Verstappen, politicagem e 2º piloto: Mekies tem tarefa hercúlea no comando da Red Bull

Entre aspectos internos e externos, Laurent Mekies terá um enorme trabalho pela frente se quiser colocar a Red Bull de volta nos trilhos e torná-la competitiva mais uma vez na Fórmula 1. Além de uma reformulação na estrutura organizacional e das questões políticas, é claro que Max Verstappen também está entre os pontos importantes, já que a permanência do tetracampeão para os próximos anos é algo imprescindível

Quando a temporada 2025 da Fórmula 1 teve início, Laurent Mekies não imaginava que depois de alguns meses viveria o privilégio — meio que subitamente — de comandar uma das equipes mais bem-sucedidas da história da categoria. Mas grandes poderes são sempre acompanhados por enormes responsabilidades, e não é diferente na Red Bull — onde, além de tentar reorganizar a casa e recuperar o espírito competitivo dos taurinos, também precisa escalar o Everest para alcançar o maior objetivo nessa nova empreitada: convencer Max Verstappen, o principal ativo do time de Milton Keynes, a permanecer, pelo menos, até o fim do contrato, em 2028.

O caso de “comportamento inapropriado” envolvendo Christian Horner, que veio à tona antes mesmo do início do campeonato de 2024, virou o mundo dos energéticos de cabeça para baixo. Depois de uma jornada das mais impressionantes em 2023, quando a escuderia acumulou 21 vitórias em 22 corridas disputadas, o império passou a desmoronar peça por peça no ano passado, sendo as saídas de Jonathan Wheatley e Adrian Newey, principalmente, os maiores símbolos dessa derrocada. E o duelo interno com o consultor Helmut Marko também ficou sob os holofotes, assim como as discussões públicas com Jos Verstappen, pai do tetracampeão.

Com o britânico lançado ao mar sem bote salva-vidas, Mekies agora precisa estabilizar a embarcação enquanto busca entender a estrutura e a tripulação, tanto na pista quanto na fábrica em Milton Keynes — muitos dos quais ainda eram leais ao antigo comandante. Embora a ida do ‘Mago da Aerodinâmica’ para a Aston Martin possa ter deixado marcas profundas na Red Bull, persiste ali um núcleo de designers e engenheiros que há dois anos construiu um dos carros mais dominantes dessas mais de sete décadas de F1. Ou seja, há potencial a extrair para a equipe voltar a ser uma das grandes forças do grid.

A questão que fica é: como fazer isso? Laurent pode optar por uma reformulação total de pessoal ou implementar uma estrutura técnica diferente para se certificar de que os talentos entreguem todo o potencial que possuem. Ou uma mistura dos dois, assim como fez na Racing Bulls ao lado do CEO Peter Bayer, o que resultou em uma evolução da equipe secundária durante o curto período em que esteve na base de Faenza.

Com a saída de Christian Horner, Laurent Mekies assumiu o comando da Red Bull (Foto: Red Bull Content Pool)

É verdade que o mais novo chefe possui certa familiaridade com Milton Keynes, já que o time ‘B’ expandiu as operações para ficar mais perto daquilo que acontece na irmã poderosa — contudo, ainda será preciso conhecer mais a fundo as diferentes divisões que existem por lá, como a Red Bull Powertrains, por exemplo, responsável pela produção das unidades de potência para 2026, ao lado da Ford, e uma das principais heranças deixadas por Horner. E também precisa gerir outras questões de infraestrutura, como o novo túnel de vento que está sendo construído, considerando que o atual chegou a ser classificado como uma “relíquia dos anos de 1940”.

Outro ponto importante será manter a autonomia das operações de corrida da Red Bull, assim como acontecia na época de Christian, que por muito tempo recebeu o apoio do cofundador da companhia Dietrich Mateschitz para depositar a confiança nas pessoas certas e trabalhar sem interferência da empresa controladora. A Ferrari, por exemplo, é um lugar onde essa questão costuma ser debatida com mais frequência — e voltou à tona com as recentes discussões relacionadas à permanência de Frédéric Vasseur, que, por fim, foi mantido no cargo de chefia.

