade, mas chegaram. Petrux conseguiu o primeiro top-3 na França, quinta etapa do calendário, mas foi na Itália que brilhou, pois veio a primeira vitória na classe rainha do Mundial de Motovelocidade. Na corrida seguinte, terminou mais uma vez no pódio e garantiu a renovação de contrato para o ano seguinte. E acabou por aí.

O final de 2019 foi bastante discreto por parte do competidor de Terni, que nas últimas dez corridas do ano, falhou em terminar dentro do top-5, além de ter abandonado duas vezes. Com isso, encerrou o campeonato apenas na oitava colocação, seis atrás do companheiro Andrea Dovizioso, vice-campeão.

Danilo Petrucci foi demitido antes do início do campeonato pela Ducati (Foto: Red Bull Content Pool)

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Sem a chance de tentar mostrar qualquer reação em 2020, às vésperas do aniversário de sua primeira, e única, vitória na MotoGP, recebeu a notícia de que não seguiria na Ducati em 2021.  E mais uma vez a impaciência da fábrica italiana fez uma vítima sem o menor sentido e sem uma real chance de que era digno de ocupar o lugar em que estava.

Acontece que o carma se fez presente e a revanche veio para o competidor. Competitivo durante todo o final de semana em Le Mans, Petrucci não apenas venceu de maneira dominante o GP da França como aproveitou para escancarar ao mundo o sentimento de menosprezo que sentia dentro da equipe que, teoricamente, tinha de apoiá-lo.

“Foi um ano muito, muito louco, pois a temporada não tinha nem começado e eu perdi a minha vaga. Parecia que, naquele momento, ninguém confiava em mim. Entendi que era um ano estranho, pois não corremos, mas com certeza não foi tão legal perder a vaga antes de a temporada começar”, falou.

“Isso não te dá a motivação certa para correr nesta equipe neste ano. Já no fim do ano passado, senti que já não estava na lista, mas felizmente, outras pessoas confiaram em mim. Tenho de agradecer ao meu time e as pessoas em casa, que sempre confiaram em mim e acreditaram que eu era bom pilotando a moto. Esta é a prova de que eu posso vencer uma corrida da MotoGP”, completou.

Petrucci vai poder se despedir da Ducati com ao menos uma vitória em 2020 (Foto: Red Bull Content Pool)

Já ficou claro que a equipe que conta com Gigi Dall’Igna, Paolo Ciabatti e Davide Tardozzi na linha de frente é osso duro de roer. Mas ter uma má gestão, cobrar apenas a perfeição e ser impaciente não é exclusividade única da esquadra italiana – basta olhar para todo o rolo entre Red Bull, AlphaTauri e Pierre Gasly.

O francês estava na Toro Rosso quando recebeu a promoção para a equipe das bebidas energéticas. Com a missão de não só correr sob o crítico olhar de Helmut Marko e sendo companheiro de Max Verstappen, sentiu a pressão desde o início. E após apenas 12 etapas e antes de qualquer chance de reação, foi rapidamente limado pelo time.

A falta de resultados expressivos foi usada como a justificativa de levar Alexander Albon para seu lugar. Mas assim como Petrux, tratou de mostrar seu valor e ao final de 2019, segurando ninguém menos que Lewis Hamilton, alcançou o primeiro pódio no GP do Brasil. E não apenas isso: neste ano, venceu o GP da Itália. Portanto, a velocidade está lá, seja o piloto francês, seja italiano.

E assim como o time taurino, que também subiu, desceu, demitiu e recontratou Daniil Kvyat, a Ducati mostrou ter sido a moedora do grid da MotoGP, pois Danilo não foi a única vítima da impaciência dos resultados imediatos. Basta lembrar toda a novela com Lorenzo.

Pierre Gasly foi rebaixado, duvidado e se tornou vencedor da F1 (Foto: Red Bull Content Pool)

O espanhol foi contratado a peso de ouro para finalmente tirar o time da fila do título. O tricampeão tinha a missão para assumir a vaga de primeiro piloto, mas o cenário foi completamente o oposto. Andrea Dovizioso cresceu em cima do companheiro e foi o responsável por brigar pelo caneco.

Não demorou muito até Jorge ser chutado do time. Acontece que, no dia seguinte, conseguiu sua primeira vitória. Depois, conseguiu mais três pódios, sendo três triunfos, mas já era tarde e a despedida aconteceu no final daquele campeonato e bastante em baixa.

O exemplo mais recente foi com sua principal estrela, Dovi. Oito anos no projeto de Borgo Panigale e três vice-campeonatos na conta, o italiano anunciou o divórcio no meio da temporada e deixou claro que a decisão não foi tomada de uma hora para a outra, mas sim porque a situação interna já estava insustentável.

A Ducati já deu diversos exemplos de ser uma equipe que cobra muito, mas apoia pouco. Trata seus pilotos como descartáveis e caso não entreguem de forma rápida e satisfatória, estão demitidos sem nem chance de provar o valor. Petrucci sofreu na pele e ficou com a confiança abalada, mas ao menos vai se despedir pelo menos provando que é piloto de vencer corridas.

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