F1 que tenta se livrar de Ecclestone anula ações por Mazepin. E pilotos decepcionam

O fato de a FIA, a Fórmula 1 e seus pilotos se calarem diante do repugnante comportamento de Nikita Mazepin coloca o esporte como um todo em risco. É um movimento anacrônico, tão retrógrado quanto a maneira de pensar do ex-chefão do campeonato

Uma das grandes características desta Fórmula 1 administrada pelos americanos do Liberty Media é o esforço para se afastar de qualquer traço de Bernie Ecclestone – o homem que levou o Mundial para o extremo profissionalismo, que estabeleceu padrões altos, mas que também ignorou por completo questões sociais em nome do esporte. De um esporte que jamais poderia levantar bandeiras, defender o que é certo e ou questionar decisões, como a de correr na África do Sul do apartheid ou no Bahrein, cuja população sofre com a perseguição política. Mas não é que o Liberty seja mais sensível a esses fatores, muito pelo contrário – afinal, no calendário de 2021, há uma data para a entrada da Arábia Saudita, país reconhecido por violar os direitos humanos. Só que, diante do acontece agora, o grupo norte-americano, falha miseravelmente nessa empreitada de se distanciar dessas amarras machistas e retrógradas.

Não faz muito tempo, o antigo dirigente criticou o debate sobre diversidade e os atos contra o racismo no esporte. O ex-chefão censurou o trabalho da Fórmula 1 na campanha #WeRaceAsOne, algo como ‘Corremos juntos’ em tradução livre, que trata da igualdade de gênero, da luta contra injustiças sociais, homofobia e o racismo. Falando à CNN sobre o assunto, o britânico disse: “Não acho que vai fazer nem mal e nem bem para a F1. Em muitos casos, os afro-americanos são mais racistas que os brancos”.

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Bernie Ecclestone mandou na F1 por mais de 40 anos e perpetuou um ambiente machista (Foto: Rodrigo Berton/Grande Prêmio)

Os infames comentários foram imediatamente rebatidos pelo comando da categoria. “Em um momento em que a unidade é necessária para combater o racismo e a desigualdade, discordamos completamente das declarações de Bernie Ecclestone, que não têm lugar na Fórmula 1 ou na sociedade”. Foi uma posição firme da F1 contra o ex-mandatário, que já chegou a dizer que “uma mulher jamais seria levada à sério na F1, porque não tem condições físicas de pilotar o carro de maneira rápida”.

Pois bem, essa nova F1 que se mobiliza rápido para desamarrar qualquer laço com Bernie age da mesma forma que ele quando se depara com um caso concreto e hediondo. Ao se calar e aceitar manter Nikita Mazepin no grid, concordando com a decisão da equipe Haas, a maior das categorias deslegitima os avanços feitos para melhorar o tratamento dado às mulheres e ampliar a presença delas no esporte, como o fortalecimento da Comissão de Mulheres da FIA (Federação Internacional de Automobilismo), os projetos para o desenvolvimento de jovens competidoras e a decisão de incorporar a W Series aos eventos da Fórmula 1.

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Então, o que dizer para as meninas que estão tentando entrar no esporte? Como explicar esse silêncio e garantir que esse é um ambiente seguro? Porque a mensagem que fica sobre esse caso é que há um sinal verde para comportamentos como o do russo. Que é permitido assediar e abusar sem qualquer consequência.

Lewis Hamilton vem puxando os protestos contra o racismo na F1 (Foto: Mercedes)

Também, o 2020 que acaba em poucos dias trouxe a essencial discussão sobre o racismo. Hamilton liderou esse movimento sem precedentes na F1 e vem se tornando uma voz cada vez mais potente. Ganhou o apoio de alguns de seus pares, mas ainda parece solitário nesse debate. O mesmo acontece neste momento e é ainda mais decepcionante. Frustra perceber que nenhum piloto levantou uma bandeira ou se pronunciou sobre o caso.  

A violência contra a mulher, o assédio sexual, é algo tão importante quanto os temas que foram tratados este ano. São mortes diárias, brutais, são traumas para uma vida inteira. Não dá mais para fechar os olhos para isso, não dá para ignorar. Talvez porque, como Hamilton para a F1, falte uma mulher que levante a voz. Os 19 outros colegas de Mazepin não sentem na pele o que é isso. O silêncio, no entanto, fala muito.

Porque mostra que, na verdade, a Fórmula 1 opera por efeito-cascata: espera que alguém defenda a causa para ir no embalo. Se um primeiro piloto vai às redes sociais, um segundo ou terceiro se sentem aptos; daí, as equipes seguem o mesmo caminho. No fim das contas, é um mundo de postagem de hashtags. A prática precisa ser aperfeiçoada e, de fato, válida.

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