Esse foi, inclusive, um dos motivos que fez o ex-comandante colocar um ponto final nas negociações entre Red Bull e Porsche lá em 2022, quando as partes conversavam sobre uma colaboração para o novo regulamento da F1, já que a marca alemã gostaria de uma parceria “em pé de igualdade” — o que significaria se tornar proprietária de 50% da escuderia taurina. E se for assim, o cuidado deve ser o mesmo com a Ford, que admitiu recentemente que, além da eletrificação, ampliou a área de atuação para a parte do motor a combustão e operações da equipe.

Entretanto, tão importante quanto as preocupações internas estão as questões externas. Em um mundo político como o da principal categoria de monopostos, é preciso manter a boa vizinhança na busca por objetivos em comum ao mesmo tempo em que luta com unhas e dentes para defender os próprios interesses. Horner era um especialista nisso. No histórico mais recente estão os conflitos com a McLaren — que fez, inclusive, Zak Brown dizer que a F1 está “mais saudável” sem a presença do britânico — e com a Mercedes de Toto Wolff, que deixou claro que o eterno rival “era controverso e polêmico”.

Laurent Mekies conhece bem o mundo político da F1 (Foto: AFP)

Figura muito menos espinhosa e mais discreta, Mekies possui os requisitos necessários para lidar bem com esse tipo de situação, tanto dentro quanto fora da equipe. A experiência adquirida na Federação Internacional de Automobilismo (FIA) entre 2014 e 2018 pode ajudá-lo muito bem nisso, assim como os anos em que esteve na Ferrari, entre 2018 e o início de 2023, onde trabalhou como diretor-esportivo, chefe de pista e performance e, finalmente, diretor de corrida em — de novo — uma das escuderias com mais politicagem da F1.

Por fim, há a questão dos pilotos. A saída de Sergio Pérez logo após o término da temporada 2024 renovou as esperanças de que o time de Milton Keynes poderia finalmente encontrar alguém que conseguisse acompanhar um pouco mais de perto o ritmo de Verstappen, pelo menos. Ledo engano. Primeiro nome na lista para assumir o lugar do mexicano, Liam Lawson sentiu na pele a falta de misericórdia da Red Bull e durou apenas duas corridas, sendo rebaixado para a Racing Bulls e vendo Yuki Tsunoda virar o mais novo dono do assento do RB21.

O japonês, por sua vez, recebeu a grande oportunidade pela qual tanto implorava, mas não entregou aquilo que prometeu. Com somente 7 pontos somados com a equipe principal em 12 corridas disputadas, começou a ficar sufocado com a enorme pressão imposta sobre ele e as consequentes cobranças — mas viu a chegada de Laurent lhe servir como um novo cilindro de oxigênio para respirar tranquilamente até o fim do atual campeonato. Isso porque ambos trabalharam juntos por cerca de um ano na esquadra de Faenza, e, na época, o pupilo da Honda foi bastante elogiado pelo francês.

No entanto, mesmo que tenha sido agraciado com atualizações importantes no carro no fim de semana do GP da Bélgica, Tsunoda terminou as duas etapas que fez sob o comando de Mekies, incluindo também a Hungria, fora da zona de pontuação — chegando a sete provas consecutivas longe do top-10. Ainda que o objetivo de conquistar o título do Mundial de Construtores já tenha se tornado algo impossível há bastante tempo devido ao domínio da McLaren, a Red Bull não se pode dar ao luxo de ter um dos pilotos anotando 96% do número de pontos e, desta forma, sair do páreo até mesmo da disputa contra Ferrari e Mercedes na briga pelo vice-campeonato — algo inadmissível para um time acostumado a vencer.

Laurent Mekies terá a missão de escolher o dono da segunda vaga na Red Bull (Foto: Meg Oliphant/Getty Images)

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É bem verdade que Mekies, sozinho, está longe de ter o poder de definir quem permanecerá na segunda vaga para o próximo ano. Marko, que costumeiramente detém a palavra final, possui claramente o desejo de priorizar os talentos que tem desenvolvido ao longo dos últimos anos, com destaque maior para Isack Hadjar e Arvid Lindblad — os próximos da fila. Enquanto o primeiro tem chamado atenção na temporada de estreia com a Racing Bulls e se colocado como favorito a uma promoção à equipe principal, o segundo ainda sofre com os altos e baixos na Fórmula 2, mas tem sido preparado para um assento na F1 — inclusive com a superlicença já garantida.

E dependendo dos efeitos que o novo regulamento tiver na categoria e na Red Bull, as duas promessas podem formar a dupla titular dos taurinos no futuro. Em meio às negociações com a Mercedes e à novela que perdurou durante boa parte de 2025, Verstappen bateu o martelo e decidiu ficar em Milton Keynes para o próximo certame. Como as novas regras podem mudar completamente o cenário atual do grid, o neerlandês optou por permanecer quietinho por pelo menos mais 12 meses antes de tomar qualquer decisão acerca do futuro — e não está errado.

No entanto, mesmo com contrato válido até o fim de 2028, não há qualquer garantia de que o tetracampeão vá continuar na escuderia para além de 2026. E é exatamente neste ponto que reside o maior desafio que Mekies terá no cargo de comando: mostrar a Verstappen que todos os problemas que surgiram ao longo dos últimos momentos da gestão de Horner viraram coisas do passado e que a Red Bull tem, sim, a capacidade de se entender novamente, escalar a montanha que enxerga pela frente e voltar a brigar por vitórias e títulos no curto prazo.

A novela sobre o futuro de Max Verstappen vai continuar em 2026 (Foto: Red Bull Content Pool)

Fácil? De maneira alguma. A saída de Horner pode até ter eliminado um empecilho importante na decisão de Max de permanecer, mas no auge dos 27 anos de idade e extremamente ambicioso com aquilo que ainda pretende alcançar, o piloto precisa muito mais do que de apenas um ambiente “calmo e pacífico” no qual possa trabalhar. E somente um carro competitivo o bastante será capaz de fazê-lo preservar a fidelidade que sempre fez tanta questão de proclamar.

Mas Laurent possui os atributos necessários para encarar o desafio. Se será bem-sucedido em todas as tarefas, só o tempo dirá. De qualquer maneira, a Red Bull agora está nas mãos de um profissional experiente e com histórico de competência por onde passou, que só precisa de apoio e paciência para mostrar que a equipe pode vivenciar um novo período de paz e prosperidade.

F1 retorna neste fim de semana, de 29 a 31 de agosto, em Zandvoort , palco do GP dos Países Baixos, 15ª etapa da temporada 2025. O GRANDE PRÊMIO acompanha todas as atividades AO VIVO E EM TEMPO REAL, além de classificação e corrida em SEGUNDA TELA no YouTube, em parceria com a Voz do Esporte. O Briefing chega para analisar após o fim de cada dia de atividades nas redes sociais e na GPTV.

Além da cobertura tradicional, o GRANDE PRÊMIO estará IN LOCO em Zandvoort para acompanhar todas as emoções da etapa com o repórter Leonid Kliuev.

GP dos Países Baixos de F1: veja os horários em Brasil, Cabo Verde, Portugal, Angola e Moçambique:

SessãoBRA*CBVPOR
ANG
MOZ
Treino livre 107:3009:3011:3012:30
Treino livre 211:0013:0015:0016:00
Treino livre 306:3008:3010:3011:30
Classificação10:0012:0014:0015:00
Corrida10:0012:0014:0015:00

*Horários de Brasília

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